Uma mulher de 29 anos afirma ter sido estuprada por quatro policiais e um guarda municipal durante parte dos nove meses em que esteve presa em uma delegacia de Santo AntÎnio do Içå (AM), à espera de ser transferida para Manaus.

Segundo a vĂtima, os abusos sexuais ocorreram entre novembro de 2022 e agosto de 2023, na 53ÂȘ Delegacia de Santo AntĂŽnio do Içå, no sudoeste amazonense, onde ela foi encarcerada provisoriamente, junto com presos do sexo masculino. Contudo, a mulher sĂł denunciou o caso Ă s autoridades apĂłs 28 de agosto de 2023, quando foi removida para a Cadeia PĂșblica Feminina de Manaus, onde estĂĄ cumprindo pena em regime fechado pelo crime de homicĂdio qualificado.
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âAtĂ© entĂŁo, a Ășnica pessoa que sabia dos abusos era a mĂŁe delaâ, explicou Ă AgĂȘncia Brasil o advogado Dacimar de Souza. Ele assumiu a defesa da mulher no processo em que ela Ă© rĂ© cerca de dois meses antes dela ser transferida de Santo AntĂŽnio do Içå para Manaus. Agora, a representa na ação indenizatĂłria ajuizada em fevereiro deste ano, e na qual a vĂtima pede uma reparação moral equivalente a 350 salĂĄrios mĂnimos, ou cerca de R$ 530 mil.
âEla nĂŁo confiava em relatar os abusos sofridos nem aos advogados que a representavam antes, nem Ă psicĂłloga do Creas [Centro de ReferĂȘncia Especializado da AssistĂȘncia Social] que a acompanhava. E sĂł sentiu segurança para me contar o que tinha acontecido meses apĂłs eu assumir a causa e quando ela jĂĄ estava em Manausâ, acrescentou Souza.
Ainda de acordo com o defensor, a mulher relata que os quatro policiais e o guarda municipal abusavam dela durante o plantĂŁo da noite, inclusive quando ela estava no puerpĂ©rio, 20 dias apĂłs o parto. Os abusos ocorriam diante nĂŁo sĂł de outros presos homens com os quais ela dividia a carceragem improvisada na delegacia, mas tambĂ©m de filho recĂ©m-nascido, que passou ao menos dois meses ao lado da vĂtima a fim de ser amamentado
âSegundo minha cliente, os agentes a obrigavam a consumir bebidas alcoĂłlicas e, depois, manter relaçÔes sexuais forçadas com elesâ, relatou Souza, assegurando que ele mesmo chegou a testemunhar a presença do bebĂȘ junto com a mĂŁe, na cela.Â
As condiçÔes irregulares em que a mulher passou nove meses presa â em um espaço improvisado, na companhia de homens e com uma criança recĂ©m-nascida â foram documentadas pelo advogado que a representava antes de Souza e que pediu que ela fosse transferida para o regime domiciliar a fim de poder cuidar da criança. TambĂ©m foram registradas por um delegado que comunicou Ă Justiça que Santo AntĂŽnio do Içå nĂŁo tem onde manter segregadas mulheres condenadas ou presas em carĂĄter temporĂĄrio, e tambĂ©m por um magistrado que inspecionou o local.
âEla foi colocada em uma cela apĂłs ser presa [em novembro de 2022] por força de um mandado de prisĂŁo em aberto que ela nem sabia que existia, jĂĄ que [em maio de 2020] a Justiça tinha a autorizado a cumprir prisĂŁo domiciliar pelo suposto crime de homicĂdioâ, acrescentou Souza, referindo-se ao homicĂdio da adolescente Camille VitĂłria Rodrigues dos Santos, de 16 anos, estrangulada em 31 de dezembro de 2018, em Manaus.
âComo, na cidade, a polĂcia nĂŁo tinha onde colocar minha cliente, jĂĄ que [em novembro de 2022] ela jĂĄ tinha sido condenada, o gestor decidiu mantĂȘ-la em uma cela improvisada em um corredor, onde ficam presos do sexo masculino de menor periculosidade. E ali ela permaneceu por nove meses, porque, apesar de o delegado pedir urgĂȘncia na transferĂȘncia da minha cliente para a capital, a Seap [secretaria estadual de Administração PenitenciĂĄria] alegou dificuldades logĂsticas e financeiras para efetivar a transferĂȘnciaâ, comentou o advogado, alegando que, nestas circunstĂąncias, a presença de uma criança na cela foi a forma encontrada para possibilitar que esta fosse amamentada.
âA famĂlia da minha cliente nĂŁo tem condiçÔes financeiras de cuidar desta criança que necessitava da mĂŁe e que nĂŁo tinha mais com quem ficarâ, comentou o advogado, revelando desconhecer se tal âsoluçãoâ foi autorizada pelo Poder JudiciĂĄrio.
âA presença desta criança na cela jĂĄ foi por si sĂł um erro do Estado, que foi informado da situação pelo gestor [delegado]â, disse o defensor.
Ainda de acordo com o advogado, os supostos abusos sexuais que a mulher diz ter sofrido foram atestados pelo Instituto MĂ©dico Legal (IML), em 28 de agosto de 2023, data em que ela, enfim, foi transferida para a Cadeira PĂșblica Feminina de Manaus. O laudo de exame de corpo de delito aponta haver indĂcios de âconjunção carnalâ resultante de ato violento relacionado ao âdelito em apuraçãoâ, sem fazer alusĂŁo aos possĂveis abusadores â ainda que, de acordo com a vĂtima, os agentes pĂșblicos responsĂĄveis por garantir sua integridade a tivessem violentado poucos dias antes.
âIsso, agora, estĂĄ nas mĂŁos da Justiça. Acreditamos que os autores serĂŁo identificados e condenados na esfera criminal. No Ăąmbito civil, estamos pedindo que o estado do Amazonas seja obrigado a custear todo o tratamento da vĂtima, que segue sofrendo, tendo, inclusive, sido diagnosticada com depressĂŁo severa. AlĂ©m disso, estamos pleiteando uma reparação moral e material de R$ 500 mil, embora saibamos que valor algum poderĂĄ reparar os danos, todo o sofrimento pelo qual ela passouâ, concluiu o advogado.
Depoimento
Uma comitiva do MinistĂ©rio PĂșblico estadual esteve na Cadeia PĂșblica Feminina de Manaus na tarde desta terça-feira (22) e colheu o depoimento da indĂgena (foto em destaque da procuradora com a vĂtima). Para o ĂłrgĂŁo, o caso âexpĂ”e graves denĂșncias de violĂȘncia institucional, abuso de autoridade e violação de direitos humanos fundamentaisâ.
âImportante dizer que esta mulher foi vĂtima de uma violĂȘncia praticada por pessoas que deveriam salvaguardar sua integridade. Algo que, via de regra, acontece com mulheres, que sĂŁo vĂtimas de violĂȘncia no ambiente familiar – cometida por parceiros e familiares -, nas ruas e, muitas vezes, desta violĂȘncia institucionalizada [no paĂs]â, comentou a procuradora-geral de Justiça Leda Mara Albuquerque, em um vĂdeo divulgado Ă imprensa nesta quarta-feira (23).
Na mensagem, a procuradora afirma que Ă© preciso discutir a sĂ©rio a questĂŁo carcerĂĄria do Amazonas. “NĂŁo podemos mais aceitar que nĂŁo haja espaços para custodiar as mulheres. A despeito de todo e qualquer ato ilegal que uma mulher tenha praticado, qualquer infração penal, ela precisa ter, nos presĂdios pĂșblicos do interior do Amazonas, um espaço condizente com sua condição cidadĂŁ”, cobrou Leda Mara, apontando que, via de regra, os estabelecimentos penais pĂșblicos do estado nĂŁo atendem Ă Lei de Execução Penal, reforçando a violĂȘncia de gĂȘnero.
IndĂgena
Segundo o MinistĂ©rio PĂșblico do Amazonas (MP-AM), a mulher que afirma ter sofrido abusos sexuais Ă© indĂgena, da etnia kokama â informação reforçada pelo advogado Dacimar de Souza.
Consultada pela AgĂȘncia Brasil, a Fundação Nacional dos Povos IndĂgenas (Funai) informou que tĂŁo logo soube da denĂșncia de violação de direitos humanos durante o encarceramento de uma mulher indĂgena, mobilizou as instĂąncias administrativas e jurĂdicas para adotar as providĂȘncias necessĂĄrias.
âTendo em vista a gravidade do caso, a Procuradoria Federal Especializada (PFE) junto Ă Funai foi acionada para prestar orientaçÔes jurĂdicas e adotar as medidas pertinentesâ, acrescentou a fundação, garantindo jĂĄ ter solicitado, formalmente, que o MP-AM, a Defensoria PĂșblica estadual e a Defensoria PĂșblica da UniĂŁo (DPU) atuem no caso.
âA PFE tambĂ©m oficiou a Corregedoria-Geral do Sistema de Segurança PĂșblica, dando conhecimento acerca dos fatos e solicitando providĂȘncias para o imediato afastamento dos policiais mencionados pela indĂgenaâ, detalhou a Funai, que tambĂ©m pediu o acesso aos procedimentos administrativos disciplinares jĂĄ instaurados para apurar os fatos e aos processos judiciais em curso. A autarquia tambĂ©m comunicou o MinistĂ©rio da Mulher para que verifique as medidas protetivas a serem implementadas, inclusive para verificar relatos de que outras mulheres passam pela mesma situação na delegacia de Santo AntĂŽnio do Içå.
Apuração
Em nota, a secretaria estadual de Segurança PĂșblica (SSP-AM) informou que a Corregedoria-Geral do Sistema de Segurança PĂșblica do Amazonas e a PolĂcia Civil instauraram procedimentos para apurar o caso. Informou ainda que a PolĂcia Militar estĂĄ finalizando as investigaçÔes no Ăąmbito de um InquĂ©rito Policial Militar que tramita em carĂĄter sigiloso.
A Procuradoria-Geral do Amazonas (PGE-AM) assegura sĂł ter tomado conhecimento da denĂșncia ao ser provocada, no escopo da ação indenizatĂłria, a se pronunciar sobre o pedido de atendimento psicolĂłgico e psiquiĂĄtrico apresentado pela denunciante. âImediatamente, a PGE solicitou informaçÔes Ă PolĂcia Civil, bem como Ă Corregedoria da Secretaria de Segurança PĂșblica, sobre procedimentos apuratĂłrios. Os atendimentos mĂ©dicos solicitados foram agendados pela Secretaria de Administração PenitenciĂĄria do Amazonas (Seap), e jĂĄ estĂŁo sendo prestadosâ.
Ainda de acordo com a procuradoria estadual, duas propostas de valores jĂĄ foram apresentadas ao advogado da denunciante para pĂŽr fim Ă ação por danos morais. âAs propostas nĂŁo foram aceitas e o processo segue, aguardando julgamentoâ. De acordo com o advogado Dacimar de Souza, na Ășltima delas, a PGE-AM propĂŽs que o governo estadual pagasse R$ 50 mil, ou menos de 10% do valor que a mulher pleiteia.
Cautela
TambĂ©m em nota, a Defensoria PĂșblica estadual confirmou que foi informada em 28 de agosto de 2023 de que âuma reeducanda indĂgena, da etnia kokamaâ, relata ter sofrido âmĂșltiplos estuprosâ durante o perĂodo que esteve custodiada na delegacia de Santo AntĂŽnio do Içå â ou seja, um dia apĂłs a denunciante ter dado entrada na unidade prisional feminina de Manaus.
âĂ Ă©poca, a vĂtima se encontrava extremamente abalada e com receio de que, se o caso viesse a pĂșblico, houvesse retaliação por parte dos policiais envolvidos, jĂĄ que sua mĂŁe e seus filhos ainda residiam no interior do estado â razĂŁo pela qual a Defensoria optou por conduzir o caso com a mĂĄxima cautela, zelando pela proteção integral Ă vĂtima e a seus familiares, ao mesmo tempo em que adotava todas as medidas legais cabĂveisâ.
Ainda de acordo com a Defensoria, a mulher foi imediatamente ouvida por equipes do ĂłrgĂŁo, com o apoio de psicĂłlogos, e se encontrava em âestado de extrema debilidade emocionalâ, âabatida, chorando constantemente e se recusando a se alimentarâ.
âApĂłs o relato, a Defensoria PĂșblica solicitou o imediato encaminhamento da vĂtima Ă Delegacia da Mulher, onde foi realizado exame de corpo de delito, cujo laudo pericial [conforme afirma o advogado da denunciante] confirmou Ă ocorrĂȘncia de conjunção carnal e a presença de sinais de violĂȘnciaâ, informou a Defensoria estadual, revelando ter endossado o pedido para que a Vara de ExecuçÔes Penais autorize a mulher a passar a cumprir sua pena em regime domiciliar. E apontando âa gravidade das denĂșnciasâ.
