Quem Ă© PeixĂŁo, o traficante ‘evangĂ©lico’ dono de um impĂ©rio religioso-criminal

Foragido da Justiça, o líder do TCP é acusado de impor domínio religioso sobre algumas favelas do Rio, perseguindo praticantes de religiÔes de matriz africana e católicos

Por Carta Capital 11/03/2025

O Rio de Janeiro amanheceu nesta terça-feira, 11, sob mais uma operação policial digna de um roteiro de cinema surrealista. Agentes das Polícias Civil e Militar avançaram sobre o chamado Complexo de Israel, na zona norte da capital fluminense, para desmantelar um resort de luxo e uma academia com equipamentos de ponta. Ambos pertenceriam ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão.

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Quem Ă© PeixĂŁo, o traficante ‘evangĂ©lico’ dono de um impĂ©rio religioso-criminal. Foto: Reprodução

Líder da facção Terceiro Comando Puro, que rivaliza com o Comando Vermelho, Peixão é hoje um dos criminosos mais procurados do Rio. Nunca foi preso. Foi ele quem batizou a região em alusão ao país do Oriente Médio.

O escolha do nome nĂŁo foi aleatĂłria. Como detalhou CartaCapital em julho de 2024, PeixĂŁo afirma que sua facção se “converteu ao Evangelho”. A conversĂŁo, no entanto, veio acompanhada de perseguição religiosa. O primeiro alvo foram as religiĂ”es de matriz africana — em algumas favelas, chegou-se a proibir o uso de roupas brancas. Depois, foi a vez dos catĂłlicos: tradicionais festas juninas promovidas por parĂłquias foram banidas.

AlĂ©m de rebatizar o territĂłrio — que abarca as comunidades de Parada de Lucas, VigĂĄrio Geral, Cidade Alta, Cinco Bocas e Pica-Pau — PeixĂŁo mandou pintar bandeiras de Israel nas paredes externas de casas. No alto de uma das comunidades, foi instalada uma estrela de Davi. O prĂłprio traficante adotou um novo nome: ArĂŁo, em referĂȘncia ao personagem bĂ­blico irmĂŁo de MoisĂ©s. Seus seguranças mais prĂłximos passaram a ser chamados de Tropa de ArĂŁo.

A apropriação de sĂ­mbolos religiosos por facçÔes criminosas nĂŁo Ă© novidade, mas o caso do Complexo de Israel evidencia um fenĂŽmeno mais amplo de instrumentalização da fĂ© no contexto da violĂȘncia urbana.

“Cada grupo evangĂ©lico apropria-se das ferramentas que estĂŁo ao seu alcance. Os megatemplos investem em culturas arquitetĂŽnicas grandiosas e mĂ­dias digitais. As igrejas comunitĂĄrias apropriam-se melhor da convivĂȘncia cotidiana, da atenção Ă s bĂĄsicas de fome, roupa, afeto. JĂĄ os grupos ligados ao narcotrĂĄfico manifestam suas linguagens atravĂ©s da violĂȘncia, em nome daquilo que acreditam”, destacou a pesquisadora Rita Alves, pĂłs-doutora em Planejamento Urbano e e Regional pela UFRJ e autora do livro Urbanidade Gospel: Megatemplos EvangĂ©licos na ExperiĂȘncia Urbana.

Ela pondera, contudo, que essas facçÔes nĂŁo representam a totalidade do pentecostalismo. “Essas facçÔes nĂŁo sĂŁo maiores que a diversidade religiosa evangĂ©lica, que atua para o bem e faz frente contra a intolerĂąncia”, reforçou.

A operação
Imagens divulgadas pelo governo do Rio de Janeiro mostram a chegada de policiais ao “resort” de propriedade de PeixĂŁo nesta terça-feira 11. Chama atenção um lago artificial que era usado para criação de carpas. A academia, equipada com aparelhos de Ășltima geração, teve os equipamentos retirados e confiscados — segundo informaçÔes oficiais, serĂŁo reaproveitados na preparação fĂ­sica de agentes de segurança pĂșblica.

Moradores da região relataram intenso tiroteio desde as primeiras horas da manhã. A circulação de trens de passageiros e de Înibus foi interrompida em diversas linhas. A Avenida Brasil, uma das principais vias da cidade e um dos acessos à região do do Complexo de Israel, chegou a ser interditada.

“O crime de terrorismo tem a ver com questĂ”es polĂ­ticas ou religiosas. No caso do PeixĂŁo, sabemos que ele impĂ”e uma ditadura religiosa, ele nĂŁo permite certos tipos de crenças ou religiĂ”es. Ele expulsa pessoas que possuem religiĂ”es afro, candomblĂ©, espiritismo, enfim, tudo o que nĂŁo tiver com a crença que ele acredita. NĂŁo podemos permitir isso”, declarou o delegado Felipe Curi, chefe da PolĂ­cia Civil, em declaraçÔes registradas pelo G1.

Até 10h30 desta terça-feira não havia um balanço da operação.

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