Antes mesmo de nascer, VitĂłria Chaves da Silva teve a morte decretada por um pediatra. Um dos ultrassons feitos durante o prĂ©-natal mostrou que ela nasceria com uma anomalia no coração: a de Ebstein, um problema cardĂaco raro e incurĂĄvel, caracterizado pela mĂĄ-formação das vĂĄlvulas do ĂłrgĂŁo.
Contrariando o prognĂłstico mĂ©dico, que lhe deu 15 dias de expectativa de vida, e fazendo jus ao nome escolhido pela mĂŁe, VitĂłria viveu o mĂĄximo que pĂŽde, ajudada pelos quatro coraçÔes que pulsaram em seu peito nos 26 anos em que viveu. O ineditismo dos trĂȘs transplantes cardĂacos aos quais foi submetida, entre a infĂąncia e inĂcio da vida adulta, foram mostrados pelo MetrĂłpoles.

Arquivo Pessoal
O desejo
Diante das complicaçÔes causadas no Ășltimo procedimento e percebendo que o fim da vida se aproximava, VitĂłria escreveu uma carta para a famĂlia descrevendo os Ășltimos desejos.
A mĂŁe dela, ClĂĄudia Aparecida da Rocha Chaves, afirmou ao MetrĂłpoles que a filha pediu, no manuscrito, para ser sepultada em LuziĂąnia (GO), onde morava com a famĂlia. A vida dela se alternou entre perĂodos de internação em SĂŁo Paulo e o convĂvio com os familiares no Centro-Oeste brasileiro.
O desejo de VitĂłria, porĂ©m, ainda nĂŁo se concretizou, porque a mĂŁe e irmĂŁ permanecem na capital paulista. QuestĂ”es burocrĂĄticas impedem que ambas voltem para GoiĂĄs no momento. As cinzas da jovem permanecem com as duas, aguardando que o Ășltimo desejo dela seja realizado.
âNa carta, ela fala que queria ser sepultada sozinha, em um tĂșmulo sĂł dela, mas perto de um tio de quem gostava muitoâ, contou ClĂĄudia.
A mĂŁe da jovem solicitou que a carta nĂŁo fosse divulgada na Ăntegra, a fim de respeitar a privacidade de VitĂłria.
VĂdeo:
O caso
Duas estudantes de medicina postaram um vĂdeo, tirado do ar na terça-feira (8/4) do TikTok (assista acima), no qual expĂ”em a histĂłria da paciente VitĂłria Chaves da Silva, 11 dias antes de a jovem morrer de insuficiĂȘncia renal, em 28 de fevereiro, no Instituto do Coração (Incor) do Hospital das ClĂnicas da Faculdade de Medicina da USP.
Nas imagens, apesar de nĂŁo citarem o nome da paciente, as alunas Gabrielli Farias de Souza (no vĂdeo, de cabelos loiros) e ThaĂs Caldeiras Soares Foffano (no vĂdeo, Ă direita, de cabelos escuros) mencionam os trĂȘs transplantes cardĂacos e indicaram quando os procedimentos foram feitos â na infĂąncia, na adolescĂȘncia e no inĂcio da maioridade â, o que coincide com o caso de VitĂłria, o Ășnico do Brasil.
No vĂdeo, Gabrielli dĂĄ detalhes dos procedimentos aos quais VitĂłria foi submetida. âA segunda vez ela transplantou e nĂŁo tomou os remĂ©dios que deveria tomar, o corpo rejeitou [o ĂłrgĂŁo] e teve que transplantar de novo, por um erro dela [VitĂłria]. Agora ela transplantou de novo, [o corpo] aceitou, mas o rim nĂŁo lidou bem com as medicaçÔes.â Logo depois, ThaĂs afirma que a paciente âacha que tem sete vidasâ.
A postagem, feita em 17 de fevereiro, foi visualizada por pouco mais de 212 mil pessoas, o suficiente para um amigo reconhecer o caso e enviar uma mensagem de texto Ă famĂlia da amiga, no Ășltimo dia 3, como relatou Giovana Chaves dos Santos, de 19 anos, irmĂŁ da paciente.
A exposição revoltou a irmĂŁ e a mĂŁe da paciente. Elas decidiram registrar um boletim de ocorrĂȘncia e acionaram o MinistĂ©rio PĂșblico de SĂŁo Paulo (MPSP), alĂ©m do Incor.
VitĂłria morreu 11 dias depois de o vĂdeo ir ao ar, devido a um choque sĂ©ptico e Ă insuficiĂȘncia renal crĂŽnica. A morte ocorreu um ano apĂłs o terceiro transplante de coração e dois anos depois de um transplante de rim, ĂłrgĂŁo que ficou comprometido durante o tratamento cardĂaco da jovem.
Em nota assinada por ambas as estudantes e a equipe de advogados, elas afirmam que o conteĂșdo divulgado no TikTok âteve como Ășnica intenção expressar surpresa diante de um caso clĂnico mencionando no ambiente de estĂĄgioâ.
As alunas dizem que a raridade da situação despertou a âcuriosidade acadĂȘmicaâ e as fez refletir sobre aspectos tĂ©cnicos inĂ©ditos para as estudantes.
O comunicado ainda afirma que Gabrielli e ThaĂs nĂŁo tiveram acesso ao prontuĂĄrio da paciente. âNĂŁo sabĂamos quem era.â AlĂ©m disso, informa que nĂŁo foi divulgada nenhuma imagem de VitĂłria.
A dupla de estudantes nega ter havido âqualquer deboche ou insensibilidadeâ. âNosso compromisso com a vida, a dignidade humana e os princĂpios Ă©ticos da medicina permanece inabalĂĄvel.â
Por fim, as investigadas manifestaram solidariedade Ă famĂlia de VitĂłria e afirmam estar tomando as providĂȘncias para esclarecer o caso e preservar a âintegridade pessoal, acadĂȘmica e emocionalâ.
Ao MetrĂłpoles ThaĂs afirmou que a exposição do caso estĂĄ sendo muito dolorosa e alegou que os fatos estĂŁo sendo distorcidos. âComo fica a saĂșde mental de uma estudante que Ă© vĂtima do Ăłdio disseminado pela mĂdia?â
Mãe contesta declaraçÔes
ClĂĄudia, mĂŁe de VitĂłria, contestou as declaraçÔes das estudantes. âO que elas dizem Ă© inverĂdico e temos provas de tudo, de que ela [VitĂłria] seguia o tratamento Ă riscaâ, diz.
âA gente sempre acompanhou a VitĂłria. A gente sabia o quanto ela lutava para viver, nĂ©? Tanto Ă© que tem um monte de ofĂcio na promotoria de a gente pedindo ajuda com medicação, com passagem para vir no tratamento. Ela nunca faltou a uma consulta sequer, nĂ©? E minha filha tinha sede de vida. Tudo o que ela queria era viver. AĂ vem uma pessoa e diminui a histĂłria dela, eu nĂŁo aceito, quero justiçaâ, desabafou ClĂĄudia.
O que dizem Incor e USP
Em nota, o Incor informou nĂŁo divulgar dados de pacientes. A instituição afirmou, ainda, repudiar âveementementeâ atitudes que violem os princĂpios da Ă©tica e confidencialidade. O instituto acrescentou que apura ârigorosamente o caso mencionadoâ, ressaltando que âadotarĂĄ todas as medidas cabĂveisâ.
Procurada, a Faculdade de Medicina da Universidade de SĂŁo Paulo (USP) disse que as alunas atualmente nĂŁo tĂȘm qualquer vĂnculo acadĂȘmico com a universidade ou com o Incor. As estudantes estavam no hospital em função de um curso de extensĂŁo de curta duração (um mĂȘs). âAssim que foi tomado conhecimento do fato, as universidades de origem das estudantes foram notificadas para que possam tomar as providĂȘncias cabĂveisâ, diz nota.
âInternamente, a USP estĂĄ tomando medidas adicionais para reforçar junto aos participantes de cursos de extensĂŁo as orientaçÔes formais sobre conduta Ă©tica e uso responsĂĄvel das redes sociais, alĂ©m da assinatura de um termo de compromisso com os princĂpios de respeito aos pacientes e aos valores que regem a atuação da instituiçãoâ, completa o texto.

