Artista com baixa visĂŁo fala da potĂȘncia de pessoas com deficiĂȘncia

Por AgĂȘncia Brasil 30/08/2025


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Aos 42 anos, o artista plĂĄstico Daniel Freitas expĂ”e seu trabalho com xilogravuras no 69Âș Congresso Brasileiro de Oftalmologia, em Curitiba. As peças, produzidas desde 2004 como parte da sĂ©rie Cordel Urbano, retratam transeuntes, pessoas invisibilizadas e povos originĂĄrios nas grandes metrĂłpoles brasileiras e suas periferias. Com poucas cores, a arte de Daniel prioriza o amarelo, simbolizando sua condição de fotobia. Artista com baixa visĂŁo fala da potĂȘncia de pessoas com deficiĂȘnciaArtista com baixa visĂŁo fala da potĂȘncia de pessoas com deficiĂȘncia

“O amarelo Ă© tambĂ©m a cor luz do arco-Ă­ris. É a cor que estĂĄ no meio-dia do cĂ­rculo cromĂĄtico. Enquanto artista, me encontrei nessa poĂ©tica. Por ser albino tambĂ©m e ter os cabelos amarelos claros. Estou trazendo a minha vida, a minha histĂłria pra poĂ©tica do meu trabalho.”

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Diagnosticado com baixa visĂŁo desde o nascimento, ele tem hoje cerca de 20% de capacidade visual em ambos os olhos. “NĂŁo tenho ideia do que seja enxergar mais do que enxergo hoje. Tive um pouco de perda visual atualmente em decorrĂȘncia da idade, natural, algo que, pra mim, tem pesado um pouco”, contou. 

Daniel tambĂ©m foi diagnosticado com nistagmo, condição oftalmolĂłgica que causa movimentos rĂĄpidos, repetitivos e involuntĂĄrios dos olhos. “Ainda bem que meu cĂ©rebro corrige. NĂŁo vejo as coisas balançando. NĂŁo me incomoda, nĂŁo atrapalha. O cĂ©rebro Ă© incrĂ­vel. Ele corrige e se adapta a esse tipo de situação”.
 


Curitiba (PR), 30/08/2025 - Obra do artista plĂĄstico Daniel Freitas. Foto: Paula LaboissiĂšre/AgĂȘncia Brasil

Obra do artista plĂĄstico Daniel Freitas – Foto Paula LaboissiĂšre/AgĂȘncia Brasil

Oficinas e aceitação 

A trajetĂłria de Daniel tambĂ©m passa por centros de reabilitação para pessoas com deficiĂȘncia visual. O trabalho começou em 2009, por meio da Associação de AssistĂȘncia ao Deficiente Visual Laramara, em SĂŁo Paulo. 

“Tive um projeto aprovado pela Secretaria Municipal de Cultura de SĂŁo Paulo e a contrapartida era dar oficinas de artes. Resolvi dar a oficina para pessoas que enxergam pouco ou nada. Muito pra poder trabalhar a minha prĂłpria aceitação enquanto pessoa com deficiĂȘncia”, afirmou. 

“Tive a sorte de nascer em um ateliĂȘ de escultura. LĂĄ, minha baixa visĂŁo nunca foi uma barreira. Nunca houve nenhum limite posto. Eu nĂŁo me via como uma pessoa com deficiĂȘncia visual. Havia uma negação da minha prĂłpria parte. Estando com outras pessoas com deficiĂȘncia visual e compreendendo um pouco esse universo, me aceito mais, me compreendo mais dentro das minhas limitaçÔes e reconheço a minha potĂȘncia.”

Material reciclĂĄvel

Em suas xilogravuras, Daniel nĂŁo utiliza madeiras nobres, mas restos de cenĂĄrio que encontra em caçambas pelas ruas e pedaços de MDF que os amigos guardam porque sabem que servem de matĂ©ria-prima expressiva para o artista. “Reutilizo esse material, que normalmente vai pro lixo. Trabalho com ele de novo, ressignificando e dando um novo lugar a ele, que Ă© o espaço da arte”.

Entre os instrumentos utilizados para auxiliar com a baixa visĂŁo estĂŁo lupas e Ăłculos especificamente projetados para que ourives possam trabalhar em joias. “Uso para trabalhar pequenos detalhes da minha gravura. Sem eles, eu apenas trabalharia contato. Com esse auxĂ­lio Ăłptico, consigo ter um resultado e tambĂ©m uma compreensĂŁo do que estou gravando ali de forma minuciosa”. 


Curitiba (PR), 30/08/2025 - Obra do artista plĂĄstico Daniel Freitas. Foto: Paula LaboissiĂšre/AgĂȘncia Brasil

Artista plĂĄstico Daniel Freitas expĂ”e seu trabalho com xilogravuras no 69Âș Congresso Brasileiro de Oftalmologia, em Curitiba – Foto Paula LaboissiĂšre/AgĂȘncia Brasil

Congresso de Oftalmologia 

“Em um lugar repleto de mĂ©dicos, que estĂŁo lidando sempre com diagnĂłsticos muito fechados, muitas vezes, nĂŁo se tem a compreensĂŁo da potĂȘncia de uma pessoa com deficiĂȘncia visual. O que ela pode, de fato, atingir ou alcançar dentro de um fazer artĂ­stico que Ă© extremamente visual, como o meu trabalho”, destacou Daniel. 

“Entendo que a minha forma de me expressar pode, de alguma forma, sensibilizar tambĂ©m os mĂ©dicos em relação a como eles dĂŁo esses diagnĂłsticos, o encaminhamento aos centros de reabilitação, que sĂŁo pouco conhecidos no Brasil – e os poucos que temos fecham por se acreditar que nĂŁo hĂĄ demanda”, concluiu. 

 

*A repĂłrter viajou a convite do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).

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