Minimalismo, pele iluminada, roupas neutras e uma rotina impecável de cuidados com o corpo e a mente. A estética “clean girl”, popularizada nas redes sociais nos últimos anos, deixou de ser apenas uma tendência de beleza no TikTok para se transformar em um verdadeiro estilo de vida — ou ao menos é isso que tentam vender. Mas, por trás das makes suaves e dos penteados alinhados, crescem também críticas sobre os limites dessa estética e os padrões que ela pode reforçar.
Inspirada em celebridades como Hailey Bieber e difundida por influenciadoras mundo afora, a era clean girl levanta um debate urgente: estamos realmente falando de leveza e autocuidado ou de mais um padrão inatingível disfarçado de bem-estar?
Para entender melhor o impacto dessa tendência na rotina e na autoestima de mulheres reais, conversamos com Maxine Silva, influenciadora digital de Rio Branco, conhecida por compartilhar uma vida saudável, com foco em equilíbrio, autenticidade e simplicidade. Ela traz uma visão crítica, mas ao mesmo tempo consciente sobre o que essa tendência representa.
Maxine Silva, influenciadora acreana, adota elementos da estética clean girl, mas alerta para os perigos de transformar o autocuidado em mais um padrão de beleza/Foto cedida
“Acho que em relação ao estilo de vestir e agir, essa estética tem data pra acabar. As tendências são sempre assim: caminham para o extremismo e quando nos damos conta, estamos todos saturados dela. Daí surge uma nova tendência… e o ciclo recomeça”, afirma Maxine.
“Já em relação aos hábitos como cuidar do corpo, da pele e da mente, eu espero que esses perdurem. Porém, também já vejo o autocuidado caminhando para a magreza extrema e o excesso de procedimentos estéticos. Como eu disse, a gente sempre caminha pro extremismo”, completa.
A influenciadora também reflete sobre os limites do acesso à estética clean. Mesmo sendo vendida como natural e simples, ela pode esconder armadilhas.
“Na minha opinião, os ‘padrões de beleza’ são criados justamente para restringir. Por isso sempre falo com as minhas seguidoras o quanto é necessário a gente se conhecer e se gostar, pra não cair nessas armadilhas”, explica.
“Cada pessoa tem sua genética, tempo de vida, rotina… Precisamos entender o que cabe em nossa realidade. Senão, ficamos sempre girando a roda do capitalismo, nos comparando e buscando o que a mídia impõe”, diz.
Maxine compartilha que várias práticas do estilo clean girl já fazem parte de sua rotina. Mas ela alerta: mais importante do que parecer saudável é realmente se sentir bem.
“Sempre gostei de me cuidar, gosto de me olhar no espelho e ficar feliz com o que vejo. Mas nem sempre é assim, e tá tudo bem. Faço skincare, academia, pilates, yoga… mas nem sempre consigo manter tudo certinho. O mais importante pra mim é saúde física e mental. Não quero viver para algo, quero viver o que me faz bem”, declara.
Um dos pontos que mais tem chamado atenção nos últimos tempos é a decisão de algumas influenciadoras, como Mc Loma e Ana Mosconi, de removerem tatuagens para se alinharem ao visual mais “limpo” da estética. Maxine, no entanto, é enfática ao afirmar que isso não faz parte dos seus planos.
Com rotina de cuidados e estilo minimalista, Maxine questiona os limites da estética clean girl e defende autenticidade acima das tendências/Foto cedida
“Minhas tatuagens fazem parte de mim, da minha personalidade. Fiz cada uma em um momento especial. Não tenho motivo para removê-las. Gosto de ser tatuada, acho que elas trazem ‘o molho’ pra minha imagem, hahahaha!”, brinca.
Por fim, a influenciadora deixa um recado para mulheres que desejam se inspirar nesse estilo, mas sem se perder no processo:
“Antes de tudo, saiba quem você é. Lá no fundo tem o seu ‘eu’ mais autêntico. Busque ele, conheça ele. Assim, você consegue usar a moda e as tendências com sabedoria, sem perder a personalidade ou prejudicar sua saúde mental tentando se encaixar em algo que não combina com você.”
A fala de Maxine reforça o alerta já apontado por especialistas: a estética clean girl pode até parecer leve, mas carrega uma carga simbólica pesada, que muitas vezes escapa aos olhos e vai direto à autoestima de quem consome esse conteúdo. Em um mundo digital que propaga padrões cada vez mais sutis e disfarçados de bem-estar, talvez o maior desafio seja, justamente, lembrar que o autocuidado verdadeiro começa do lado de dentro — e não na luz do ring light.
