O licenciamento ambiental sofreu um golpe de morte, disse a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, ao comentar o projeto de lei (PL 2.159/2021) que estabelece um novo marco legal para o licenciamento ambiental no Brasil aprovado no Senado com 54 votos favoråveis e 13 contrårios nesta quarta-feira (21). 

Como o texto foi alterado pelos senadores, o projeto retorna Ă CĂąmara dos Deputados para nova anĂĄlise. A proposta estĂĄ em discussĂŁo hĂĄ 21 anos, tendo tramitado 17 anos na CĂąmara dos Deputados e quatro anos no Senado.Â
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O texto aprovado dispensa de licenciamento ambiental atividades que nĂŁo ofereçam risco ambiental ou que precisem ser executadas por questĂŁo de soberania nacional ou de calamidade pĂșblica. TambĂ©m isenta de licenciamento os empreendimentos agropecuĂĄrios para cultivo de espĂ©cies de interesse agrĂcola, alĂ©m de pecuĂĄria extensiva, semi-intensiva e intensiva de pequeno porte.
âO governo Ă© contrĂĄrio a esse desmonte do licenciamento ambiental brasileiro. O governo tem uma sĂ©rie de dificuldades em relação a uma base segura de sustentação. E isso varia para cada tema. NĂŁo Ă© a primeira vez que a gente sofre alguma dessas derrotas, inclusive em agendas que sĂŁo igualmente estratĂ©gicas, mas vamos continuar dialogando o tempo todo com o Congresso”, disse a ministra Marina.Â
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A ministra participou, nesta quinta-feira (22), da cerimÎnia em comemoração ao Dia Internacional da Biodiversidade, na sede do Jardim Botùnico do Rio de Janeiro.
Marina afirmou que caso se mantenha a demolição do licenciamento ambiental, os prejuĂzos nĂŁo podem sequer ser mensurados neste momento. âVai haver um processo em massa de judicializaçÔes porque muito do que foi aprovado Ă© algo claramente inconstitucionalâ, acrescentou.
Como projeto, foi instituĂda ainda a Licença por AdesĂŁo e Compromisso (LAC), destinada a atividades ou empreendimentos de pequeno ou mĂ©dio porte e de baixo ou mĂ©dio potencial poluidor. A licença poderĂĄ ser expedida mediante uma autodeclaração de adesĂŁo e compromisso do empreendedor, com os requisitos preestabelecidos pela autoridade licenciadora.
A relatora, senadora Tereza Cristina (PP-MS), disse que o objetivo da proposta Ă© licenciar as obras no paĂs com mais clareza, eficiĂȘncia e justiça. Segundo ela, o marco regulatĂłrio atual, com regras sobrepostas, trava iniciativas importantes e desestimula investimentos responsĂĄveis.Â
âA proposta nĂŁo enfraquece o licenciamento ambiental, muito pelo contrĂĄrio. Ela reafirma o compromisso com o rigor tĂ©cnico, exige estudos de impacto ambiental, audiĂȘncias pĂșblicas e avaliaçÔes trifĂĄsicas para grandes obras. E atĂ© dobra a pena para quem desrespeitar a legislaçãoâ, disse a senadora, acrescentando que hoje existem mais de 27 mil normas ambientais no paĂs.Â
Em nota, o MinistĂ©rio do Meio Ambiente e Mudança do Clima afirmou que um dos pontos mais crĂticos do PL Ă© a aplicação da Licença por AdesĂŁo e Compromisso (LAC), modalidade simplificada de licenciamento baseada na autodeclaração do empreendedor. Segundo a pasta, a proposta permite que empreendimentos de mĂ©dio porte e potencial poluidor utilizem esse mecanismo sem a exigĂȘncia de estudos prĂ©vios de impacto e sem a definição de condicionantes ambientais especĂficas.Â
De acordo com o ministério, na pråtica, o texto permitiria o uso da LAC para um percentual expressivo de empreendimentos que atualmente são licenciados. Além disso, esses empreendimentos seriam monitorados por amostragem, dispensando a necessidade de fiscalização, pelo órgão ambiental, de todos os empreendimentos licenciados por essa modalidade.
A proposta tambĂ©m prevĂȘ a aplicação da LAC a projetos como duplicação de rodovias e dragagens, inclusive em regiĂ”es sensĂveis e habitadas por comunidades vulnerĂĄveis, que podem ser autorizados sem qualquer anĂĄlise tĂ©cnica prĂ©via, aumentando o risco de danos ambientais e sociais, segundo o ministĂ©rio.
Outra questĂŁo considerada “alarmante” Ă© a utilização da LAC como instrumento de regularização de empreendimentos em operação sem qualquer licença ambiental. Para o MinistĂ©rio do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), a LAC deveria ser adotada somente para projetos de pequeno porte, baixo impacto e que nĂŁo envolvam ĂĄreas sensĂveis, sempre com verificação do RelatĂłrio de Caracterização do Empreendimento (RCE) por parte do ĂłrgĂŁo licenciador.
ObservatĂłrio do Clima
Para o ObservatĂłrio do Clima, o projeto aprovado no Senado Ă© o maior ataque Ă legislação ambiental das Ășltimas quatro dĂ©cadas, desde a Constituição Federal de 1988.
Segundo a coordenadora de polĂticas pĂșblicas do ObservatĂłrio do Clima, Suely AraĂșjo, o Senado, liderado por David Alcolumbre (UniĂŁo-AP), cravou nesta quarta-feira a implosĂŁo do licenciamento ambiental no paĂs. De acordo com a especialista, o texto ainda irĂĄ Ă CĂąmara dos Deputados, mas no retorno Ă Casa iniciadora muito pouco pode ser feito para corrigir os seus inĂșmeros problemas e inconstitucionalidades.
O licenciamento se transformarĂĄ, na maioria dos processos, ânum apertar de botĂŁoâ, sem estudo ambiental e sem avaliação de impactos ambientais, disse a coordenadora.
âContribuĂram para o resultado a visĂŁo arcaica e negacionista da bancada ruralista, a miopia de representantes do setor industrial que querem meio ambiente sĂł na esfera discursiva e a lentidĂŁo e fraqueza do governo federal em suas reaçÔes no Legislativo. Lembraremos por muito tempo do dia em que se fragilizou completamente a principal ferramenta de prevenção de danos da PolĂtica Nacional do Meio Ambienteâ, afirmou Suely.
Biodiversidade
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima realizou nesta quinta-feira na sede do Jardim Botùnico do Rio de Janeiro, cerimÎnia em comemoração ao Dia Internacional da Biodiversidade com o lançamento de açÔes para fortalecer e avançar na proteção dos biomas brasileiros.
O Banco Nacional de Desenvolvimento EconĂŽmico e Social (BNDES), o MinistĂ©rio da Igualdade Racial (MIR) e o MMA anunciaram o parceiro gestor do Naturezas Quilombolas, projeto voltado ao fortalecimento da gestĂŁo territorial e ambiental de comunidades quilombolas da AmazĂŽnia Legal.Â
O Instituto Centro de Vida (ICV), em parceria com a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas de Mato Grosso (Conaq-MT), foi selecionado por meio de seleção pĂșblica para conduzir a execução do projeto, que prevĂȘ a destinação de atĂ© R$ 33 milhĂ”es em recursos nĂŁo reembolsĂĄveis do Fundo AmazĂŽnia para apoiar iniciativas em 40 territĂłrios quilombolas da regiĂŁo amazĂŽnica.
O objetivo Ă© garantir a sustentabilidade dos modos de vida, das atividades produtivas e do manejo dos bens ambientais nesses territĂłrios, promovendo a implementação da PolĂtica Nacional de GestĂŁo Territorial e Ambiental Quilombola.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, disse que “fortalecer as comunidades quilombolas Ă© tambĂ©m investir na preservação ambiental do Brasil”.
“Em um contexto de emergĂȘncia climĂĄtica e avanço do desmatamento, reconhecer e apoiar esses territĂłrios pode ser uma das estratĂ©gias mais eficazes para proteger os biomas brasileiros, pois esses povos sĂŁo verdadeiros guardiĂ”es da biodiversidadeâ, afirmou Mercadante.Â
Para a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, “esse é o maior investimento nessa polĂtica, tĂŁo necessĂĄria, que reconhece que os quilombolas sĂŁo os que melhor preservam o meio ambiente, com os seus modos de vida e sistemas produtivos sustentĂĄveis.Â
TambĂ©m foram anunciadas a criação da ComissĂŁo TĂ©cnica de Jardins BotĂąnicos; acordo de Cooperação TĂ©cnica entre o MMA, Ibama e ICMBio para implementação da PolĂtica Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa e do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa.
O presidente do Instituto de Pesquisas Jardim BotĂąnico do Rio de Janeiro, Sergio Besserman Vianna, destacou a importĂąncia da integração da preservação das espĂ©cies ameaçadas da flora na polĂtica pĂșblica e nas açÔes do MinistĂ©rio do Meio Ambiente.

