Petra Gold: vĂ­timas venderam carros e passaram fome apĂłs fraude

Por MetrĂłpoles 23/05/2025 Ă s 03:31

Acusada de cometer irregularidades ao menos desde 2019, a Petra Gold teria feito, com seu esquema fraudulento, inĂșmeras vĂ­timas em todo o paĂ­s — a empresa oferecia investimentos por meio de debĂȘntures irregulares. Investidores que acreditaram na veracidade da empresa depositaram milhares de reais e se veem, agora, seis anos apĂłs a primeira denĂșncia, refĂ©ns da morosidade da Justiça, sem punição aos envolvidos e sem acesso aos valores perdidos.

Embora tenham sido alertados pela ComissĂŁo de Valores MobiliĂĄrios (CVM) sobre as irregularidades nas vendas de debĂȘntures e a falta de autorização para atuar no ramo, os sĂłcios da empresa ignoraram as advertĂȘncias e continuaram captando clientes e acumulando uma fortuna milionĂĄria.

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ApĂłs Eduardo Monteiro Wanderley (foto em destaque), identificado como CEO da empresa, ter sido alvo de mais uma operação da PolĂ­cia Federal, na Ășltima quarta-feira (21/5), vĂ­timas do esquema de pirĂąmide financeira procuraram a coluna para desabafar sobre o pesadelo que vivem desde que foram lesadas. Por escolha das vĂ­timas, suas identidades serĂŁo preservadas, e o texto as identificarĂĄ por meio de nomes fictĂ­cios.

AtraĂ­da para o pesadelo

Carla teve o seu primeiro contato com a Petro Gold em janeiro de 2020, quando foi apresentada Ă  empresa por uma assessora de investimentos na qual confiava.

No primeiro depĂłsito, a mulher apostou R$ 60 mil. A priori, a empresa era, segundo ela, idĂŽnea, e honrava com os resgates prometidos.

“No decorrer de 2021 fiz outros aportes, sem desconfiar que a empresa jĂĄ tinha um apontamento na CVM por comercializar debĂȘntures de forma ilegal. AtĂ© entĂŁo, nĂŁo havia motivos para suspeitar. Depois, vendi um veĂ­culo e apliquei. A essa altura, a assessora que confiei nĂŁo trabalhava mais na Petra Gold, e desconhecia a fraude, tendo aplicado recursos tambĂ©m.”

O cenĂĄrio que atĂ© entĂŁo parecia positivo tornou-se um pesadelo em fevereiro de 2022. Com algumas alteraçÔes nas debĂȘntures e aplicação de novos recursos, o saldo de Carla na Petra Gold alcançou a marca de R$ 135 mil.

“Em 2022, realizei aportes expressivos. Informo com propriedade que meu novo assessor jĂĄ sabia de tudo e ainda sim permaneceu captando recursos e prospectando novos investidores. Em julho de 2022, soube da crise que a empresa enfrentava e a demora para pagar as solicitaçÔes de resgates. Em alguns casos, eles fizeram proposta de pagamento parcelado”, lembrou.

Assustada com a situação, Carla acessou o site do Reclame Aqui e se deparou com diversas alegaçÔes de atrasos nos pagamentos. “Entrei em contato com o assessor e solicitei o resgate do meu recurso. Como jĂĄ estava ciente do que ocorria, ameacei chamar a imprensa caso nĂŁo fizessem o meu resgate.”

Para tranquilizar a cliente, o assessor bancĂĄrio relatou que a empresa se recuperaria em breve, pois estava sendo vendida para um banco InglĂȘs. “DaĂ­ começou o meu desespero em deixar os R$ 115 mil que estavam em perĂ­odo de carĂȘncia. Essa venda nunca se concretizou e nunca foi comunicada oficialmente; No decorrer dos meses, a situação piorou e a empresa jĂĄ nĂŁo paga mais resgate algum, nem dez centavos!”

Na busca por respostas, Carla foi ao escritĂłrio que ficava prĂłximo Ă  estação de metrĂŽ CinelĂąndia, no Rio de Janeiro, mas se deparou com as portas fechadas. “LĂĄ nĂŁo tem mais ninguĂ©m. O assessor diz que jĂĄ nĂŁo faz parte da empresa porque os jĂĄ nĂŁo recebiam; como a situação foi piorando, ele nĂŁo atende mais o telefone e demora para responder as mensagens.”

“Tentei por vĂĄrias vezes entrar em contato com a Petra Gold por meio de e-mails. NĂŁo hĂĄ credibilidade nas informaçÔes postadas. Muitos e-mails nunca foram respondidos. Os que foram, possui conteĂșdo evasivo e sem solução; o site estĂĄ hĂĄ mais de uma semana fora do ar. Seguimos sem os recursos e escutando desculpas sem fundamentos.”

Herança perdida

Fabiana aplicou, em 2018, toda a herança que havia recebido de sua família. Ela foi convidada para o esquema por um dos sócios, identificado como Diego Ribeiro de Jesus. O valor, cerca de R$ 300 mil, foi transferido para a conta da Petra Gold com a promessa de que teria acesso a rendimentos mensais.

“Inicialmente, estava tudo certo. Eu sacava entre R$ 5 mil e R$ 10 mil de rendimentos mensalmente. Esse dinheiro era a herança dos meus pais para mim
”, lamentou.

Fabiana sĂł tomou conhecimento da fraude em 2023. “Fiquei sabendo que a Petra Gold estava falindo por meio da televisĂŁo, assim como todas as vĂ­timas. Tentei diversas vezes ligar para o Diego, mas sempre caĂ­a na caixa postal. Depois de um tempo, jĂĄ nem era aquele nĂșmero”, relembrou.

Sem respostas, ela se sentiu perdida, registrou um boletim de ocorrĂȘncia e acionou um advogado. “Estou, atĂ© hoje, atrĂĄs do Diego, tentando reaver meus valores, com juros e correção, assim como todas as vĂ­timas.”

Como deixou de ter acesso aos rendimentos mensais, Fabiana ficou de mãos atadas. Para não passar fome, teve de vender um veículo e passou a ser ajudada por familiares. “Vendi meu carro para ter algo para comer; passei a viver com a minha mãe; entrei em depressão e depois tive síndrome do pñnico. Fui ajudada financeiramente por parentes e agora tenho essa dívida a pagar.”

Toda a documentação recebida desde a primeira aplicação Ă© guardada por Fabiana. Ela afirmou que, ainda hoje, recebe, por e-mail, extratos apontando seu saldo atual. “NĂŁo sei se Ă© verdade, mas guardo cada um. A Petra Gold me deixou sem chĂŁo, assim como todas as vĂ­timas, acredito eu.”

A vĂ­tima afirma estar revoltada com a morosidade do processo. “Eu espero que Deus olhe por nĂłs. Infelizmente, temos uma Justiça que, Ă s vezes, Ă© morosa, cega e surda para algumas coisas. Isso estĂĄ se alongando muito”, finalizou.

FamĂ­lia traumatizada

Em 2020, a família de Paola aportou cerca de R$ 700 mil na Petra Gold. Confiando na gerente bancåria, jamais imaginavam que o investimento geraria não apenas dores de cabeça, mas também ameaças.

“Na Ă©poca, nos pareceu um investimento sĂłlido, pois foi indicação da nossa gerente e a empresa havia recĂ©m-adquirido um teatro no Rio de Janeiro, alĂ©m de patrocinar corridas de Stock Car. Por alguns meses, conseguimos fazer algumas retiradas, mas logo cessaram.”

Quando a família percebeu que jå não conseguia mais sacar o dinheiro, decidiu criar uma pågina nas redes sociais para reunir todos os lesados. Foi então que Diego, que se apresentava como vice-presidente da empresa, começou a assediå-los, pedindo que retirassem todas as postagens do ar.

“Nessa Ă©poca, minha cunhada foi internada na Unidade de Terapia Intensiva em SĂŁo Paulo, para prevenir um parto prematuro. Diego foi atĂ© o hospital solicitar, pessoalmente, o fim do movimento nas redes, com promessas vazias sobre pagamentos parcelados dos saques solicitados. Como ameaça final, reiterou que, caso optĂĄssemos por resolver a questĂŁo judicialmente, nossas solicitaçÔes de resgate seriam bloqueadas”, indignou-se.

ApĂłs a situação, a cunhada de Paola acabou entrando em trabalho de parto prematuro, e a criança teve de ser internada na UTI. “Naquele momento, precisamos de ajuda financeira para custear o hospital e os mĂ©dicos, mas, mesmo alegando condiçÔes de saĂșde, nossas solicitaçÔes sobre o nosso prĂłprio dinheiro foram negadas.”

A família segue hå quase cinco anos tentando reaver o valor, refém de uma decisão judicial que, até o momento, só encontrou contas vazias e salas de escritórios abandonadas.

Operação

Na  quarta-feira (21/5), a Polícia Federal (PF) deflagrou a segunda fase da Operação Lóris, com o objetivo de apurar a venda irregular de obras de arte apreendidas na primeira fase da investigação. As obras estavam sob responsabilidade do líder do esquema criminoso, na condição de depositårio fiel.

Os investigadores cumpriram um mandado de busca e apreensĂŁo na residĂȘncia do investigado, localizada em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, para identificar outras obras que possam ter sido ocultadas ou comercializadas de forma ilegal.

O grupo, chefiado por Eduardo Monteiro Wanderley, dono e CEO da Petra Gold, ganhou notoriedade no cenĂĄrio financeiro carioca ao emitir debĂȘntures e captar centenas de milhĂ”es de reais sem autorização da ComissĂŁo de Valores MobiliĂĄrios (CVM).

A organização criminosa investiu parte do montante em patrocínios culturais e esportivos, além da aquisição de um teatro no Leblon e do financiamento de museus como o MAR e o MAM.

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