De acordo com a Foreigh Policy, Se a administração Trump decidir seguir em frente com a redução da presença militar dos EUA na Síria, fará isso em um momento perigoso.
No ano passado, os ataques do ISIS na Síria triplicaram em comparação com o ano anterior. Esse aumento não se trata apenas da quantidade, mas também da complexidade, letalidade e disseminação geográfica dos ataques.
Durante seu primeiro mandato, o presidente Donald Trump declarou: “Eliminamos 100% do califado do ISIS.” No entanto, quase cinco anos depois dessa afirmação, o ISIS não apenas sobreviveu, mas prospera em algumas partes do mundo. O grupo tem se aproveitado de eventos geopolíticos importantes e da redução dos esforços globais de contraterrorismo em diversas regiões críticas – incluindo aquelas onde Trump busca reduzir a presença militar dos EUA. Isso coloca o ISIS em uma posição favorável para um retorno forte neste ano.
O ISIS na Síria
Na Síria, o ISIS se prepara para um novo cenário. Com o colapso do regime de Bashar al- Assad e a ascensão de um governo extremista liderado por Ahmad al-Sharaa, chefe do grupo radical Hayat Tahrir al-Sham, parece improvável que o novo governo consiga monopolizar o uso da força em todo o território sírio.
O novo regime, que chegou ao poder através da força militar e sem eleições legítimas, abriu caminho para uma nova ditadura, desta vez com uma roupagem islamista radical. Segundo a revista Foreign Policy, partes da coalizão de Al-Sharaa podem não aceitar trocar a luta armada pelo processo democrático. Além disso, extremistas vindos do Cáucaso, dos Bálcãs e da Ásia Central, que não se interessam pelo novo governo na Síria, podem optar por se unir ao ISIS e continuar sua jihad – seja na Síria ou em seus países de origem, como China, Tajiquistão e Rússia.
Outro problema crítico na Síria é o status das prisões e campos de detenção que abrigam combatentes do ISIS e suas famílias. Essas instalações, guardadas pelas Forças Democráticas Sírias (FDS) lideradas pelos curdos, estão sob crescente pressão. As FDS enfrentam ataques constantes do Exército Nacional Sírio apoiado pela Turquia, o que enfraquece sua capacidade de segurança.
Além disso, o recente congelamento do financiamento para várias agências do governo dos EUA e programas de ajuda levou à revisão das condições nos campos do nordeste da Síria. O secretário de Estado, Marco Rubio, ordenou a suspensão dos programas de assistência externa, e um empreiteiro americano encarregado de treinar e equipar forças de segurança locais teve que interromper suas operações temporariamente.
Esse cenário levanta preocupações sobre um possível desastre. Colin P. Clarke, diretor de pesquisa do Grupo Soufan, alerta que uma fuga em massa de uma prisão como o campo de Al-Hol – que abriga cerca de 39.000 combatentes do ISIS e seus familiares – “seria uma catástrofe”.
Ele acrescenta que esse evento não apenas fortaleceria as fileiras do ISIS com militantes violentos, mas também representaria uma grande vitória propagandística para o grupo.
Para entender a gravidade dessa ameaça, basta lembrar o que aconteceu em janeiro de 2022, quando o ISIS organizou uma fuga de prisioneiros em uma prisão de Al-Hasakah, na Síria. O confronto resultante durou dez dias e levou à libertação de centenas de combatentes, exigindo a intervenção de forças terrestres e aéreas dos EUA e do Reino Unido para conter a situação.
Essa tática faz parte da estratégia do ISIS desde 2012-2013, quando lançou a campanha “Derrubar os muros” para libertar jihadistas presos no Iraque.
Ano Novo nos EUA, quando um ex-militar americano, inspirado pela doutrina do grupo, cometeu um atentado mortal em Nova Orleans, atropelando pedestres com um caminhão. O ataque matou 14 pessoas e feriu dezenas.
Sinais de alerta piscam em vermelho
Com o aumento da violência inspirada pelo ISIS, os planos de Trump para retirar tropas americanas da Síria geram grande preocupação entre agências de inteligência e segurança. Para muitos especialistas em contraterrorismo, o momento não poderia ser pior.
Em um artigo de junho passado intitulado “Os sinais de alerta do terrorismo estão piscando em vermelho novamente”, Graham Allison, ex-secretário adjunto de Defesa para Políticas e Planos dos EUA, e Michael Morell, ex-vice-diretor da CIA, alertaram que os EUA enfrentam uma “ameaça séria de um ataque terrorista nos próximos meses”.
A administração Trump não é ingênua quanto a essa ameaça. No início de fevereiro, ordenou ataques aéreos contra alvos do ISIS na Somália. Alguns analistas acreditam que essas ações, assim como os ataques contra membros da Al-Qaeda na Síria, demonstram que Trump está menos disposto do que seu antecessor, Joe Biden, a lidar com um novo regime na Síria com fortes laços terroristas.

