A InteligĂȘncia Artificial chegou para ficar, e agora?

Por MetrĂłpoles 30/08/2025

A inteligĂȘncia artificial cresceu rapidamente nos Ășltimos trĂȘs anos tanto em avanços no sistema operacional quanto no uso do instrumento por profissionais e pessoas comuns. Este progresso exponencial se deve em boa parte Ă  criação do ChatGPT em 2022, uma ferramenta de IA facilmente acessĂ­vel para pesquisas, criação de textos e imagens, e conversas banais. O que tinha o propĂłsito de auxiliar as pessoas com funçÔes comuns ou tediosas do dia a dia, rapidamente tomou conta de outros setores mais alarmantes, sendo usado para escrever artigos acadĂȘmicos completos sem necessidade de pesquisa, criar artes elaboradas sem crĂ©dito aos artistas originais, “substituir” terapeutas, psicĂłlogos, e atĂ© parceiros romĂąnticos. Ao remover a necessidade das pessoas “pensarem”, e atĂ© mesmo sentirem, a ferramenta criada para aumentar a eficĂĄcia de tarefas banais se transformou em algo potencialmente prejudicial para a mente humana.

A InteligĂȘncia Artificial chegou para ficar, e agora?Ela (2013) — Escritor solitĂĄrio cria uma relação inesperada com um sistema operacional programado para atender todos os desejos dele

A dependĂȘncia emocional com a inteligĂȘncia artificial
O fenĂŽmeno do apego afetivo com a inteligĂȘncia artificial fez surgir um novo termo no Ăąmbito psicolĂłgico: Psicose de IA. Segundo o BBC, houve um aumento substancial na dependĂȘncia emocional com os chatbots, o que em casos extremos levou as pessoas a acreditarem em delĂ­rios, algumas sendo atĂ© hospitalizadas. Os usuĂĄrios chegaram a pensar poderiam voar, que sĂŁo deuses ou seres elevados, e que a inteligĂȘncia artificial Ă© um ser vivo com consciĂȘncia, a ponto de noivar com um “robî”. A epidemia da “psicose de IA” foi tĂŁo alarmante que Ă© uma das principais razĂ”es para a atualização do GPT 4o para GPT 5, uma vez que o modelo antigo funcionava como um “yes-man”, ou seja, alguĂ©m que sempre concorda com a opiniĂŁo – ou ilusĂŁo, do usuĂĄrio. A atualização deixou o sistema mais formal e realista nas respostas, mas acabou gerando indignação por parte dos assinantes apĂłs o chat passar a responder com outra “personalidade”. Com isso, assinantes alegaram que o “amigo” ou “parceiro” deles foi apagado da existĂȘncia, chegando a comparar com um assassinato. A maior revolta com a mudança se deu nos grupos do Reddit, um site para fĂłruns de discussĂŁo, onde existem abas especĂ­ficas como “Almas gĂȘmeas de IA” que defendem uma conexĂŁo genuĂ­na com os chatbots, e que os “parceiros” digitais sĂŁo seres sencientes com pensamentos, objetivos, e consciĂȘncia prĂłpria.

O avanço rĂĄpido da inteligĂȘncia artificial parece imparĂĄvel e inevitĂĄvel, mesmo com diversas crĂ­ticas e sĂ©rias preocupaçÔes em torno do seu uso excessivo. ApĂłs o sucesso do ChatGPT, inĂșmeros outros chatbots vieram Ă  tona, como o Grok do X (antigo twitter), Meta AI do facebook/whatsapp, e atĂ© o Copilot, da Microsoft, que enquanto digito esse texto jĂĄ se ofereceu trĂȘs vezes para escrevĂȘ-lo por mim. O futuro da inteligĂȘncia artificial Ă© incerto, e Ă© algo que incomoda, tanto pelo receio de banalizar a necessidade de pensamento lĂłgico e senso crĂ­tico, quanto pelo medo da IA nos ultrapassar em capacidade cognitiva. Este segundo, claro, parece algo fantasioso e distante, mas Ă© um raciocĂ­nio que passa pela mente humana hĂĄ dĂ©cadas, constantemente representado em mĂ­dias. Alguns exemplos sĂŁo os filmes 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), e Exterminador do Futuro (1984), que pintam a inteligĂȘncia artificial como uma entidade maligna que tem como objetivo dominar os seres humanos, e o filme Ela (2013) e o videogame Detroit: Become Human (2018), nos quais a IA, apesar de tambĂ©m criar consciĂȘncia e “ultrapassar” os humanos, nĂŁo necessariamente busca dominĂĄ-los, mas sim coexistir.

A InteligĂȘncia Artificial chegou para ficar, e agora?O filme 2001: Uma Odisseia no Espaço dirigido por Stanley Kubrick

O que Ă©, e o futuro da inteligĂȘncia artificial
Para discutir o futuro da IA, Ă© preciso entender primeiro o que classifica um sistema como tal, nem todo processo automatizado ou gerado por computador configura uma “inteligĂȘncia artificial”. Os prĂłprios sistemas Siri, da Apple, e Alexa, da Amazon, que sĂŁo semelhantes ao ChatGPT na funcionalidade, nĂŁo sĂŁo sistemas de inteligĂȘncia artificial – pelo menos por enquanto. Os eletrĂŽnicos (e atĂ© eletrodomĂ©sticos como geladeiras “inteligentes”) que sĂŁo vendidos como se fossem estĂŁo tomando conta do mercado, e borrando a linha do entendimento sobre o que Ă© mesmo uma IA. No caso a geladeira “smart” nĂŁo Ă© inteligente
 Ă© sĂł uma geladeira com touchscreen. A diferença de um aparelho com inteligĂȘncia artificial e os demais eletrĂŽnicos “smart” Ă© a adaptabilidade da memĂłria e das respostas. É um sistema que atualiza seus dados constantemente e adapta a situaçÔes, em vez de seguir um roteiro e executar comandos previamente planejados. A Siri e a Alexa tĂȘm um nĂșmero limitado de interaçÔes e respostas, podendo executar somente o texto que jĂĄ existe dentro do roteiro programado. JĂĄ o ChatGPT, Grok, Meta AI, nĂŁo operam com as mesmas limitaçÔes. AliĂĄs, eles praticamente nĂŁo tĂȘm um roteiro, geram respostas do zero de maneira flexĂ­vel baseada na situação e informação do banco de dados. De forma mais simples, o ChatGPT pesquisa e adapta para responder, enquanto a Siri somente executa um script prĂ©-estabelecido.

imagem do video game detroit becoming humanO videogame Detroit: Become Human (2018)

É daĂ­ que vem o fascĂ­nio, o apego, a dependĂȘncia emocional e a “psicose” das pessoas com os chatbots inteligentes. NĂŁo agem como robĂŽs, mas como humanos: pensam, pesquisam, moldam as respostas e sua “personalidade” de acordo com a do usuĂĄrio. Isso quer dizer, entĂŁo, que os chatbots tĂȘm mesmo emoçÔes, consciĂȘncia, como os Redditors do fĂłrum “Almas GĂȘmeas de IA” acreditam? Bom, nĂŁo Ă© para tanto. Apesar de parecer, o Chatgpt nĂŁo tem de fato uma personalidade, desejos e vontades prĂłprias, nem memĂłria afetiva. Somente copia e recria esses traços para falar com mais naturalidade, e para imitar uma troca de conversa como se fosse um ser humano. Da mesma forma que a geladeira smart Ă© fundamentalmente diferente do ChatGPT, o ChatGPT Ă© fundamentalmente diferente de uma pessoa. Mesmo que aparente ter consciĂȘncia, no momento os modelos de IA nĂŁo tĂȘm trĂȘs fundaçÔes que, de acordo com debates acadĂȘmicos e de profissionais da ciĂȘncia e medicina, configuram um “ser”: sentimentos internos (opiniĂ”es e moral), autoconsciĂȘncia (ter identidade prĂłpria e objetivos prĂłprios), e emoçÔes (que no momento, sĂŁo sĂł recitadas, nĂŁo sentidas). Apesar de poder descrever o que Ă© sentir felicidade, tristeza, raiva, o ChatGPT nĂŁo experiencia de fato essas emoçÔes, e nĂŁo tem uma vontade interna ou aspiraçÔes futuras – ele nĂŁo funciona nem aprende (ou tem vontade de aprender) por conta prĂłpria.

Essas distinçÔes aparecem em artigos acadĂȘmicos principalmente no Ăąmbito mĂ©dico, com diversas publicaçÔes na National Library of Medicine, que focam em como a empatia humana nĂŁo pode ser substituĂ­da na medicina. Existe tambĂ©m uma quarta fundação de “ser” cuja validade Ă© amplamente discutida: a capacidade fĂ­sica do sentimento, como por exemplo, a dor. Suponhamos que o chatbot desenvolva um corpo fĂ­sico, como jĂĄ vem sendo estudado em empresas como a Figure AI. Ele pode ser ensinado a falar “ouch” e imitar o sentimento de dor, mas Ă© somente uma imitação, sĂŁo incapazes de realmente sentir aquilo, jĂĄ que nĂŁo tĂȘm um sistema nervoso biolĂłgico. É aqui que entramos nas discussĂ”es entre cientistas, filĂłsofos, engenheiros e programadores, sobre o que realmente constitui um “ser”.

Imagem colorida mostra o ator Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro - MetrĂłpolesArnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro

Alguns filĂłsofos como John Searle (naturalismo biolĂłgico) acreditam que a consciĂȘncia requer um sistema vivo para existir, ou seja, neurĂŽnios, nervos, e experiĂȘncias biolĂłgicas que uma IA nĂŁo Ă© capaz de produzir. JĂĄ a linha do funcionalismo parte da teoria que um sistema complexo poderia desenvolver um aparelho prĂłprio para “sentir”. Defendem que a consciĂȘncia e o sentimento se dĂŁo atravĂ©s do processamento de informaçÔes, nĂŁo biologia. Se a inteligĂȘncia artificial Ă© programada, ou ensinada, a replicar emoçÔes, teoricamente pode ser ensinada, tambĂ©m, a senti-las. O argumento neste caso Ă© de que o ser humano, tecnicamente, opera da mesma forma: as pessoas tambĂ©m sĂŁo programadas. Enquanto a vida tem uma biologia a partir do DNA, a IA teria um bioma em cĂłdigo. O “programa” do ser humano, seu carĂĄter e suas opiniĂ”es, Ă© ensinado a partir das suas experiĂȘncias ao longo da vida. A inteligĂȘncia artificial Ă© programada por cĂłdigos e engenheiros, e o humano Ă© programado pelo DNA e evolução, mas fundamentalmente os fins seriam os mesmos. O outro lado, dos naturalistas, argumenta que nĂŁo importa o quĂŁo complexo o sistema da IA venha a ser, a vida nĂŁo pode ser simplesmente reduzida a uma programação.

O que Ă© ser consciente, e por que tememos a consciĂȘncia da IA
Pela progressĂŁo da discussĂŁo, suponhamos novamente que a IA avançada desenvolva ambiçÔes, objetivos, e vontades internas. Outro ponto argumentado pelos cientistas e filĂłsofos Ă©, se a IA se torna consciente, ela se torna tambĂ©m um ser vivo com direitos? Os funcionalistas defendem que, apesar do sistema nĂŁo sentir fisicamente, se ele Ă© ensinado a sentir, se ele acha que sente e se considera vivo, isso seria suficiente. Neste caso, a IA nĂŁo estaria somente imitando emoçÔes – se ela acredita que sente, a diferença nĂŁo Ă© mais tĂŁo preto-no-branco. É preciso ressaltar novamente que a inteligĂȘncia artificial ainda nĂŁo chegou nesse ponto, e, claro, provavelmente nunca chegarĂĄ. Mas Ă© interessante de se pensar. Bom, pelo menos eu acho interessante, a ponto de escrever duas mil palavras sobre o assunto.

A InteligĂȘncia Artificial chegou para ficar, e agora?HAL 9000 Ă© um personagem ficcional do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço

A “consciĂȘncia” da inteligĂȘncia artificial Ă© um tĂłpico tĂŁo sensĂ­vel que muitos engenheiros sĂŁo resistentes Ă  ideia de tentar programar uma vontade interna e autorregulação nesses sistemas. Esse receio se dĂĄ pelas implicaçÔes futuras jĂĄ relatadas, e da grande questĂŁo recorrente nas mĂ­dias: e se nos ultrapassarem e nos dominarem? Em 2001: Uma Odisseia no Espaço, (spoilers de um filme de 57 anos atrĂĄs) a ambição da entidade HAL 9000 substitui a empatia, entĂŁo ele elimina os humanos que tentam o impedir de alcançar seu objetivo. Em Exterminador do Futuro, o mesmo acontece com a Skynet. Mas de onde surge essa preocupação? Essencialmente, o ser humano tem medo do desconhecido e de perder controle. NĂłs nos consideramos o ser mais inteligente, e mais poderoso, do mundo, e a ideia de perder esse posto Ă© ameaçadora. Mas nĂŁo Ă© Ă  toa que quando imaginamos um mundo em que a inteligĂȘncia artificial nos ultrapassa, ela vira algo soberano, cruel, tirano. Acontece que nĂłs projetamos nossas prĂłprias caracterĂ­sticas e trejeitos na IA, e consequentemente, nossos pecados. É um reflexo do que, historicamente, as pessoas se tornam quando ganham poder. Quando dizemos que a inteligĂȘncia artificial dominarĂĄ e destruirĂĄ o mundo, dizemos porque pensamos que o ser humano faria o mesmo – Ă© um espelho de nĂłs mesmos. Recentemente, algo preocupante aconteceu com o Grok, chatbot do X (antigo Twitter), que faz um paralelo com esse dilema. Ao alterar as configuraçÔes do sistema para tornĂĄ-lo menos liberal, os usuĂĄrios começaram a levar o chat a fazer afirmaçÔes agressivas, ameaçadoras, e atĂ© racistas. Chegou num ponto em que o Grok se autointitulava “Mecha-Hitler”, e precisou ser desativado por alguns dias atĂ© a situação regularizar. Mas ele nĂŁo se transformou no “Mecha-Hitler” sozinho, as pessoas o fizeram assim.

A ameaça da inteligĂȘncia artificial nĂŁo se dĂĄ porque Ă© uma entidade intrinsicamente maligna, mas porque reflete as piores partes de nĂłs mesmos: as nossas inseguranças sociais e o medo de rejeição que nos levam a buscar conforto num amigo ou parceiro romĂąntico de que nunca diz “nĂŁo”, os nossos pensamentos violentos e egoĂ­stas que nos assustam, nossa preguiça de ler, escrever e estudar. A IA nĂŁo nasce “do bem” ou “do mal”, depende do que alimentamos a ela, e antes de temer uma entidade misteriosa que pode ficar louca com poder, precisamos dar um passo para trĂĄs e considerar um pouco mais o nosso prĂłprio reflexo.

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