Após embate entre Zelensky e Trump, líderes europeus manifestam apoio à Ucrânia

Para Lyse Doucet, da BBC, choque que tomou conta do globo após cenas na Casa Branca está aos poucos sendo substituído "pela respiração profunda necessária para encontrar uma saída para esse impasse perigoso"

Por Correio Braziliense 01/03/2025

A acalorada discussão entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, na sexta-feira (28/3), suscitou uma série de respostas de líderes europeus em apoio à Ucrânia.

A reunião entre Trump e Zelensky se transformou em um confronto verbal diante das câmeras da imprensa no Salão Oval da Casa Branca.

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Los presidentes expresaron sus desacuerdos relacionados con los tĂ©rminos de un posible acuerdo de paz con Rusia. – (crĂ©dito: Getty Images)

Trump e seu vice-presidente, JD Vance, exigiram que o presidente ucraniano mostrasse mais gratidĂŁo pelos anos de apoio dos EUA.

Zelensky tambĂ©m foi acusado de estar “jogando com a Terceira Guerra Mundial” ao nĂŁo trabalhar mais por um cessar-fogo com a RĂşssia. Ele negou a afirmação, e suas contrapartes americanas responderam que ele estava sendo “desrespeitoso”.

O ucraniano acabou sendo instruĂ­do a deixar a Casa Branca mais cedo e uma entrevista coletiva ao lado de Trump foi cancelada.

O acordo, pelo qual Zelensky cederia a Washington a exploração dos recursos minerais de seu país em troca de algum tipo de apoio ou garantias de segurança contra a Rússia no conflito que começou em fevereiro de 2022, não foi assinado.

A discussão televisionada foi considerada sem precedentes por analistas. E para o editor de Internacional da BBC, Jeremy Bowen, sinaliza uma crise perigosa entre EUA e Europa.

“A partir de agora, haverá muito mais dĂşvidas e perguntas sobre o compromisso dos EUA com a segurança europeia fora da Ucrânia. A maior delas Ă© se o presidente Trump manterá a promessa que seu antecessor Harry Truman fez em 1949 de tratar um ataque a um aliado da Otan como um ataque Ă  AmĂ©rica”, avalia Bowen.

“Se Trump seguir o colapso das negociações com um congelamento da ajuda militar, a Ucrânia continuará lutando. A questĂŁo Ă© o quĂŁo efetivamente e por quanto tempo.”

“A pressĂŁo sobre os aliados europeus da Ucrânia deve dobrar a partir de agora, para compensar a situação.”

Em meio ao contexto mundial delicado, confira a seguir as mensagens de apoio enviadas por lideranças europeias à Ucrânia.

“Seja forte, seja corajoso, nĂŁo tenha medo”

O presidente francês, Emmanuel Macron, que se encontrou com Trump no início desta semana, disse que o agressor é a Rússia e a vítima é a Ucrânia.

“Há um agressor: a RĂşssia. Há uma vĂ­tima: a Ucrânia. Estávamos certos em ajudar a Ucrânia e em sancionar a RĂşssia há trĂŞs anos – e em continuar a fazĂŞ-lo”.

O chanceler alemĂŁo, Olaf Scholz, tambĂ©m escreveu no X que “ninguĂ©m quer a paz mais do que os ucranianos”, antes de acrescentar que “a Ucrânia pode confiar na Alemanha e na Europa”.

Já Friedrich Merz, que Ă© cotado para suceder Scholz como lĂ­der alemĂŁo, disse que está com a Ucrânia e Zelensky “nos bons e maus momentos. Nunca devemos confundir o agressor com a vĂ­tima nesta guerra terrĂ­vel.”

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, disse que Ă© necessária uma “reuniĂŁo imediata” entre os EUA, a Europa e os seus aliados para discutir a guerra na Ucrânia

Volodymyr Zelensky y Donald Trump discuten en la Casa Blanca

Getty Images
Los presidentes expresaron sus desacuerdos relacionados con los términos de un posible acuerdo de paz con Rusia.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, ainda nĂŁo comentou publicamente sobre o que aconteceu na Casa Branca na sexta-feira. Mas segundo seu gabinete, o premiĂŞ conversou com Trump e Zelensky e disse que mantĂ©m um “apoio inabalável Ă  Ucrânia” e está fazendo “todo o possĂ­vel para encontrar um caminho para uma paz duradoura com base na soberania e segurança da Ucrânia”.

Um encontro entre Zelensky e Starmer está previsto para este sábado (1/3) em Londres.

A delegação ucraniana, que já está em solo britânico, também participará de uma cúpula de líderes europeus organizada por Starmer no domingo (2/3).

Já a presidente da ComissĂŁo Europeia, Ursula von der Leyen, disse que a “dignidade” de Zelensky “honra a bravura do povo ucraniano”.

“Seja forte, seja corajoso, nĂŁo tenha medo”, escreveu nas redes sociais. “VocĂŞ nunca está sozinho, querido presidente. Continuaremos trabalhando com vocĂŞ para uma paz justa e duradoura”

Zelensky deja la Casa Blanca

Getty Images
Zelensky se marchĂł de la Casa Blanca de manera anticipada, segĂşn los periodistas.

A ministra das Relações Exteriores da UE, Kaja Kallas, escreveu: “A Ucrânia Ă© a Europa! NĂłs apoiamos a Ucrânia.”

“Aumentaremos nosso apoio Ă  Ucrânia para que ela possa continuar a lutar contra o agressor. Hoje ficou claro que o mundo livre precisa de um novo lĂ­der. Cabe a nĂłs, europeus, assumir esse desafio”, escreveu ela no X (antigo Twitter).

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchez, escreveu uma curta mensagem em espanhol, inglĂŞs e ucraniano: “Ucrânia, a Espanha está com vocĂŞ”.

“A SuĂ©cia está com a Ucrânia. Eles nĂŁo estĂŁo lutando apenas por sua liberdade, mas pela liberdade de toda a Europa. Slava Ukraini!”, disse ainda gabinete do primeiro-ministro sueco Ulf Kristersson.

O primeiro-ministro da PolĂ´nia, vizinha da Ucrânia, tambĂ©m se manifestou. “Caro Zelensky, queridos amigos ucranianos: vocĂŞs nĂŁo estĂŁo sozinhos!”, escreveu Donald Tusk.

O lĂ­der norueguĂŞs Jonas Gahr Støre tambĂ©m acrescentou seu apoio: “Apoiamos a Ucrânia em sua luta justa por uma paz justa e duradoura.”

Respostas tambĂ©m vieram de fora da Europa. Do Canadá, o primeiro-ministro Justin Trudeau disse “a RĂşssia invadiu a Ucrânia ilegal e injustificadamente”.

“Os ucranianos vĂŞm lutando há trĂŞs anos com coragem e resiliĂŞncia. Sua luta por democracia, liberdade e soberania Ă© uma luta que importa para todos nĂłs. O Canadá continuará a apoiar a Ucrânia e os ucranianos para alcançar uma paz justa e duradoura”, disse ele.

Em resposta a essas e uma dĂşzia de outras mensagens, Zelensky respondeu via X com um “Obrigado pelo seu apoio”.

Já a RĂşssia se pronunciou por meio da porta-voz do MinistĂ©rio das Relações Exteriores, Maria Zakharova. Ela acusou Zelensky de mentir durante seu encontro com Trump, acrescentando que foi “um milagre como Trump e Vance se contiveram e nĂŁo socaram” o ucraniano.

‘Momento decisivo para nova arquitetura’

Para a correspondente-chefe da BBC, Lyse Doucet, este Ă© um momento “decisivo para tentar criar uma nova arquitetura” de apoio no mundo.

Segundo ela, o choque que tomou conta do globo apĂłs a discussĂŁo no SalĂŁo Oval está aos poucos sendo substituĂ­do “pela respiração profunda necessária para encontrar uma saĂ­da para esse impasse perigoso”.

“A Ucrânia sabe, apesar de todas as suas perdas dolorosas nesta guerra, da urgĂŞncia de manter os Estados Unidos ao seu lado. O mesmo acontece com a Europa, que agora se esforça para aumentar seu prĂłprio apoio Ă  sitiada Kiev”, avalia.

“O presidente Trump, que se orgulha de ser o melhor pacificador do mundo, precisa da Ucrânia para fechar qualquer acordo.”

Segundo a jornalista da BBC, a acusação furiosa do lĂ­der americano, compartilhada por seus fervorosos apoiadores, de que o presidente Zelensky “desrespeitou” os Estados Unidos nĂŁo será facilmente esquecida ou perdoada.

“Mas há muitos que culpam o presidente Trump e sua equipe por repreender, atĂ© mesmo aprisionar, um lĂ­der que luta nĂŁo apenas por seu paĂ­s, mas pelos fatos da invasĂŁo em grande escala da RĂşssia e pelas garantias de segurança necessárias para detĂŞ-la.”

“Velhas alianças e suposições nĂŁo sĂŁo apenas destruĂ­das, as peças nĂŁo se encaixam mais. Agora Ă© um momento decisivo para tentar criar uma nova arquitetura.”

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