Ex-governadora do Acre contesta heroísmo de coronel da PM de RO e explica perda de vilas no estado

"Questão foi vencida porque os governos do Acre fizeram pouco caso em relação às vilas", afirma a ex-governadora

Saudado como herói em sua terra natal, o ex-comandante da Policia Militar de Rondônia, coronel Walmir Ferro de Souza, falecido em Porto Velho, na semana passada, aos 76 anos, por ter sido a principal autoridade a expulsar a Polícia Militar do Acre (PMAC) das localidades de Extrema e Nova Califórnia, na divisa dos dois estados, teve contestada o heroísmo a ele atribuído por seus colegas de farda e concidadãos rondonienses por ninguém menos que a ex-governadora Iolanda Fleming, de 88 anos. Ela foi a 4ª vice-governadora do Acre de 1983 a 1986 e a 9ª governadora de 1986 a 1987, sendo a primeira mulher a governar um estado brasileiro.

Iolanda Fleming contesta heroísmo atribuído a coronel da PM de Rondônia, pela perda das vilas Extrema e Nova Califórnia. Foto: Reprodução

A representante estadual e comandante em chefe da PMAC na época, disse que a corporação acreana não se acovardou e que o Estado perdeu as duas localidades porque os governos que a sucederam, inclusive de seu Partido, o MDB, não tinham interesses em permanecer com as vilas como parte do território estadual.

“Vou morrer sempre afirmando que as duas vilas pertencem ao Acre e que se perdemos o território para Rondônia, aquele Estado deve ao Acre no mínimo um indenização pelos investimentos que fizemos na região na época”, afirmou Iolanda nesta terça-feira (18), em entrevista ao ContilNet.

A ex-governadora, historicamente apontada por Rondônia como quem teria invadido o território, disse que só tomou a decisão de ocupar as vilas militarmente após um estudo da Procuradoria Geral do Estado (PGR), na pessoa do então procurador Hélio Freitas, jurista acreano já falecido, que apontou indefinição nas fronteiras e divisas do Acre com os estados de Rondônia e do Amazonas. De acordo com o estudo, Extrema e Nova Califórnia, na divisa com Rondônia, eram território do Acre desde o principio da ocupação da região, no início do século passado.

“Só como um exemplo dessa indefinição, eu costumo citar que a divisa do Acre com o Amazonas, na região do Iaco, ficava exatamente no lugar onde hoje é a principal praça da cidade, a 25 de setembro, no centro, em frente à sede da Prefeitura”, disse.

Além da indefinição, segundo Fleming, havia informações, que chegaram a seu conhecimento de forma reservada, que Rondônia vinha ocupando a duas vilas de forma ilegal desde o governo de Jerônimo Santana, eleito em 1982, pelo MDB.

“Como eles não tinham onde colocar os catarinenses, gaúchos, paranaenses, capixabas e migrantes de outros estados, acabam enviando todos para aquelas vilas. Quando assumi o governo, os então deputados Félix Pereira e Raimundo Sals, que tinham votos na região, me comunicaram que crianças não vacinadas de sarampo e doenças que causam difteria estavam morrendo à mingua. Fui lá, constatei e mandei aumentar a presença do Estado na região, construindo hospital, delegacia e quartel de polícia, prédio da receita estadual e levamos até posto do Banacre para o local”, acrescentou Iolanda. “Daí aí então que o governo de Rondônia cresceu o olho e ameaçou também invadir a região militarmente”, acrescentou.

A ex-gestora nomeou como interventor das duas vilas o então comandante da Polícia do Acre, coronel Cícero Pereira Benício, e o então tenente-coronel Hildebrando Pascoal como o comandante na localidade. “O que eu sei, depois que me informaram depois que sai do Governo, é que a Polícia Militar de Rondônia, formada basicamente por oficiais estranhos à região amazônica, que nada conheciam de mato, souberam que não tinham condições de enfrentar os soldados acreanos e, ao invés de atuarem militarmente, o governo rondoniense passou a atuar politicamente junto ao governo do Acre para se apossar das terras”, disse a ex-governadora, sem citar nomes.

Imagens de Nova Califórnia, Rondônia, em 2022. Foto: Reprodução/UOL

“Depois que saí do governo, embora quem ficou no lugar também fosse do meu Partido, o MDB, concluiu que, se a Extrema se tornasse um território acreano de fato, os Fleming, e eu principalmente, nunca mais perderíamos uma eleição no lugar e o lugar passaria a ser o segundo maior colégio eleitoral no Acre. Então fizeram pouco caso com a questão e acabamos por perder as duas localidades”, revelou.

Iolanda Fleming foi sucedida no governo pelo então governador Flaviano Melo, em 1988, falecido em novembro de 2024. As duas vilas passaram a ser território de Rondônia em 1997, por decisão do Supremo Tribunal federal (STF). “O que eu soube é que, na época, o governo do Acre não mandou nem advogado para defender o Acre no Supremo”, reclamou a ex-governadora.

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