BolĂ­via: direita lidera pesquisas para presidĂȘncia apĂłs 19 anos

Bolivianos vĂŁo Ă s urnas dia 17 de agosto eleger presidente e congresso

Por AgĂȘncia Brasil 04/08/2025 Ă s 13:19

Com o ex-presidente Evo Morales pregando o voto nulo, a BolĂ­via chega Ă s eleiçÔes gerais do dia 17 de agosto com a esquerda dividida e a direita liderando as pesquisas de intenção de voto.BolĂ­via: direita lidera pesquisas para presidĂȘncia apĂłs 19 anosBolĂ­via: direita lidera pesquisas para presidĂȘncia apĂłs 19 anos

O mega empresårio Samuel Medina aparece como favorito e o ex-líder cocaleiro e presidente do Senado, Andrónico Rodriguez, ex-aliado de Evo, não tem alcançado os dois dígitos nas pesquisas. 

Além de presidente e vice, o país elege 130 deputados e 36 senadores. Com cerca de 12 milhÔes de pessoas, a nação andina faz fronteira com Acre, RondÎnia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

BolĂ­via: direita lidera pesquisas para presidĂȘncia apĂłs 19 anos

Presidente do Senado boliviano e ex-aliado de Morales, AndrĂłnico Rodriguez – REUTERS/Claudia Morales/Proibida Reprodução

O racha no Movimento ao Socialismo (MAS) – partido que lidera o país desde 2006 – pode consolidar o fim do ciclo de governos de esquerda no país sul-americano que já dura 19 anos.

A exceção foi o governo da Jeanine Áñez, que assumiu a presidĂȘncia de 2019 a 2020 depois de golpe militar que levou Ă  renĂșncia de Evo, apĂłs acusaçÔes de fraude eleitoral.

Em novembro de 2020, o MAS voltou ao poder pelas urnas ao eleger, com 55% dos votos, o candidato Luis Arce, ex-ministro da Economia de Evo.

Ao voltar do exílio, no entanto, Morales racha com Arce e uma parte do MAS, fiel a ele, se transforma em oposição ao governo.

BolĂ­via: direita lidera pesquisas para presidĂȘncia apĂłs 19 anos

EmpresĂĄrio Samuel Doria Medina aparece como favorito em pesquisas de intenção de voto – Reuters/Ipa Ibanez/Proibida reprodução

Impedido de se candidatar pela Justiça eleitoral por jĂĄ ter governado o paĂ­s por trĂȘs mandatos, Evo Morales passou a defender o voto nulo e atacar antigos aliados, denunciando que sofre perseguição polĂ­tica enquanto responde por acusação de estupro de uma menor de idade, o que ele nega.

Em junho deste ano, bloqueios de rodovias a favor da candidatura de Evo paralisaram parte do país por 15 dias com um saldo de, pelo menos, quatro mortos.

Esquerda rachada

Em meio aos embates com Evo e diante da baixa avaliação do seu governo influenciada, entre outros motivos, por uma crise econÎmica persistente, o presidente Luiz Arce desistiu de concorrer à reeleição.

No lugar, Arce indicou pelo MAS seu ex-ministro Eduardo De Castillo, que amarga cerca de 2% em pesquisas de intençÔes de votos. A escolha de Arce também foi questionada por movimentos de base do partido.

O ex-aliado de Evo e atual presidente do Senado, AndrĂłnico RodrĂ­guez, apontado como possĂ­vel alternativa Ă  esquerda para presidĂȘncia boliviana, vem derretendo nas pesquisas nas Ășltimas semanas.

Ele caiu de um terceiro colocado com cerca de 14% das intençÔes de votos para cerca de 6%, segundo pesquisa da Unitel.

Ex-líder cocaleiro da mesma região de Evo Morales, Andrónico deixou o MAS para se candidatar, aderindo ao partido Alianza Popular. Desde que anunciou a candidatura, Andrónico vem sendo atacado por Evo como “traidor”.

Outra figura da esquerda que entrou na disputa foi a Eva Copa, que era do MAS, mas deixou a legenda e criou, neste ano, o partido Morena para poder se candidatar. Ela era presidente do Senado pelo MAS durante o governo da direitista Áñez. Atualmente, é prefeita da importante cidade El Alto.

PorĂ©m, no final de julho, Eva desistiu da campanha alegando que o partido ainda nĂŁo estava maduro nacionalmente para disputar a presidĂȘncia.

O professor de sociologia da Universidade Federal do CearĂĄ (UFC), Clayton Mendonça Cunha Filho, disse Ă  AgĂȘncia Brasil que a insistĂȘncia de Evo em se colocar como Ășnico candidato possĂ­vel do MAS acabou implodindo o partido que, de 2009 a 2019, contou com maioria qualificada de dois terços no Parlamento.

“Na ambição de ser o candidato eterno, Evo Morales implodiu o partido. O MAS Ă© uma legenda que, basicamente, Ă© um grande agrupamento de muitas tendĂȘncias, de grupos marxistas, sindicatos, indigenistas e tudo o mais. É muito heterogĂȘneo. O que aconteceu Ă© que o Evo Morales implodiu essa frente ampla”, destacou.

Ainda segundo o especialista, como o sistema eleitoral da BolĂ­via Ă© de lista fechada proporcional atrelada ao voto do candidato Ă  presidĂȘncia, o MAS corre o risco de virar minoritĂĄrio no parlamento, a nĂŁo ser que candidatos locais fortes consigam evitar uma perda maior.

“O maior e, em muitos sentidos, Ășnico partido com laços sociais efetivos e verdadeiramente nacional da BolĂ­via nas Ășltimas duas dĂ©cadas, corre o sĂ©rio risco de literalmente desaparecer caso nĂŁo atinja a clĂĄusula de barreira vigente de 3% dos votos nacionais, demolido por disputas internas de liderança e o personalismo exacerbado de Evo Morales”, escreveu Clayton para o ObservatĂłrio PolĂ­tico Sul-Americano.

Direita liderando

Nesse cenĂĄrio de fragmentação da esquerda boliviana, a direita vem liderando as pesquisas de intençÔes de votos com Samuel Medina (Alianza Unidad) e Jorge “Tuto” Quiroga (Alianza Libertad Y Democracia) nos primeiros lugares. Somados, os dois candidatos da direita teriam cerca de 47% dos votos, afirma pesquisa do jornal El Deber, publicada nesse domingo (3).

BolĂ­via: direita lidera pesquisas para presidĂȘncia apĂłs 19 anos

direita lidera pesquisas para presidĂȘncia apĂłs 19 anos. Foto: Reprodução/AgĂȘncia Brasil

Para ganhar no primeiro turno, o candidato precisa de 50% dos votos mais um, ou 40% dos votos e uma distùncia de 10 pontos percentuais do segundo candidato. Caso as pesquisas se confirmem, haverå um segundo turno inédito na Bolívia, marcado para 19 de outubro.  

O professor da UFC Clayton Mendonça Cunha Filho explicou que esses dois candidatos são de uma direita tradicional, não chegando a ser uma extrema-direita.

O Samuel Medina, que tem aparecido Ă  frente nas pesquisas, por exemplo, Ă© um mega empresĂĄrio boliviano que jĂĄ foi candidato Ă  presidĂȘncia duas vezes, ficando em segundo lugar no pleito de 2014.

Medina foi ainda ministro de Estado nos anos 1990, responsåvel por uma das primeiras ondas de privatização na Bolívia, tendo começado a carreira política em organizaçÔes de centro-esquerda até caminhar, com o tempo, para centro-direita.

JĂĄ o ‘Tuto’ Quiroga Ă© outro polĂ­tico tradicional da direita boliviana. Ele foi ministro da Fazenda em 1992 e eleito vice-presidente da BolĂ­via em 1997. Em 2005, na primeira eleição que o MAS ganhou, o Tuto Quiroga ficou em 2Âș lugar, perdendo para o Evo.

Quiroga chegou Ă  presidĂȘncia do paĂ­s em 2001-2002 apĂłs a renĂșncia, por problemas de saĂșde, do presidente Hugo Banzer. Em 2019, no governo interino de Áñez, Quiroga foi nomeado porta-voz internacional do paĂ­s.

Estado plurinacional

O movimento polĂ­tico que levou o MAS ao poder faz parte do que alguns pesquisadores chamam de “marĂ© rosa” da AmĂ©rica Latina, que seria uma onda de governos de esquerda ou progressistas que chegaram ao poder no continente ao longo da primeira dĂ©cada dos anos 2000, com Hugo ChĂĄvez na Venezuela, Lula no Brasil, Evo na BolĂ­via, Nestor Kirchner na Argentina e Rafael Correia no Equador.

Nos casos da Venezuela, Equador e Bolívia, foram promulgadas novas constituiçÔes. Com Evo Morales, a Bolívia aprovou em 2009 um novo modelo constitucional baseado na plurinacionalidade das diversas etnias indígenas que compÔem o povo boliviano.

Para o professor Cunha Filho, essa nova institucionalidade deve passar por um teste crĂ­tico com a chegada de um governo de direita.

Porém, como o cenårio é de fragmentação política, o especialista avalia que o novo governo não deve ser capaz de alterar a institucionalidade da Constituição de 2009, jå que deve precisar compor com outras forças políticas para governar.

“Vai ser a primeira vez que um presidente eleito sob esse novo modelo do Estado Plurinacional nĂŁo vai ter participado da construção desse Estado. O que Ă© que vĂŁo tentar modificar desse arranjo institucional? Sendo otimista, pode ser uma consolidação desse modelo. VocĂȘ deixa de identificar esse formato de Estado com um projeto de governo, como muita gente Ă s vezes trata, como se fosse um modelo sĂł do MAS”, comentou Ă  AgĂȘncia Brasil.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensĂŁo de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteĂșdo de qualidade gratuitamente.