IndĂ­gena estuprada por policiais com bebĂȘ em cela denuncia abusos

Mulher Kokama relata abusos sexuais e omissão do Estado enquanto estava presa ilegalmente com seu recém-nascido em delegacia

Por Redação 24/07/2025

Uma mulher indĂ­gena de 29 anos, da etnia Kokama, denuncia ter sido vĂ­tima de abusos sexuais por policiais enquanto mantida ilegalmente na 53ÂȘ Delegacia de Santo AntĂŽnio do Içå, Amazonas. Ao MetrĂłpoles, a defesa da indĂ­gena confirmou que os crimes de iniciaram em novembro de 2022, perĂ­odo em que a mulher amamentava seu bebĂȘ recĂ©m-nascido, que permaneceu detido com ela por aproximadamente dois meses.

A prisĂŁo da mulher ocorreu em 11 de novembro de 2022, motivada por um chamado da PolĂ­cia Militar feito por uma vizinha, que suspeitava de violĂȘncia domĂ©stica envolvendo a indĂ­gena e seu companheiro. Contudo, ao ser levada Ă  delegacia, foi constatada a existĂȘncia de um mandado de prisĂŁo prĂ©vio contra ela, ligado a uma alegada suposta participação em um homicĂ­dio ocorrido em Manaus em 2018.

CondiçÔes precĂĄrias e denĂșncia de abusos

A situação carcerĂĄria precĂĄria Ă© apontada como fator crucial para os abusos. A denĂșncia detalha que, sem uma cela feminina disponĂ­vel, a indĂ­gena foi alocada junto a detentos homens, ambiente onde os crimes teriam começado. Ela identificou quatro policiais militares e um guarda municipal como responsĂĄveis pelos estupros.

A vĂ­tima descreveu que os atos ocorreram durante a noite, nos perĂ­odos de plantĂŁo, e em diferentes espaços da delegacia. AlĂ©m disso, ela alega ter sido forçada a ingerir bebidas alcoĂłlicas com os agressores e que os demais presos se mantinham em silĂȘncio por temor de represĂĄlias, uma vez que tambĂ©m teriam sido torturados.

A formalização da denĂșncia Ă s autoridades sĂł se deu em 27 de agosto de 2023, passados nove meses desde sua detenção, no momento em que a indĂ­gena foi transferida para a Unidade Prisional Feminina de Manaus.

AçÔes legais e resposta das autoridades

Em fevereiro deste ano, a equipe jurídica que representa a indígena moveu uma ação de indenização contra o Estado, pleiteando o valor de R$ 500 mil em reparação pelos severos abusos sofridos. A defesa apresentou como um dos pontos cruciais a informação de que um juiz teria inspecionado a carceragem da delegacia antes do Natal de 2022, ocasião em que identificou as condiçÔes irregulares e deu uma ordem verbal para a remoção da mulher do local. No entanto, essa determinação judicial não foi acatada.

A defesa sustenta que o Estado agiu com omissĂŁo grave ao manter a indĂ­gena encarcerada em condiçÔes sabidamente degradantes, sem prover qualquer tipo de assistĂȘncia mĂ©dica ou psicolĂłgica adequada. A mulher estava grĂĄvida durante parte desse perĂ­odo, o que, por lei, a qualificaria para prisĂŁo domiciliar. O pedido de compensação financeira segue aguardando anĂĄlise judicial.

Posicionamento das autoridades

Em nota, a PolĂ­cia Militar do Amazonas (PMAM) informou que abriu um inquĂ©rito policial militar (IPM) para apuração das denĂșncias que estĂĄ em fase de finalização e que os quatro policiais militares envolvidos serĂŁo indiciados pelo crime de estupro, conforme as provas dos autos analisadas durante o procedimento investigatĂłrio.

Além disso, um procedimento administrativo disciplinar também foi aberto para apurar a conduta dos PMs, que pode resultar na expulsão dos servidores dos quadros da instituição.

A corporação repudiou fortemente os abusos e frisou que não compactua com tal ação. Os policiais envolvidos tiveram suas armas funcionais recolhidas e estão exercendo funçÔes administrativas até o encerramento do procedimento administrativo disciplinar.

Jå a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) segue investigando o caso e irå colher novos depoimentos para finalizar o caso e encaminhar à Justiça.

Um procedimento para apurar a conduta dos agentes também foi aberto pela Corregedoria-Geral de Justiça do sistema de Segurança do Amazonas.

Apoio da Funai e Defensoria PĂșblica

Em nota, a Fundação Nacional dos Povos IndĂ­genas (Funai) disse que tomou medidas imediatas apĂłs receber uma denĂșncia sobre violaçÔes de direitos humanos sofridas por uma mulher indĂ­gena encarcerada no Amazonas.

A Procuradoria Federal Especializada da Funai acionou ĂłrgĂŁos como o MinistĂ©rio PĂșblico do Estado, a Defensoria PĂșblica e a Corregedoria-Geral do Sistema de Segurança PĂșblica, solicitando providĂȘncias como o afastamento dos policiais envolvidos e o acesso a processos judiciais e administrativos relacionados ao caso.

Além disso, a Funai articulou uma visita à indígena na prisão para avaliar suas condiçÔes e encaminhou o caso ao Ministério da Mulher, solicitando medidas protetivas e preventivas.

A instituição destaca que é responsabilidade de todos os entes do Estado promover justiça e igualdade, preservando o sigilo do caso e assegurando a reparação dos danos causados.

“A Funai continua acompanhando a situação, garantindo suporte fĂ­sico e psicolĂłgico Ă  indĂ­gena e seu filho, e reforça a importĂąncia do combate Ă  violĂȘncia e da proteção dos direitos das mulheres indĂ­genas”, disse a instituição.

A Defensoria PĂșblica do Amazonas (DPE-AM), informou que, ao tomar conhecimento do caso apĂłs a transferĂȘncia da vĂ­tima para Manaus em 2023, realizou 65 atendimentos, incluindo exame de corpo de delito, acompanhamento psicolĂłgico. Os defensores fizeram pedidos de prisĂŁo domiciliar – todos negados, apesar das violaçÔes sofridas.

A Defensoria destaca que agiu com cautela para proteger a vítima, adotando protocolos humanizados para evitar revitimização, mas enfrentou a omissão do sistema judiciårio.

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Material cedido ao MetrĂłpoles

Fonte: MetrĂłpoles

Redigido por ContilNet.

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