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Maconha vende, fatura bilhões e salva vidas, mas o Brasil ainda prefere dar lucro para o tráfico

Por Roraima Rocha, ContilNet

Estive em em São Paulo no mês passado e percebi que basta andar três quadras pela Av. Paulista para entender o fracasso moral da nossa política antidrogas. A maconha já está nas ruas, nos bares, nas sacadas gourmet. A diferença é que aqui ela continua sendo crime. Um crime altamente lucrativo, aliás, mas só para quem carrega fuzil. O governo, esse, assiste de longe. Com cara de paisagem e bolso vazio.

Maconha vende, fatura bilhões e salva vidas, mas o Brasil ainda prefere dar lucro para o tráfico. Foto: Reprodução

Na Tailândia, em 2022, a erva foi legalizada. O resultado? Rios de dinheiro, turismo canábico, impostos irrigando a saúde pública. Por lá, a fumaça financia hospitais. Por aqui, fuzis. Mas tudo bem, desde que a gente continue fingindo que proibir salva vidas. Bangkok ultrapassou Amsterdã, como a nova capital deste mercado milionário.

É surreal: o comércio da maconha já existe, é vibrante, visível, voraz. Só que a arrecadação vai direto pro crime organizado. O Estado? Reprime o camelô com cigarro contrabandeado e prende o usuário de 20 anos com um baseado no bolso. Isso quando ele é preto e mora longe da Faria Lima, claro.

Foi lendo ‘Vício – O Reino dos Fantasmas Famintos’, do Gabor Maté, que essa loucura brasileira me pareceu ainda mais insana. Portugal, que não costuma liderar revoluções, teve a ousadia de descriminalizar todas as drogas para uso pessoal. Não, não virou Sodoma. O consumo caiu. A violência caiu. O número de pessoas em tratamento subiu. O mundo girou. E o Brasil? Continua preso ao moralismo de sacristia, onde a penitência é mais importante que a prevenção.

O problema nunca foi a droga. O problema sempre foi o pobre. O usuário da cracolândia é criminoso. O da USP é “espiritualizado”. Um vai pra cadeia. O outro vira artista. E o Brasil segue encantado com sua própria hipocrisia, como quem aplaude um incêndio por causa das chamas bonitas.

Imagine se o dinheiro torrado em viaturas, helicópteros e penitenciárias fosse canalizado para tratamento, educação e políticas de redução de danos? Pois é. Mas isso exige pensar. E pensar dá trabalho. Dá muito mais voto posar de moralista com uma Bíblia embaixo do braço e uma algema na outra mão.

A verdade é que, no fundo, o Brasil não tem medo da droga, tem pavor da lucidez. Legalizar exigiria encarar o próprio fracasso institucional, admitir que décadas de guerra às drogas só alimentaram o cárcere, a milícia e a vala comum. E mais: significaria reconhecer que a mesma planta demonizada por deputados com crucifixo no paletó salva vidas em hospitais, alivia dores intratáveis, devolve dignidade a pacientes com epilepsia, câncer, esclerose múltipla. Mas aqui, ainda escolhemos o porrete em vez da pesquisa, a ignorância em vez da evidência. O atraso, no Brasil, não é acidente, é política de Estado. E enquanto fingimos defender a moral, sacrificamos a razão, a ciência e milhares de vidas numa cruzada inútil, onde a estupidez virou bandeira e a empatia, contravenção.

Roraima Rocha é Advogado; sócio fundador do escritório MGR – Maia, Gouveia & Rocha Advogados; Mestrando em Legal Studies Emphasis in International Law (Must University – EUA); Especialista em Direito Penal e Processual Penal (Faculdade Gran); Especialista em Advocacia Cível (Fundação do Ministério Público do Rio Grande do Sul – FMP); Membro da Comissão de Prerrogativas, Secretário-Geral Tribunal de Ética e Disciplina – TED, e Presidente da Comissão de Advocacia Criminal da OAB/AC.

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