BebĂȘ com doença rara recebe tratamento genĂ©tico inĂ©dito nos EUA

Por MetrĂłpoles 23/05/2025

Um bebĂȘ norte-americano de quase dez meses com uma doença genĂ©tica rara se tornou a primeira pessoa no mundo a receber uma terapia personalizada com CRISPR, tecnologia que permite editar o DNA. O tratamento foi desenvolvido especificamente para corrigir a mutação que causava a condição, algo inĂ©dito atĂ© entĂŁo.

O caso de KJ Muldoon foi publicado nessa quinta-feira (15/5) na New England Journal of Medicine, uma das revistas científicas mais prestigiadas do mundo. Embora ainda seja cedo para falar em cura, o avanço é considerado um marco para a medicina.

Doença rara

KJ nasceu em Clifton Heights, na PensilvĂąnia, nos Estados Unidos, com uma condição hereditĂĄria rara e grave chamada deficiĂȘncia de carbamoil-fosfato sintetase 1 (CPS1). A doença genĂ©tica afeta o ciclo da ureia, processo responsĂĄvel por eliminar o excesso de nitrogĂȘnio do organismo.

Com a mutação, o corpo do bebĂȘ nĂŁo conseguia produzir uma enzima essencial e passava a acumular amĂŽnia no sangue, uma substĂąncia altamente tĂłxica para o cĂ©rebro.

BebĂȘ com doença rara recebe tratamento genĂ©tico inĂ©dito nos EUA
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KJ tinha apenas alguns dias de vida quando foi diagnosticado com um raro distĂșrbio metabĂłlico e transferido para o Hospital Infantil da FiladĂ©lfia, onde os mĂ©dicos pesquisavam ativamente novas terapias celulares e genĂ©ticas

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Kiran Musunru (Ă  esquerda) e Rebecca Ahrens-Nicklas (Ă  direita) lideraram o grupo de pesquisadores do Hospital Infantil da FiladĂ©lfia e da Universidade Penn que desenvolveu um tratamento personalizado para o bebĂȘ KJ

Divulgação/Children’s Hospital of Philadelphia

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KJ tinha apenas alguns dias de vida quando foi diagnosticado com um raro distĂșrbio metabĂłlico e transferido para o Hospital Infantil da FiladĂ©lfia, onde os mĂ©dicos pesquisavam ativamente novas terapias celulares e genĂ©ticas

Divulgação/Children’s Hospital of Philadelphia

A taxa de mortalidade infantil entre pacientes com a forma grave da doença é de cerca de 50%. O tratamento mais indicado costuma ser o transplante de fígado, mas KJ ainda não era elegível para o procedimento.

Diante da gravidade do quadro, uma equipe médica do Hospital Infantil da Filadélfia propÎs à família uma alternativa experimental: uma terapia genética feita exclusivamente para ele.

Tratamento personalizado

Em apenas seis meses, mĂ©dicos e cientistas de diferentes instituiçÔes trabalharam juntos para desenvolver e testar uma versĂŁo personalizada da tecnologia CRISPR — uma espĂ©cie de “tesoura molecular” capaz de editar o DNA.

No caso de KJ, os pesquisadores usaram uma variação mais precisa da tĂ©cnica, chamada edição de base (base editing), que permite alterar uma Ășnica “letra” da sequĂȘncia genĂ©tica sem cortar o DNA.

“Ao invĂ©s de cortar o DNA, ela atua mais como um lĂĄpis corretivo. Altera uma Ășnica letra do cĂłdigo genĂ©tico com mais segurança, com o objetivo de corrigir aquela mutação”, explica o pesquisador especialista em terapia celular e genĂ©tica Bruno Solano, da Fiocruz e do IDOR CiĂȘncia Pioneira.

O material genĂ©tico corrigido foi inserido em nanopartĂ­culas lipĂ­dicas, projetadas para alcançar o fĂ­gado do bebĂȘ. Antes de ser aplicada, a terapia foi testada em laboratĂłrio, em camundongos e em primatas. A FDA, agĂȘncia reguladora dos EUA, acelerou a autorização para que o tratamento pudesse ser usado.

KJ recebeu trĂȘs doses da terapia. ApĂłs a primeira aplicação, jĂĄ foi possĂ­vel aumentar a ingestĂŁo de proteĂ­na na dieta do bebĂȘ sem que os nĂ­veis de amĂŽnia subissem perigosamente.

Com as doses seguintes, os mĂ©dicos começaram a reduzir, aos poucos, os medicamentos que ele tomava. A Ășltima dose foi aplicada recentemente e o bebĂȘ continua sendo monitorado.

Possibilidades para o futuro

Por ter sido desenvolvida exclusivamente para o DNA de KJ, a terapia nunca serå usada em outro paciente. Ainda assim, o sucesso do caso abre caminho para que outras doenças genéticas ultrarraras também possam ser tratadas com abordagens sob medida.

Esse Ă© justamente um dos potenciais mais promissores da tecnologia CRISPR. “Embora esse caso relatado seja Ășnico e tenha exigido uma estrutura altamente especializada, ele tambĂ©m Ă© um marco na medicina de precisĂŁo. Demonstra que Ă© possĂ­vel personalizar terapias para mutaçÔes especĂ­ficas, inclusive em pacientes com doenças ultrarraras que hoje nĂŁo tĂȘm nenhuma opção de tratamento”, avalia Solano.

O pesquisador destaca ainda que, com os avanços nas tĂ©cnicas de entrega do CRISPR e com o apoio de agĂȘncias regulatĂłrias, o futuro pode ser mais acessĂ­vel. “É esperado que esse tipo de tecnologia se torne mais rĂĄpida, mais segura e economicamente viĂĄvel, permitindo tratar um nĂșmero maior de pacientes”, conclui.

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