Era uma vez uma menina de cinco anos. Filha de empresário milionário, usava uma bolsinha da grife Fendi no pulso, provavelmente sem saber sequer soletrar a marca. Era apenas uma criança. Mas, em 2025, numa era em que a luta de classes ganhou perfil no Instagram e lacração substituiu leitura, isso basta para merecer a pena capital nas redes sociais.
Foi o que sugeriu, com a serenidade de um Robespierre de sofá, o professor aposentado Marcos Dantas, da UFRJ, ao declarar que aquela criança deveria ser “ir para a guilhotina”. Sim, leu certo. Guilhotina. Para uma menina de cinco anos.
A crítica, travestida de justiça social, foi aplaudida por militantes que não suportam ostentação… exceto quando vem com paletó de linho e pulseira Cartier. Afinal, como bem ironizou Danilo Gentili, o problema era “a menina estar usando uma bolsa de R$ 14 mil. Um grave absurdo”. Grave mesmo. Tão grave que ninguém se incomoda quando o presidente da República desfila com um relógio suíço de mais de R$ 80 mil no pulso, pago com um contracheque público. Ou quando a deputada federal Erika Hilton posa para as redes com uma bolsa de quase R$ 30 mil, mesmo sendo funcionária da nação e não herdeira de um império empresarial.
Mas aí, caro leitor, o silêncio é revolucionário.
Vivemos tempos em que o discurso da empatia é seletivo e a justiça social virou um produto de boutique. Criticar um político de esquerda por ostentação? Reacionarismo. Mas condenar uma criança por existir dentro de um contexto privilegiado, ainda que sem culpa ou consciência disso, é quase um ato pedagógico, digno de aplausos em coletivos de humanas.
É curioso como os radicais da virtude moral se irritam com uma bolsa de criança, mas jamais se ofendem com discursos de ódio (desde que direcionados aos “inimigos de classe”). A mesma esquerda que se ergue, com razão, contra o preconceito e a violência verbal, se cala ou até sorri quando a agressão parte “do lado certo” do espectro ideológico.
Reflexiva é a lógica torta dos tempos atuais: os mesmos que se sentem à vontade para incitar ódio contra essa menina, em nome de uma suposta justiça social, são os primeiros a erguer o dedo moralista contra humoristas como Léo Lins, que fazem piadas em um palco, diante de um público pagante, dentro de um contexto cênico claramente marcado pela liberdade artística. A piada, ainda que ácida, vira crime; mas desejar “guilhotina” para uma criança é visto como ato político. Eis a contradição: o humor é censurado, mas o ódio é tolerado, desde que venha com verniz ideológico aceitável.
O direito à estupidez não é cláusula pétrea. A Constituição garante a liberdade de expressão. Mas não o direito de incitar violência contra crianças, ou alguém duvida que sugerir guilhotina a uma menina de cinco anos ultrapasse qualquer limite civilizatório? O Código Penal, ainda que um tanto cansado de apanhar da má interpretação conceitual, permanece claro: apologia ao crime e incitação à violência não são opiniões, são delitos.
Mas nem tudo está perdido. A UFRJ, mesmo com certo constrangimento, repudiou a fala. O professor apagou o post, como fazem todos os covardes da era digital, corajosos só até o print.
É preciso, sim, discutir desigualdade. É urgente discutir meritocracia, privilégios e injustiças estruturais. Mas isso exige um mínimo de honestidade intelectual. Ou vamos continuar fingindo que só os ricos de direita ostentam? Que só os filhos de empresários exibem poder?
A esquerda brasileira, infelizmente, foi sequestrada por um moralismo performático. O problema não é a opulência, é quem a ostenta. Quando a bolsa está no ombro de um político de esquerda, ela é símbolo de empoderamento. Quando está no braço de uma menina que nem sabe que há um debate político sendo travado por causa dela, é um sinal de degeneração da burguesia.
Em tempos de tribunal virtual, onde a verdade vale menos que o engajamento e o sarcasmo é mais eficaz que a lógica, a crítica social virou entretenimento cruel. E quando se atinge uma criança com discurso violento e aplausos cínicos, não há revolução, há barbárie.
A esquerda, se quiser continuar a existir como força ética e política, precisa urgentemente olhar para o espelho. E talvez perguntar: o que é mais escandaloso? A bolsa da filha do Justus ou a hipocrisia de quem diz lutar por justiça enquanto distribui forcas simbólicas em nome do bem?

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*Roraima Rocha é Advogado; sócio fundador do escritório MGR – Maia, Gouveia & Rocha Advogados; Mestrando em Legal Studies Emphasis in International Law (Must University – EUA); Especialista em Direito Penal e Processual Penal (Faculdade Gran); Especialista em Advocacia Cível (Fundação do Ministério Público do Rio Grande do Sul – FMP); Membro da Comissão de Prerrogativas, Secretário-Geral Tribunal de Ética e Disciplina – TED, e Presidente da Comissão de Advocacia Criminal da OAB/AC.
