Rumores sobre uma vasta reserva de petróleo no Acre, popularmente descrita como um “aquífero de petróleo”, têm alimentado tanto esperanças de desenvolvimento quanto um profundo ceticismo. Localizada no extremo oeste da Amazônia brasileira, essa potencial fronteira energética promete redefinir o futuro econômico, mas esbarra em obstáculos monumentais ligados à logística, à sensibilidade ecológica e a complexas questões sociais. O tema foi abordado pelo jornalista Bruno Teles, do site CPG.
A bacia do Acre tem elementos que são importantes para um sistema petrolífero /Foto: G20
Geologicamente, a bacia do Acre possui elementos essenciais para um sistema petrolífero: rochas que podem ter gerado óleo e gás (como os folhelhos da Formação Cruzeiro do Sul), rochas porosas para armazená-los (reservatórios) e camadas impermeáveis para contê-los (selantes). Sua localização, adjacente a bacias produtoras no Peru e Bolívia, reforça o interesse.
A exploração na região não é recente, com registros desde 1935. A Petrobras realizou estudos mais intensos entre 1958 e 1997, perfurando 11 poços, dos quais três apresentaram indícios de hidrocarbonetos – um sinal promissor, mas não conclusivo. A descoberta do megacampo de gás de Camisea, no lado peruano, em uma bacia com similaridades geológicas, reacendeu o interesse na área.
Após a flexibilização do monopólio estatal, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) chegou a conceder blocos exploratórios na região. No entanto, dados da própria ANP indicavam que, em 2023, não havia blocos sob contrato na Bacia do Acre, sugerindo que a atividade exploratória recente tem sido limitada ou foi suspensa.
Apesar disso, a presença de um sistema petrolífero ativo é corroborada por indícios como manchas de óleo encontradas em poços d’água e “microexsudações” (pequenos vazamentos) de gás na superfície. A ANP estima um potencial de gás natural in situ (volume total estimado na rocha, não necessariamente recuperável) de 2,2 trilhões de pés cúbicos (TCF) para a bacia.
Transformar esse potencial teórico em produção real enfrenta barreiras formidáveis. Primeiramente, a logística: operar na remota floresta amazônica, carente de estradas, dutos e outras infraestruturas, eleva exponencialmente os custos de transporte de equipamentos e escoamento de uma eventual produção.
É necessário ter cautela devido ao impacto ambiental que poderia ocorrer caso houvesse extração de petróleo na região/Foto: © Shutterstock
Em segundo lugar, os riscos ambientais: qualquer atividade petrolífera em larga escala implicaria desmatamento, fragmentação de habitats essenciais para a biodiversidade amazônica e o perigo constante de contaminação de rios e dos verdadeiros aquíferos de água doce (como o Sistema Aquífero Grande Amazônia, do qual o Solimões faz parte), vitais para o ecossistema e as populações locais.
Finalmente, os desafios sociais e de licenciamento: a região abriga numerosas Terras Indígenas (são 29 apenas na macrorregião do Alto Juruá) e Unidades de Conservação. Obter as licenças ambientais necessárias e, crucialmente, a “licença social” (aceitação e consentimento das comunidades afetadas) representam processos extremamente complexos, longos e restritivos, que podem inviabilizar projetos.
