O poeta paraibano Antônio Mendes da Rocha, falecido em 2007, com mais de 90 anos de idade, tinha profundas ligações com o Acre, onde costumava passar temporadas por ser pai da médica pneumologista Célia Rocha — uma das mais antigas profissionais da medicina acreana, com mais de 40 anos de atuação. Ele vem sendo muito lembrado em sua terra natal, o Estado da Paraíba, por ter sido o autor da letra e da música do hino oficial do município de Juarez Távora (PB).
O município está localizado na Paraíba, na região Nordeste do Brasil, e possui uma população estimada em cerca de 4 mil habitantes, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O nome da cidade homenageia uma figura política da chamada “Velha República”, nos tempos de Getúlio Vargas: Juarez Távora, que chegou a ser deputado federal e candidato derrotado à presidência da República.
Apesar de levar o nome de um político e militar polêmico, a cidade de Juarez Távora é conhecida por sua tranquilidade e belezas naturais, com paisagens rurais, rios e cachoeiras que atraem turistas em busca de ecoturismo e contato com a natureza. A cidade também possui uma rica história e cultura, com festas tradicionais, como a de São Sebastião, realizada anualmente, que reúne moradores e visitantes em celebrações religiosas e festivas.
Juarez Távora também se destaca pela agricultura familiar, com o cultivo de produtos como milho, feijão, mandioca e frutas tropicais, contribuindo para a economia local. É um local ideal para quem busca tranquilidade, contato com a natureza e um mergulho na cultura e tradições do interior da Paraíba.
Foi certamente desse universo que Antônio Mendes da Rocha — que também foi comerciante na capital João Pessoa — extraiu os elementos básicos para compor os versos do hino de sua cidade natal. Por isso, a médica Célia Rocha, uma das sobreviventes do trágico voo da Rico, no qual morreram 23 pessoas em agosto de 2002, fala com orgulho sobre o poeta que foi seu pai.
“Meu pai tocava muito violão, gostava de cantar, era músico e poeta. Foi para João Pessoa tentar sua independência aos 19 anos. Nessa época ainda morava na sua cidade natal, Juarez Távora. Em um intervalo de um ano e meio, perdeu o pai, a mãe e a irmã mais velha. Ela tocava na Banda Oficial do município, e ele já havia composto a letra do hino da cidade”, relembra a médica.

Antônio Mendes da Rocha e sua esposa/Foto: Reprodução
Ferido pelas perdas familiares, Antônio Mendes da Rocha vendeu o gado que tinha em uma pequena fazenda, arrendou o pasto, abandonou o posto na banda de música do município e rumou para a capital, João Pessoa. Lá, assumiu a vida de comerciante.
“Iniciou como empregado e terminou como proprietário de um armazém de secos e molhados. Foi nessa época que conheceu e se apaixonou pela minha mãe. Diga-se de passagem, ele estava noivo de outra moça, com casamento marcado, inclusive já com os convites expedidos para amigos e familiares”, conta Célia Rocha.
No entanto, o namoro, noivado e casamento com Maria Eunice Mendes da Rocha, mãe da médica, duraram apenas três meses até o casamento. “Daí por diante, jamais se separaram e viveram juntos por mais de 60 anos”, afirma a filha, orgulhosa. “Ele adorava tomar uma boa cachaça nordestina de engenho, gostava de um bom vinho e, sobretudo, da música”, acrescenta.
Mas, em 2007, depois de tantas idas e vindas a Rio Branco — onde acompanhava a filha no seu cotidiano médico —, a vida terrena do poeta chegou ao fim. “No dia da cirurgia, eu estava atendendo no consultório por volta das 14h. Ele me ligou. Conversamos um tempo, ele sempre bem-humorado. Eu disse o quanto o amava, o quanto ele era especial para mim: pai, amigo, companheiro… Naquela tarde, ele foi para o centro cirúrgico cantarolando uma música de sua juventude:
‘Oh linda imagem de mulher que me seduz,
Aí se eu pudesse, te daria um altar.
És a rainha dos meus sonhos, és a lua, és malandrina,
Não precisas trabalhar.’”
Célia Rocha conta que, na época, fazia tratamento de câncer de mama em São Paulo, com as devidas revisões. “No dia seguinte, viajei para São Paulo para fazer exames. Cheguei pela manhã. No dia seguinte, cedo, fui ao Hospital Sírio-Libanês fazer uma cintilografia óssea. Quando retornei para casa, recebi a notícia do falecimento do meu pai. Imediatamente comprei passagem para João Pessoa e cheguei ainda no entardecer daquele dia.”
O poeta, segundo ela, estava com um semblante sereno, uma expressão de felicidade e paz. “Expressão de dever cumprido, missão cumprida. Uma verdadeira vitória”, conclui, emocionada.


