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Como os Dados e a Inteligência Artificial podem influenciar as eleições na prática

Por Teddy Falcão, ContilNet

Esse não é um artigo de opinião. Não faz parte de um ensaio que se proponha defender quaisquer bandeiras. Trata-se de um estudo à luz das Ciências de Dados e a partir disso, uma análise aprofundada do que há de Inteligência Artificial aplicada ao campo das disputas eleitorais no Brasil, e no mundo. Importante por também que o estudo mostra perspectivas de uma aplicação prática nas mais diversas disputas que vão de municipais, estaduais a federais. As eleições sempre foram o palco privilegiado das disputas pela narrativa. A cada ciclo, partidos, candidatos e eleitores se encontram em um jogo de expectativas, emoções, estratégias e interesses.

Como os Dados e a Inteligência Artificial podem influenciar as eleições na prática. Foto: Reprodução

Durante muito tempo, a força do discurso e a capacidade de mobilização presencial eram os elementos centrais que definiam o rumo da política. Porém, nas últimas décadas, sobretudo com a ascensão da era digital, esse cenário se transformou profundamente. O que antes se dava nas ruas e nas praças agora também acontece nas redes sociais, nos algoritmos de recomendação e nos bancos de dados que registram, de maneira incessante, cada clique, cada curtida e cada palavra publicada. É nesse ambiente de excesso de informação que os dados e a inteligência artificial se tornaram não apenas ferramentas auxiliares, mas verdadeiros protagonistas na forma como as eleições são conduzidas.

O dado, em si, é um fragmento aparentemente neutro da realidade: um número, uma categoria, uma variável isolada. Mas quando esses fragmentos são coletados em grande escala, organizados e interpretados, tornam-se a matéria-prima de um novo poder político. Saber o que pensa um bairro inteiro, compreender quais são as maiores demandas de um segmento etário específico ou identificar os temas que mais mobilizam determinado grupo social é, hoje, uma vantagem estratégica incomparável. A política, que historicamente se baseava em intuição, pesquisa qualitativa e campanhas de massa, entra em uma fase em que a precisão da análise pode ser decisiva. A ciência de dados permite cruzar informações que antes pareciam desconectadas e, com isso, revelar padrões sutis, mas altamente reveladores, do comportamento eleitoral.

A inteligência artificial, por sua vez, leva esse processo a outro patamar. Se os dados são o combustível, a IA é o motor que transforma essa energia em movimento. Os algoritmos de aprendizado de máquina não apenas descrevem o que aconteceu, mas buscam prever o que pode acontecer. Eles simulam cenários, testam hipóteses, antecipam crises e sugerem caminhos de ação. Um candidato que compreende a lógica desses sistemas não fala mais para uma multidão genérica; ele fala para diferentes públicos ao mesmo tempo, adaptando seu discurso às especificidades de cada um. Essa é a lógica do microtargeting, em que a mensagem política se torna tão fragmentada quanto os próprios dados que a sustentam. O jovem estudante urbano recebe uma mensagem sobre inovação e futuro; o agricultor, sobre subsídios e apoio ao campo; a mãe de família, sobre saúde e educação infantil. O que se ganha em precisão pode, contudo, ser também o que se perde em universalidade, já que a política corre o risco de se tornar um conjunto de discursos paralelos, sem um projeto coletivo que os unifique.

A análise de sentimentos é outro campo em que a IA exerce um papel determinante. Se em eleições passadas os institutos de pesquisa precisavam de dias ou semanas para captar mudanças de humor do eleitorado, hoje é possível monitorar em tempo real as emoções coletivas que circulam nas redes. Um discurso mal interpretado, uma gafe em debate, uma denúncia de corrupção ou mesmo uma onda de memes podem alterar a percepção pública em questão de horas. E são as ferramentas de inteligência artificial que permitem não apenas registrar esses movimentos, mas também os traduzir em estratégias de resposta imediata. O jogo político, portanto, se acelera:candidatos e partidos precisam estar preparados para reagir quase instantaneamente, sob pena de verem narrativas se consolidarem contra si.

Mas se a tecnologia abre horizontes promissores, também coloca desafios éticos e riscos de manipulação que não podem ser ignorados. O uso de dados em larga escala levanta questões sobre privacidade e consentimento: até que ponto o eleitor sabe que suas informações estão sendo utilizadas para direcionar propaganda política? A personalização das mensagens, embora eficaz, pode reforçar bolhas de informação e contribuir para a fragmentação do debate público. E, talvez o risco mais inquietante, a proliferação de conteúdos falsos potencializados por IA generativa e deepfakes ameaça a confiança social na própria noção de verdade. Em um contexto em que vídeos e áudios podem ser fabricados com alto grau de realismo, como distinguir o que é autêntico do que é manipulação? A integridade do processo democrático depende, cada vez mais, da capacidade de construir mecanismos de verificação e de regulação que acompanhem o ritmo da inovação tecnológica.

O futuro das eleições, portanto, não será apenas decidido nas urnas, mas também nos centros de processamento de dados, nos algoritmos que leem nossas interações digitais e nas plataformas que distribuem conteúdos de maneira quase invisível. Isso não significa, porém, que a política tenha se tornado um cálculo frio. Ao contrário: a IA mostra que a política continua sendo movida por emoções, mas agora essas emoções podem ser medidas, categorizadas e direcionadas. É a união entre o que há de mais humano: o medo, a esperança, a indignação, o desejo de mudança. E o que há de mais tecnológico: modelos preditivos, redes neurais e inteligência artificial. A democracia, nesse sentido, vive um paradoxo: nunca esteve tão exposta às forças da manipulação, mas também nunca teve tantas ferramentas para compreender a si mesma. Se o dado é poder, cabe às sociedades democráticas decidir como esse poder será utilizado. O desafio está em encontrar um equilíbrio que permita campanhas mais eficientes, uma leitura mais precisa da sociedade e uma maior participação cidadã, sem que isso se traduza em manipulação ou exclusão. É urgente pensar em regulações claras, em auditorias de algoritmos e em educação digital que capacite os eleitores a resistirem às armadilhas da desinformação. Pois se as eleições são, em essência, o momento em que a soberania popular se manifesta, é fundamental garantir que a tecnologia sirva como instrumento de fortalecimento da democracia, e não como mecanismo de distorção da vontade coletiva.

Em última instância, a presença da inteligência artificial nas eleições nos obriga a repensar não apenas a prática política, mas a própria ideia de democracia. Ela nos convida a refletir se estamos preparados para viver em uma sociedade em que a informação não é apenas transmitida, mas moldada por máquinas; em que as narrativas não surgem apenas de líderes, mas de algoritmos invisíveis que organizam o mundo à sua maneira. Nesse horizonte, a pergunta que se coloca é menos sobre a capacidade da IA de influenciar eleições, pois isso já acontece na prática, e mais sobre o quanto estamos dispostos a deixar que essa influência se dê sem mediações críticas. O futuro da política dependerá, cada vez mais, da nossa habilidade de transformar a potência dos dados e da inteligência artificial em ferramentas de emancipação, e não em novas formas de dominação.

Cientista de Dados, Francisco Teddy Falcão

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