Comunidades tradicionais e instituições públicas constroem Plano de Manejo da Reserva Extrativista Alto Juruá

A reserva representa uma conquista histórica dos povos da floresta

Um momento histórico de escuta, participação e construção coletiva está em andamento na Reserva Extrativista (Resex) Alto Juruá, no município de Marechal Thaumaturgo, interior do Acre. Lideranças extrativistas, indígenas e representantes de instituições públicas se reúnem para elaborar o Plano de Manejo da unidade, um documento essencial que servirá como guia para a gestão do território, promovendo o equilíbrio entre preservação ambiental e os modos de vida tradicionais.

Comunidades tradicionais e instituições públicas constroem Plano de Manejo da Reserva Extrativista Alto Juruá. Foto: Reprodução

A Resex Alto Juruá, criada em 23 de janeiro de 1990, foi a primeira unidade de conservação com esse modelo no Brasil. Hoje, ela ocupa cerca de 74% do território de Marechal Thaumaturgo e abriga mais de 2.500 famílias, segundo levantamento feito em 2022. A reserva representa uma conquista histórica dos povos da floresta, que lutaram para garantir o direito à terra e à manutenção de suas tradições e culturas.

De acordo com Mosart de Vasconcelos Pessoa Neto, analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e chefe da unidade, a oficina tem como objetivo principal definir as diretrizes de gestão do território.

“Esse plano é o norte de toda a gestão. Ele orienta desde a atuação do ICMBio, como órgão gestor, até as ações de instituições parceiras, como Prefeitura, Incra, Funai e outras que atuam com educação, saúde, agricultura e segurança. Mas acima de tudo, o verdadeiro gestor do território é o morador tradicional. É ele quem vive, cuida, extrai e cultiva a floresta”, afirma.

Analista ambiental ICMBIO, Mosart de Vasconcelos. Foto: Reprodução

A construção do plano envolve um diálogo profundo com as populações locais, respeitando suas vivências, necessidades e aspirações. “O sentimento de pertencimento é muito forte. Muitos dos que estão aqui são filhos daqueles que lutaram pela criação da reserva. Hoje, eles querem garantir que essa conquista seja preservada para as futuras gerações”, destaca Mosart.

Orleir Moreira, presidente das associações que representam os moradores da Resex, ressalta a importância de um plano de manejo elaborado com base no diálogo e na participação. “É a primeira vez que estamos construindo oficialmente esse documento. Ele precisa nascer da escuta das lideranças e da comunidade, para que tenha legitimidade e reflita de fato o que queremos para o nosso território. Aqui, indígenas e extrativistas compartilham o mesmo espaço, e é fundamental que essa diversidade esteja representada no plano”, pontua.

A principal preocupação das lideranças locais é garantir a permanência e a proteção do território diante de mudanças nas políticas ambientais e ameaças externas, como pressões por licenciamento de atividades que podem impactar negativamente a floresta e os modos de vida tradicionais. “Queremos assegurar nosso território, nossa cultura, nossos saberes. A reserva extrativista não é atraso. Pelo contrário, é a solução para um modelo de desenvolvimento sustentável que respeita a natureza e as pessoas”, afirma Orleir.

A base da sustentabilidade dentro da Resex está na agricultura familiar e no extrativismo de subsistência. A produção de alimentos garante o sustento das famílias e também gera renda para algumas comunidades. “Vivemos um novo tempo, saímos do regime de servidão do ciclo da borracha para sermos donos do nosso próprio território. Essa é a nossa maior conquista”, finaliza.

A construção do Plano de Manejo segue até esta sexta-feira (1), com a presença de representantes do ICMBio, Prefeitura de Marechal Thaumaturgo, Incra, Funai, OPIRG, Exército Brasileiro e das comunidades tradicionais que vivem e preservam o coração da floresta amazônica.

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