Artigo sobre o Rio Acre: “É a enchente de humanos que me matam, não sou eu quem prejudico vocês”

"O problema é que ninguém ouve o Rio Acre", diz Gilson Pescador em artigo emocionante

Todo início de ano é a mesma conversa: será que vai dar enchente este ano? A maioria reza para que não, enquanto muitos torcem e fazem promessas para que a enchente seja de proporções diluvianas.

Enchente no bairro Seis de Agosto/ Foto: ContilNet

Assim podem faltar aulas e trabalho, dizer que “perdeu tudo”, enquanto passou o ano inteiro dizendo que não tinha nada, além de ser um cenário especial para melhorar a imagem de políticos, aquela foto no meio da água turva misturada com esgoto, vestido com colete e água na cintura.

A enchente é um momento propício também para esvaziar o egoísmo de muitas pessoas, que se sentem libertadas por doarem alguns sacolões e garrafas de água mineral,  por isso vale também como uma sessão de psicologia e descarrego. Passam a se sentir, ainda que momentaneamente, um ícone da generosidade e solidariedade e se acham mais bonitos no espelho.

Basta transbordar um pouquinho de água nas partes mais baixas do Rio Acre que logo se alardeia: é a enchente de novo, todo ano é assim.

O problema é que ninguém ouve o Rio Acre. E, o pior, é que os rios são os maiores poliglotas da natureza, eles falam e se expressam em várias línguas, da mais falada até aquela língua tribal, eloquente em seus apelos, mas poucos, muito poucos compreendem e os confortam.

O Rio Acre, se é que alguém ainda não entendeu, está dizendo:

“Eu sou normal, eu sou assim nesta época do ano, desde que minha mãe natureza me criou. A enchente que vocês falam não é a minha contra vocês, muito pelo contrário, vocês que me enchem todo ano, inclusive o saco. Até nas minhas partes mais baixas, onde costumo me espreguiçar com pouca água, vocês consideram uma enchente. Não, não é enchente. Esta área de espraiamento faz parte de mim, do meu corpo, da minha personalidade. Vocês que as encheram com casas e barracos, tranqueiras e muito lixo. É a enchente de humanos que me matam, não sou eu que prejudico vocês. Ao contrário, sirvo para matar a sede e a fome, transportar pessoas e mercadorias, irrigar lavouras e refrescar o clima. Enchente mesmo é quando minhas águas, revoltas,  alcançam os barrancos mais altos e me derramo para longe, mas aí também é culpa  de vocês contra mim, que tiraram minhas matas ciliares e me assoriaram,  me obrigando a fugir pelos lados para não me afogar. Não chamem mais de enchente  o simples e normal derramamento de minhas águas nas áreas de espraiamento, porque tecnicamente isto não é enchente, sou eu, calmo. Aprendam sobre mim e a gente poderá se relacionar melhor. Vocês eu conheço muito bem”.

Já faz muitos anos que os nossos “ancestrais” saíram do Segundo Distrito para o lado de cá, para onde se tornou o centro da cidade, onde estão a Catedral e o Palácio do Governo, mas não aprendemos a lição e, se aprendemos, nunca tivemos coragem para resolver o problema de relacionamento de fato e definitivamente, com o Rio Acre.

O remanejamento das pessoas que anualmente são atingidas por tais “enchentes”, para um lugar alto, ainda que com toda estrutura e transporte, nunca vai funcionar, no protocolo, mesmo porque elas não querem. Morar na beira do rio e perto do centro da cidade é inegociável e cultural. E, pelo fato ainda de ser simpático e popular entregar sacolões, tirar fotografias e dar entrevistas com cara de sofrimento, mas é perigoso, impopular e vazante de votos ousar remover tal enchente humana contra sua vontade.

No ano de 2003, quando era Procurador Geral do Município de Rio Branco, presidi uma comissão de técnicos e especialistas e fizemos audiência pública no bairro do Taquari, com muitas pessoas, para dialogar sobre a possibilidade de remoção para um bairro alto da cidade, com toda a estrutura. A certa altura um cidadão pegou o microfone e bradou: “Nois vai, pega a casa, vende e volta pra cá, porque é daqui que a gente gosta”.

Nós somos a enchente, reversa.

Gilson Pescador

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