O Ministério Público de São Paulo arquivou um inquérito policial contra um deputado, dois delegados e um advogado delatados pelo corretor de imóveis Vinicius Gritzbach. Eles eram suspeitos de cobrar mais de R$ 4,2 milhões em propina para não incriminar o delator por lavagem de dinheiro.

Vinícius Gritzbach durante reunião com o Ministério Público em julho de 2024 — Foto: Reprodução
Gritzbach foi morto com oito tiros de fuzil em novembro do ano passado no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.
A Procuradoria avaliou que não há provas de que os investigados cometeram o crime de corrupção, segundo o G1. O arquivamento da apuração sobre os citados por Gritzbach ocorreu em 17 de março pelo MP.
Os até então investigados eram o deputado estadual Antonio Olim, delegado licenciado filiado ao PP, além dos delegados Fábio Pinheiro Lopes, o ‘Fábio Caipira’, até aquele momento diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), e Murilo Roque, que estava na delegacia de São Bernardo do Campo.
Na época em que as investigações vieram à tona, os três negaram envolvimento com Gritzbach.
Ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP, o delator citou que o dinheiro foi pedido por seu então advogado, Ramsés Benjamin Samuel Costa Gonçalves, que ganhou honorários de R$ 800 mil.
De acordo com Gritzbach, sua defesa havia alegado que os delegados queriam R$ 4,2 milhões para deixá-lo de fora de uma investigação sobre corrupção. Gritzbach lavava dinheiro do tráfico de drogas para o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa paulista.
Segundo o procurador de Justiça Sérgio Turra Sobrane, ainda de acordo com o G1, foi constatada a “inexistência de confirmação por outras provas” na denúncia feita por Gritzbach. Sobrane coordena a Assessoria de Competência Originária Criminal, um órgão da Procuradoria Geral de Justiça que atua em investigações com autoridades com prerrogativa de foro, caso de Olim.
“A verdade sempre prevalece. Hoje, a Justiça confirmou o que sempre sustentamos: minha total inocência no chamado caso Gritzbach. Fui alvo de acusações mentirosas, mas, como sempre confiei, a verdade venceu”, informa o deputado Olim, em nota, depois do desfecho da investigação.
Citação a Olim
Segundo a delação, Ramsés “teria feito reunião com o Deputado Olim, Dr. Fábio Caipira, diretor do DEIC e Dr. Murilo, titular do 24 DP na época dos fatos”. “Para tudo isso me cobrou o valor de 5 milhões, sendo 800 mil de honorários e o resto de propina”, declarou Gritzbach.
O deputado Delegado Olim é um dos principais representantes dos interesses da Polícia Civil na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). Com longa trajetória na carreira policial, está em seu terceiro mandato e atualmente é líder do PP na Casa. Durante a transição do governo de São Paulo, em dezembro de 2022, foi cogitado para o posto de secretário-adjunto da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, mas não chegou a assumir o cargo.
O parlamentar nega que tenha recebido qualquer valor e diz que apenas fez a ponte entre o advogado e o chefe do Deic, procedimento que, segundo afirma, tem como rotina. Também apresentou mensagens que disse ter enviado a Ramsés mais de um ano depois dos supostos pagamentos, em 20 de junho de 2023, nas quais desautorizaria o advogado a usar o seu nome. No mesmo dia, também falou com Fábio Caipira para não confiar em Ramsés. O advogado, porém, nega que tenha tido qualquer estranhamento com Olim.
‘Rabo do Deic’
Fábio Pinheiro Lopes chegou ao Deic no início de 2022, cerca de um mês antes da instauração do inquérito contra Gritzbach naquele departamento. Antes, foi diretor do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).
Ao GLOBO, o delegado disse que o Deic não conferiu nenhum dos supostos benefícios pretendidos pelo delator, já que houve o bloqueio de imóveis de Gritzbach no inquérito conduzido pelo departamento, e que até hoje o passaporte do delator está no local. Em 13 de julho de 2022, quase três meses após a visita de Ramsés à sede do Deic, o advogado apresentou uma petição à Justiça para que o inquérito fosse retirado de lá e transferido para o 24° DP. O pedido foi negado.
“Tomei conhecimento de que esse investigado afirmou que um advogado chamado Ramsés disse a ele que poderia resolver seus problemas mediante o pagamento de propina. Com relação ao Deic, posso asseverar que a investigação envolvendo Gritzbach foi realizada dentro da mais estrita legalidade. Dessa forma, ou Gritzbach deliberadamente faltou com a verdade para obter vantagens em seu acordo de delação premiada, ou foi enganado pelo mencionado advogado”, disse Fábio Caipira, em nota anterior ao afastamento.
Em um áudio atribuído a Ramsés e anexado ao acordo de delação, o autor da gravação diz a Gritzbach que “ficou um rabo do Deic”, em referência a uma quantia que faltaria ser acertada. O suposto advogado sugere que daria esse valor adicional a um escrivão de nome Carlos. “O Carlos vai ser muito útil pra gente. Eu já percebi isso ontem”, declarou.
Ramsés disse ao GLOBO não reconhecer a autoria do áudio. Em relação ao suposto pagamento de propina, afirmou ser “absolutamente contrário a esse tipo de procedimento”. “Jamais fiz nenhuma tratativa de dinheiro dentro do Deic”, assegurou.
Antes de ser afastado, o delegado Murilo Fonseca Roque, hoje no 3° DP de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, também negou ter recebido qualquer valor de Gritzbach:
— O que o Vinicius falou é mentira. Ainda estou trabalhando no mesmo inquérito, inclusive junto com o pessoal do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo). O Vinicius tinha cinco advogados. Em razão desse nome não ser um nome comum, me lembro. Mas nunca me reuni com ele. Falar, até papagaio fala — afirmou à reportagem.
