Paciente alvo de deboche fez carta com Ășltimo desejo antes de morrer

A histĂłria de VitĂłria Chaves da Silva, de 26 anos, foi exposta por duas alunas de medicina, em um vĂ­deo, 11 dias antes de ela morrer

Por MetrĂłpoles 10/04/2025

Antes mesmo de nascer, Vitória Chaves da Silva teve a morte decretada por um pediatra. Um dos ultrassons feitos durante o pré-natal mostrou que ela nasceria com uma anomalia no coração: a de Ebstein, um problema cardíaco raro e incuråvel, caracterizado pela må-formação das vålvulas do órgão.

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Arquivo Pessoal

Contrariando o prognĂłstico mĂ©dico, que lhe deu 15 dias de expectativa de vida, e fazendo jus ao nome escolhido pela mĂŁe, VitĂłria viveu o mĂĄximo que pĂŽde, ajudada pelos quatro coraçÔes que pulsaram em seu peito nos 26 anos em que viveu. O ineditismo dos trĂȘs transplantes cardĂ­acos aos quais foi submetida, entre a infĂąncia e inĂ­cio da vida adulta, foram mostrados pelo MetrĂłpoles.

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Arquivo Pessoal

O desejo

Diante das complicaçÔes causadas no Ășltimo procedimento e percebendo que o fim da vida se aproximava, VitĂłria escreveu uma carta para a famĂ­lia descrevendo os Ășltimos desejos.

A mãe dela, Clåudia Aparecida da Rocha Chaves, afirmou ao Metrópoles que a filha pediu, no manuscrito, para ser sepultada em Luziùnia (GO), onde morava com a família. A vida dela se alternou entre períodos de internação em São Paulo e o convívio com os familiares no Centro-Oeste brasileiro.

O desejo de VitĂłria, porĂ©m, ainda nĂŁo se concretizou, porque a mĂŁe e irmĂŁ permanecem na capital paulista. QuestĂ”es burocrĂĄticas impedem que ambas voltem para GoiĂĄs no momento. As cinzas da jovem permanecem com as duas, aguardando que o Ășltimo desejo dela seja realizado.

“Na carta, ela fala que queria ser sepultada sozinha, em um tĂșmulo sĂł dela, mas perto de um tio de quem gostava muito”, contou ClĂĄudia.

A mĂŁe da jovem solicitou que a carta nĂŁo fosse divulgada na Ă­ntegra, a fim de respeitar a privacidade de VitĂłria.

VĂ­deo:

 

O caso

Duas estudantes de medicina postaram um vĂ­deo, tirado do ar na terça-feira (8/4) do TikTok (assista acima), no qual expĂ”em a histĂłria da paciente VitĂłria Chaves da Silva, 11 dias antes de a jovem morrer de insuficiĂȘncia renal, em 28 de fevereiro, no Instituto do Coração (Incor) do Hospital das ClĂ­nicas da Faculdade de Medicina da USP.

Nas imagens, apesar de nĂŁo citarem o nome da paciente, as alunas Gabrielli Farias de Souza (no vĂ­deo, de cabelos loiros) e ThaĂ­s Caldeiras Soares Foffano (no vĂ­deo, Ă  direita, de cabelos escuros) mencionam os trĂȘs transplantes cardĂ­acos e indicaram quando os procedimentos foram feitos — na infĂąncia, na adolescĂȘncia e no inĂ­cio da maioridade —, o que coincide com o caso de VitĂłria, o Ășnico do Brasil.

No vĂ­deo, Gabrielli dĂĄ detalhes dos procedimentos aos quais VitĂłria foi submetida. “A segunda vez ela transplantou e nĂŁo tomou os remĂ©dios que deveria tomar, o corpo rejeitou [o ĂłrgĂŁo] e teve que transplantar de novo, por um erro dela [VitĂłria]. Agora ela transplantou de novo, [o corpo] aceitou, mas o rim nĂŁo lidou bem com as medicaçÔes.” Logo depois, ThaĂ­s afirma que a paciente “acha que tem sete vidas”.

A postagem, feita em 17 de fevereiro, foi visualizada por pouco mais de 212 mil pessoas, o suficiente para um amigo reconhecer o caso e enviar uma mensagem de texto Ă  famĂ­lia da amiga, no Ășltimo dia 3, como relatou Giovana Chaves dos Santos, de 19 anos, irmĂŁ da paciente.

A exposição revoltou a irmĂŁ e a mĂŁe da paciente. Elas decidiram registrar um boletim de ocorrĂȘncia e acionaram o MinistĂ©rio PĂșblico de SĂŁo Paulo (MPSP), alĂ©m do Incor.

VitĂłria morreu 11 dias depois de o vĂ­deo ir ao ar, devido a um choque sĂ©ptico e Ă  insuficiĂȘncia renal crĂŽnica. A morte ocorreu um ano apĂłs o terceiro transplante de coração e dois anos depois de um transplante de rim, ĂłrgĂŁo que ficou comprometido durante o tratamento cardĂ­aco da jovem.

Em nota assinada por ambas as estudantes e a equipe de advogados, elas afirmam que o conteĂșdo divulgado no TikTok “teve como Ășnica intenção expressar surpresa diante de um caso clĂ­nico mencionando no ambiente de estĂĄgio”.

As alunas dizem que a raridade da situação despertou a “curiosidade acadĂȘmica” e as fez refletir sobre aspectos tĂ©cnicos inĂ©ditos para as estudantes.

O comunicado ainda afirma que Gabrielli e ThaĂ­s nĂŁo tiveram acesso ao prontuĂĄrio da paciente. “NĂŁo sabĂ­amos quem era.” AlĂ©m disso, informa que nĂŁo foi divulgada nenhuma imagem de VitĂłria.

A dupla de estudantes nega ter havido “qualquer deboche ou insensibilidade”. “Nosso compromisso com a vida, a dignidade humana e os princĂ­pios Ă©ticos da medicina permanece inabalĂĄvel.”

Por fim, as investigadas manifestaram solidariedade Ă  famĂ­lia de VitĂłria e afirmam estar tomando as providĂȘncias para esclarecer o caso e preservar a “integridade pessoal, acadĂȘmica e emocional”.

Ao MetrĂłpoles ThaĂ­s afirmou que a exposição do caso estĂĄ sendo muito dolorosa e alegou que os fatos estĂŁo sendo distorcidos. “Como fica a saĂșde mental de uma estudante que Ă© vĂ­tima do Ăłdio disseminado pela mĂ­dia?”

Mãe contesta declaraçÔes

ClĂĄudia, mĂŁe de VitĂłria, contestou as declaraçÔes das estudantes. “O que elas dizem Ă© inverĂ­dico e temos provas de tudo, de que ela [VitĂłria] seguia o tratamento Ă  risca”, diz.

“A gente sempre acompanhou a VitĂłria. A gente sabia o quanto ela lutava para viver, nĂ©? Tanto Ă© que tem um monte de ofĂ­cio na promotoria de a gente pedindo ajuda com medicação, com passagem para vir no tratamento. Ela nunca faltou a uma consulta sequer, nĂ©? E minha filha tinha sede de vida. Tudo o que ela queria era viver. AĂ­ vem uma pessoa e diminui a histĂłria dela, eu nĂŁo aceito, quero justiça”, desabafou ClĂĄudia.

O que dizem Incor e USP

Em nota, o Incor informou nĂŁo divulgar dados de pacientes. A instituição afirmou, ainda, repudiar “veementemente” atitudes que violem os princĂ­pios da Ă©tica e confidencialidade. O instituto acrescentou que apura “rigorosamente o caso mencionado”, ressaltando que “adotarĂĄ todas as medidas cabĂ­veis”.

Procurada, a Faculdade de Medicina da Universidade de SĂŁo Paulo (USP) disse que as alunas atualmente nĂŁo tĂȘm qualquer vĂ­nculo acadĂȘmico com a universidade ou com o Incor. As estudantes estavam no hospital em função de um curso de extensĂŁo de curta duração (um mĂȘs). “Assim que foi tomado conhecimento do fato, as universidades de origem das estudantes foram notificadas para que possam tomar as providĂȘncias cabĂ­veis”, diz nota.

“Internamente, a USP estĂĄ tomando medidas adicionais para reforçar junto aos participantes de cursos de extensĂŁo as orientaçÔes formais sobre conduta Ă©tica e uso responsĂĄvel das redes sociais, alĂ©m da assinatura de um termo de compromisso com os princĂ­pios de respeito aos pacientes e aos valores que regem a atuação da instituição”, completa o texto.

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