Ótima a ideia de hospedar a COP30 na ameaçada Amazônia. Irrefletida a proposta de a reunião ser restrita à Belém. Por restrita, deu origem a problemas sérios que quase a inviabilizaram. Fosse a reunião programada para a Amazônia, ocorrendo em diversos locais, unidos por boa internet e pontes aéreas especiais para o evento, o sucesso talvez fosse espetacular. Mas, realizada numa só cidade com infraestrutura precária, seus resultados podem ser frustrantes. Para quem?
Ficarão decepcionados aqueles que buscam respostas eficazes para enfrentar as mudanças climáticas; felizes os empreiteiros que lucram com obras emergenciais para viabilizar a conferência, hoteleiros e proprietários que alugaram muquifos a peso de ouro, e políticos que pousarão como defensores do meio ambiente, apesar de muitas ações em contrário. E o comprometimento das novas gerações continuará!
A COP30, assim como suas antecessoras mais recentes, ocorrerá num país que é exportador de petróleo e se diz produtor do líquido venenoso, embora apenas extraia do solo aquilo que as eras geológicas produziram. Dependente, em parte, das divisas derivadas daquela exportação, o compromisso de enfrentar as causas das mudanças climáticas é real ou jogo de cena?
Na última semana, a tentativa de se fechar um acordo internacional para minorar o também muito grave problema da poluição por plásticos foi frustrada. A reunião, em Genebra, teve a presença maciça de lobistas da indústria do petróleo/plástico, os quais inviabilizaram um entendimento. Ao contrário, há a expectativa de que a produção de plástico triplique nas próximas três décadas, alcançando a marca de mais de um bilhão de toneladas por ano, da qual uma parcela ínfima é reciclada.
Claro, o plástico é prático. Mas, assim como o petróleo, é também mortal! A sede de mais lucros dificulta restringir o uso de ambos.
Nas últimas COPs sobre o clima, a presença de lobistas da mortal indústria inviabilizou acordos fortes. Em Belém, é provável que a presença desses elementos seja proporcionalmente maior, pois atores menos dotados de recursos estão sendo impedidos de participar, afastados pelo alto custo de lá estar; se até presidente da Áustria desistiu de comparecer… Assim sendo, a probabilidade de um acordo forte, de um avanço significativo em prol da vida, fica reduzida.
As conferências sobre o clima, assim como aquelas sobre o plástico, repetem-se e arrastam-se enquanto os problemas de que tratam se agravam. Não se trata, claro, de desistir de acordos internacionais, muitos dos quais apresentaram bons resultados. Mas é cada vez mais necessário criatividade e inovação, inclusive nessas negociações, para superar a força da grana que “ergue e destrói coisas belas”. Que, no ritmo e rumo atual, mais destrói que ergue!
Uma COP30 verdadeiramente amazônica teria, ao menos, a característica inovadora de evitar a concentração, distribuindo seus impactos por áreas e populações mais amplas.
Eduardo Fernandez Silva. Ex-Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados

