Aos 21 anos, a jovem indígena Ashaninka Yara Piyãko guarda uma história que atravessa o tempo e a floresta. Natural da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, no Vale do Juruá, ela foi fotografada por Sebastião Salgado aos 12 anos, em um encontro que mudaria sua vida e deixaria um registro eterno da sua identidade.
A imagem de Yara, captada em sua aldeia, tornou-se uma das mais emblemáticas da exposição Amazônia, uma das principais obras de Salgado. A fotografia ganhou ainda mais destaque ao estampar a capa de uma das edições do livro homônimo, que percorreu o mundo com mais de 200 imagens inéditas feitas ao longo de sete anos de imersão na floresta e entre os povos indígenas.
“Todo mundo tem um olhar diferente, entendo a importância dele, foi um grande amigo do nosso povo. Admiro muito o trabalho dele. É um orgulho ter sido fotografada por ele”, relatou Yara. “Ele conviveu com o povo Ashaninka, foi um ato importante, um encontro de almas com a preservação da vida, da cultura. Para a gente, a convivência foi profunda, transformadora e que deixou raízes para toda vida.”
A experiência com o fotógrafo não ficou apenas no retrato. Inspirada pela sensibilidade do olhar de Salgado e pelo poder da imagem como ferramenta de memória e denúncia, Yara se tornou fotógrafa. Hoje, ela registra o cotidiano de sua comunidade, fortalecendo a cultura Ashaninka e contribuindo para a preservação da identidade de seu povo por meio da arte.

A imagem de Yara, captada em sua aldeia, tornou-se uma das mais emblemáticas da exposição Amazônia. Foto: Reprodução
Em 2022, antes de sua morte, Sebastião Salgado escreveu sobre sua experiência na região do Juruá. Em um texto publicado em inglês em suas redes sociais, ele compartilhou imagens, entre elas, a de Yara, e falou da força da floresta e da conexão com os povos que ali vivem:
“Seja vista do céu ou do chão, a Amazônia sempre me encheu de admiração. Nem palavras nem fotografias conseguem transmitir plenamente a sensação de estar diante da força e majestade absolutas da natureza. Igualmente inesquecível foi o sentimento de intimidade que experimentei ao passar semanas seguidas com diferentes tribos. Senti-me privilegiado por poder compartilhar seu tempo e espaço, primeiro aprendendo pacientemente a ser aceito, depois registrando silenciosamente suas vidas cotidianas. Assim, pude sentir e transmitir sua gentileza”, escreveu.
O reencontro entre Yara e Salgado ocorreu três anos atrás, em uma exposição em São Paulo. O fotógrafo a reconheceu e a presenteou com o livro em que sua foto aparece na capa, um gesto que simbolizou não apenas o impacto daquela imagem, mas a força de uma história que se entrelaçou à de um dos maiores nomes da fotografia mundial.
Sebastião Salgado faleceu nesta sexta-feira (23), aos 81 anos. Seu legado, no entanto, permanece vivo em imagens que capturam mais do que momentos: capturam memórias, lutas e esperanças. Em Yara, esse legado ganhou continuidade, uma jovem do Juruá que aprendeu, com o olhar de um mestre, a enxergar o mundo de forma mais profunda e a contá-lo através da luz.

O reencontro entre Yara e Salgado ocorreu três anos atrás, em uma exposição em São Paulo. Foto: Reprodução

