Muher afirma ter sido estuprada por policiais em delegacia do Amazonas

Por AgĂȘncia Brasil 24/07/2025


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Uma mulher de 29 anos afirma ter sido estuprada por quatro policiais e um guarda municipal durante parte dos nove meses em que esteve presa em uma delegacia de Santo AntÎnio do Içå (AM), à espera de ser transferida para Manaus.Muher afirma ter sido estuprada por policiais em delegacia do AmazonasMuher afirma ter sido estuprada por policiais em delegacia do Amazonas

Segundo a vĂ­tima, os abusos sexuais ocorreram entre novembro de 2022 e agosto de 2023, na 53ÂȘ Delegacia de Santo AntĂŽnio do Içå, no sudoeste amazonense, onde ela foi encarcerada provisoriamente, junto com presos do sexo masculino. Contudo, a mulher sĂł denunciou o caso Ă s autoridades apĂłs 28 de agosto de 2023, quando foi removida para a Cadeia PĂșblica Feminina de Manaus, onde estĂĄ cumprindo pena em regime fechado pelo crime de homicĂ­dio qualificado.

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“AtĂ© entĂŁo, a Ășnica pessoa que sabia dos abusos era a mĂŁe dela”, explicou Ă  AgĂȘncia Brasil o advogado Dacimar de Souza. Ele assumiu a defesa da mulher no processo em que ela Ă© rĂ© cerca de dois meses antes dela ser transferida de Santo AntĂŽnio do Içå para Manaus. Agora, a representa na ação indenizatĂłria ajuizada em fevereiro deste ano, e na qual a vĂ­tima pede uma reparação moral equivalente a 350 salĂĄrios mĂ­nimos, ou cerca de R$ 530 mil.

“Ela nĂŁo confiava em relatar os abusos sofridos nem aos advogados que a representavam antes, nem Ă  psicĂłloga do Creas [Centro de ReferĂȘncia Especializado da AssistĂȘncia Social] que a acompanhava. E sĂł sentiu segurança para me contar o que tinha acontecido meses apĂłs eu assumir a causa e quando ela jĂĄ estava em Manaus”, acrescentou Souza.

Ainda de acordo com o defensor, a mulher relata que os quatro policiais e o guarda municipal abusavam dela durante o plantão da noite, inclusive quando ela estava no puerpério, 20 dias após o parto. Os abusos ocorriam diante não só de outros presos homens com os quais ela dividia a carceragem improvisada na delegacia, mas também de filho recém-nascido, que passou ao menos dois meses ao lado da vítima a fim de ser amamentado

“Segundo minha cliente, os agentes a obrigavam a consumir bebidas alcoĂłlicas e, depois, manter relaçÔes sexuais forçadas com eles”, relatou Souza, assegurando que ele mesmo chegou a testemunhar a presença do bebĂȘ junto com a mĂŁe, na cela. 

As condiçÔes irregulares em que a mulher passou nove meses presa – em um espaço improvisado, na companhia de homens e com uma criança recĂ©m-nascida – foram documentadas pelo advogado que a representava antes de Souza e que pediu que ela fosse transferida para o regime domiciliar a fim de poder cuidar da criança. TambĂ©m foram registradas por um delegado que comunicou Ă  Justiça que Santo AntĂŽnio do Içå nĂŁo tem onde manter segregadas mulheres condenadas ou presas em carĂĄter temporĂĄrio, e tambĂ©m por um magistrado que inspecionou o local.

“Ela foi colocada em uma cela após ser presa [em novembro de 2022] por força de um mandado de prisão em aberto que ela nem sabia que existia, já que [em maio de 2020] a Justiça tinha a autorizado a cumprir prisão domiciliar pelo suposto crime de homicídio”, acrescentou Souza, referindo-se ao homicídio da adolescente Camille Vitória Rodrigues dos Santos, de 16 anos, estrangulada em 31 de dezembro de 2018, em Manaus.

“Como, na cidade, a polĂ­cia nĂŁo tinha onde colocar minha cliente, jĂĄ que [em novembro de 2022] ela jĂĄ tinha sido condenada, o gestor decidiu mantĂȘ-la em uma cela improvisada em um corredor, onde ficam presos do sexo masculino de menor periculosidade. E ali ela permaneceu por nove meses, porque, apesar de o delegado pedir urgĂȘncia na transferĂȘncia da minha cliente para a capital, a Seap [secretaria estadual de Administração PenitenciĂĄria] alegou dificuldades logĂ­sticas e financeiras para efetivar a transferĂȘncia”, comentou o advogado, alegando que, nestas circunstĂąncias, a presença de uma criança na cela foi a forma encontrada para possibilitar que esta fosse amamentada.

“A famĂ­lia da minha cliente nĂŁo tem condiçÔes financeiras de cuidar desta criança que necessitava da mĂŁe e que nĂŁo tinha mais com quem ficar”, comentou o advogado, revelando desconhecer se tal “solução” foi autorizada pelo Poder JudiciĂĄrio.

“A presença desta criança na cela já foi por si só um erro do Estado, que foi informado da situação pelo gestor [delegado]”, disse o defensor.

Ainda de acordo com o advogado, os supostos abusos sexuais que a mulher diz ter sofrido foram atestados pelo Instituto MĂ©dico Legal (IML), em 28 de agosto de 2023, data em que ela, enfim, foi transferida para a Cadeira PĂșblica Feminina de Manaus. O laudo de exame de corpo de delito aponta haver indĂ­cios de “conjunção carnal” resultante de ato violento relacionado ao “delito em apuração”, sem fazer alusĂŁo aos possĂ­veis abusadores – ainda que, de acordo com a vĂ­tima, os agentes pĂșblicos responsĂĄveis por garantir sua integridade a tivessem violentado poucos dias antes.

“Isso, agora, estĂĄ nas mĂŁos da Justiça. Acreditamos que os autores serĂŁo identificados e condenados na esfera criminal. No Ăąmbito civil, estamos pedindo que o estado do Amazonas seja obrigado a custear todo o tratamento da vĂ­tima, que segue sofrendo, tendo, inclusive, sido diagnosticada com depressĂŁo severa. AlĂ©m disso, estamos pleiteando uma reparação moral e material de R$ 500 mil, embora saibamos que valor algum poderĂĄ reparar os danos, todo o sofrimento pelo qual ela passou”, concluiu o advogado.

Depoimento

Uma comitiva do MinistĂ©rio PĂșblico estadual esteve na Cadeia PĂșblica Feminina de Manaus na tarde desta terça-feira (22) e colheu o depoimento da indĂ­gena (foto em destaque da procuradora com a vĂ­tima). Para o ĂłrgĂŁo, o caso “expĂ”e graves denĂșncias de violĂȘncia institucional, abuso de autoridade e violação de direitos humanos fundamentais”.

“Importante dizer que esta mulher foi vĂ­tima de uma violĂȘncia praticada por pessoas que deveriam salvaguardar sua integridade. Algo que, via de regra, acontece com mulheres, que sĂŁo vĂ­timas de violĂȘncia no ambiente familiar – cometida por parceiros e familiares -, nas ruas e, muitas vezes, desta violĂȘncia institucionalizada [no paĂ­s]”, comentou a procuradora-geral de Justiça Leda Mara Albuquerque, em um vĂ­deo divulgado Ă  imprensa nesta quarta-feira (23).

Na mensagem, a procuradora afirma que Ă© preciso discutir a sĂ©rio a questĂŁo carcerĂĄria do Amazonas. “NĂŁo podemos mais aceitar que nĂŁo haja espaços para custodiar as mulheres. A despeito de todo e qualquer ato ilegal que uma mulher tenha praticado, qualquer infração penal, ela precisa ter, nos presĂ­dios pĂșblicos do interior do Amazonas, um espaço condizente com sua condição cidadĂŁ”, cobrou Leda Mara, apontando que, via de regra, os estabelecimentos penais pĂșblicos do estado nĂŁo atendem Ă  Lei de Execução Penal, reforçando a violĂȘncia de gĂȘnero.

IndĂ­gena

Segundo o MinistĂ©rio PĂșblico do Amazonas (MP-AM), a mulher que afirma ter sofrido abusos sexuais Ă© indĂ­gena, da etnia kokama – informação reforçada pelo advogado Dacimar de Souza.

Consultada pela AgĂȘncia Brasil, a Fundação Nacional dos Povos IndĂ­genas (Funai) informou que tĂŁo logo soube da denĂșncia de violação de direitos humanos durante o encarceramento de uma mulher indĂ­gena, mobilizou as instĂąncias administrativas e jurĂ­dicas para adotar as providĂȘncias necessĂĄrias.

“Tendo em vista a gravidade do caso, a Procuradoria Federal Especializada (PFE) junto Ă  Funai foi acionada para prestar orientaçÔes jurĂ­dicas e adotar as medidas pertinentes”, acrescentou a fundação, garantindo jĂĄ ter solicitado, formalmente, que o MP-AM, a Defensoria PĂșblica estadual e a Defensoria PĂșblica da UniĂŁo (DPU) atuem no caso.

“A PFE tambĂ©m oficiou a Corregedoria-Geral do Sistema de Segurança PĂșblica, dando conhecimento acerca dos fatos e solicitando providĂȘncias para o imediato afastamento dos policiais mencionados pela indĂ­gena”, detalhou a Funai, que tambĂ©m pediu o acesso aos procedimentos administrativos disciplinares jĂĄ instaurados para apurar os fatos e aos processos judiciais em curso. A autarquia tambĂ©m comunicou o MinistĂ©rio da Mulher para que verifique as medidas protetivas a serem implementadas, inclusive para verificar relatos de que outras mulheres passam pela mesma situação na delegacia de Santo AntĂŽnio do Içå.

Apuração

Em nota, a secretaria estadual de Segurança PĂșblica (SSP-AM) informou que a Corregedoria-Geral do Sistema de Segurança PĂșblica do Amazonas e a PolĂ­cia Civil instauraram procedimentos para apurar o caso. Informou ainda que a PolĂ­cia Militar estĂĄ finalizando as investigaçÔes no Ăąmbito de um InquĂ©rito Policial Militar que tramita em carĂĄter sigiloso.

A Procuradoria-Geral do Amazonas (PGE-AM) assegura sĂł ter tomado conhecimento da denĂșncia ao ser provocada, no escopo da ação indenizatĂłria, a se pronunciar sobre o pedido de atendimento psicolĂłgico e psiquiĂĄtrico apresentado pela denunciante. “Imediatamente, a PGE solicitou informaçÔes Ă  PolĂ­cia Civil, bem como Ă  Corregedoria da Secretaria de Segurança PĂșblica, sobre procedimentos apuratĂłrios. Os atendimentos mĂ©dicos solicitados foram agendados pela Secretaria de Administração PenitenciĂĄria do Amazonas (Seap), e jĂĄ estĂŁo sendo prestados”.

Ainda de acordo com a procuradoria estadual, duas propostas de valores jĂĄ foram apresentadas ao advogado da denunciante para pĂŽr fim Ă  ação por danos morais. “As propostas nĂŁo foram aceitas e o processo segue, aguardando julgamento”. De acordo com o advogado Dacimar de Souza, na Ășltima delas, a PGE-AM propĂŽs que o governo estadual pagasse R$ 50 mil, ou menos de 10% do valor que a mulher pleiteia.

Cautela

TambĂ©m em nota, a Defensoria PĂșblica estadual confirmou que foi informada em 28 de agosto de 2023 de que “uma reeducanda indĂ­gena, da etnia kokama”, relata ter sofrido “mĂșltiplos estupros” durante o perĂ­odo que esteve custodiada na delegacia de Santo AntĂŽnio do Içå – ou seja, um dia apĂłs a denunciante ter dado entrada na unidade prisional feminina de Manaus.

“À Ă©poca, a vĂ­tima se encontrava extremamente abalada e com receio de que, se o caso viesse a pĂșblico, houvesse retaliação por parte dos policiais envolvidos, jĂĄ que sua mĂŁe e seus filhos ainda residiam no interior do estado – razĂŁo pela qual a Defensoria optou por conduzir o caso com a mĂĄxima cautela, zelando pela proteção integral Ă  vĂ­tima e a seus familiares, ao mesmo tempo em que adotava todas as medidas legais cabĂ­veis”.

Ainda de acordo com a Defensoria, a mulher foi imediatamente ouvida por equipes do órgão, com o apoio de psicólogos, e se encontrava em “estado de extrema debilidade emocional”, “abatida, chorando constantemente e se recusando a se alimentar”.

“ApĂłs o relato, a Defensoria PĂșblica solicitou o imediato encaminhamento da vĂ­tima Ă  Delegacia da Mulher, onde foi realizado exame de corpo de delito, cujo laudo pericial [conforme afirma o advogado da denunciante] confirmou Ă  ocorrĂȘncia de conjunção carnal e a presença de sinais de violĂȘncia”, informou a Defensoria estadual, revelando ter endossado o pedido para que a Vara de ExecuçÔes Penais autorize a mulher a passar a cumprir sua pena em regime domiciliar. E apontando “a gravidade das denĂșncias”.

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