Entre o anĂșncio e a efetivação: os recuos de Trump na guerra tarifĂĄria

Por MetrĂłpoles 04/08/2025 Ă s 02:00

Liderada por Donald Trump, a guerra tarifĂĄria entrou em uma nova fase, na Ășltima semana, apĂłs o anĂșncio de novas tarifas, seguido pelo adiamento da entrada em vigor. O presidente norte-americano determinou que as novas tarifas comecem a valer na primeira semana de agosto, com percentuais reajustados para diversos paĂ­ses. Em meio a negociaçÔes e pressĂ”es, alguns governos conseguiram aliviar as sançÔes, enquanto outros viram a situação piorar. O Brasil lidera a lista dos mais afetados, com uma tarifa de 50%.

Apesar da retĂłrica agressiva, os recuos frequentes entre o anĂșncio e a efetivação das medidas de Trump ficaram escancarados. A demora na aplicação prĂĄtica das tarifas ficou marcada por mudanças de Ășltima hora, concessĂ”es pontuais ou acordos bilaterais emergenciais.

“Tarifa Ă© uma das minhas palavras favoritas”, disse Trump em uma coletiva de imprensa.

Mas atĂ© onde vai a retĂłrica do republicano quando se trata de realmente colocar em prĂĄtica sua “palavra preferida”? Desde o dia 2 de abril, quando Trump anunciou a rodada de tarifas, os nĂșmeros nĂŁo pararam de oscilar.

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Brasil na mira, e sem acordo

O Brasil Ă©, atĂ© agora, o lĂ­der desta nova rodada tarifĂĄria. No dia 9 de julho, Trump enviou uma carta ao presidente Luiz InĂĄcio Lula da Silva (PT) justificando a medida com alegaçÔes comerciais e polĂ­ticas. Em 30 de julho Trump assinou o decreto formalizando a taxa, com prazo de sete dias para vigĂȘncia.

A exceção ficou para produtos considerados essenciais, como suco de laranja, aviÔes e petróleo, que foram poupados após forte lobby do setor privado dos EUA.

Ao MetrĂłpoles, o especialista em tributação internacional Angelo Paschoini explica que a defasagem entre o anĂșncio e a efetivação tem fundamentos tĂ©cnicos, mas tambĂ©m Ă© usada como instrumento de barganha. “Anunciar uma tarifa Ă© diferente de aplicĂĄ-la. HĂĄ trĂąmites, decretos, comunicação oficial. Isso abre espaço para negociaçÔes”, diz ele.

Segundo Paschoini, enquanto outros países correram para selar acordos com Washington antes da entrada em vigor das tarifas — como Japão, Coreia do Sul, China e Vietnã —, o Brasil não obteve sucesso nas tratativas.

Entre o anĂșncio e a efetivação: os recuos de Trump na guerra tarifĂĄria5 imagensPresidente dos EUA, Donald TrumpPresidente dos EUA, Donald TrumpDonald Trump determinou sançÔes por processos contra BolsonaroDonald Trump, presidente dos Estados UnidosFechar modal.Entre o anĂșncio e a efetivação: os recuos de Trump na guerra tarifĂĄriaEntre o anĂșncio e a efetivação: os recuos de Trump na guerra tarifĂĄria1 de 5

O presidente dos EUA, Donald Trump

Anna Moneymaker/Getty ImagesEntre o anĂșncio e a efetivação: os recuos de Trump na guerra tarifĂĄria2 de 5

Presidente dos EUA, Donald Trump

Kevin Dietsch/Getty ImagesEntre o anĂșncio e a efetivação: os recuos de Trump na guerra tarifĂĄria3 de 5

Presidente dos EUA, Donald Trump

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Donald Trump determinou sançÔes por processos contra Bolsonaro

Governo dos Estados UnidosEntre o anĂșncio e a efetivação: os recuos de Trump na guerra tarifĂĄria5 de 5

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos

Chip Somodevilla/Getty Images

Acordos para alguns, tarifa cheia para outros

A teoria de que Trump frequentemente recua após ameaças, parece ter se consolidado como parte da estratégia do republicano. Ele acena com o caos para forçar negociaçÔes, e depois cede parcialmente, garantindo ganhos políticos internos.

Nos Ășltimos dias, Trump assinou alguns acordos comerciais reduzindo ou flexibilizando tarifas, e mantendo acesso ao mercado americano. Em contrapartida, os paĂ­ses ofereceram investimentos bilionĂĄrios e promessas de compras estratĂ©gicas.

“A Coreia do Sul darĂĄ aos Estados Unidos US$ 350 bilhĂ”es para investimentos”, disse Trump. “Essas tarifas estĂŁo tornando os EUA grandes e ricos novamente.”

UniĂŁo Europeia e JapĂŁo

O acordo mais simbólico até agora foi firmado com a União Europeia nos minutos finais de julho. Os EUA aplicaram tarifas médias de 15% sobre a maioria dos produtos europeus, um alívio frente aos 30% inicialmente anunciados por Trump.

Em contrapartida, a UE se comprometeu a zerar tarifas para produtos estadunidenses considerados estratégicos. Além da abertura comercial, o bloco europeu deve realizar investimentos diretos nos EUA estimados em US$ 600 bilhÔes, incluindo compras de equipamentos militares.

Com o JapĂŁo, o governo de Trump fechou um acordo semelhante na Ășltima semana. As tarifas aplicadas pelos EUA ficaram em 15%. TĂłquio, por sua vez, abriu o mercado interno para carros, arroz e aviĂ”es americanos.

Entre os compromissos assumidos pelo governo japonĂȘs estĂŁo a compra de aeronaves e o aumento nos gastos com defesa via empresas americanas, que passarĂŁo de US$ 14 bilhĂ”es para US$ 17 bilhĂ”es anuais.

Indonésia, Filipinas e Vietnã

O pacote de acordos inclui também países do sudeste asiåtico. Trump fechou com a Indonésia a aplicação de tarifas de 19%, valor inferior aos 32% inicialmente anunciados. Em contrapartida, Jacarta se comprometeu a eliminar cerca de 99% das barreiras tarifårias para produtos industriais, agrícolas e alimentícios dos norte-americanos.

No caso das Filipinas, Trump seguiu caminho semelhante. O paĂ­s aceitou tarifas de 19% para seus produtos exportados aos EUA, mas ofereceu tarifa zero para a entrada de mercadorias americanas.

Outro parceiro que cedeu Ă s exigĂȘncias americanas foi o VietnĂŁ. O acordo definiu tarifas de exportação de 20% para produtos vietnamitas. O paĂ­s asiĂĄtico aceitou zerar tarifas para uma sĂ©rie de produtos dos EUA.

Grande acordo com Reino Unido 

O primeiro acordo selado pelos EUA na atual guerra tarifĂĄria foi com o Reino Unido, em 8 de maio.

Londres aceitou um aumento de 10% nas tarifas de exportação para os EUA, sem aplicar retaliaçÔes. O país também assumiu compromissos comerciais e de investimentos.

China e Brasil

A China, principal rival dos EUA na guerra tarifária, foi alvo das tarifas mais duras — que chegaram a 145% em maio.

Após meses de retaliaçÔes cruzadas, os dois países fecharam um acordo temporårio: Washington reduziu as tarifas para 30%, e Pequim recuou de 125% para 10%. O período de trégua pode ser prorrogado por até 90 dias, segundo a Casa Branca.

Entre os 23 países atingidos por novas tarifas, o Brasil foi o que sofreu a maior alíquota. As tarifas gerais subiram de 10% para até 50% para rivais e aliados, especialmente em setores como aço, alumínio e automóveis.

Veja a tabela dos paĂ­ses taxados:

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Pano de fundo polĂ­tico

Ao que tudo indica, as tarifas e recuos não se explicam apenas por motivaçÔes econÎmicas. Hå um pano de fundo político, sobretudo na relação com o Brasil.

Paschoini afirma haver indícios de que Trump pressiona por uma anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, e que isso pode estar atrelado à postura inflexível nas negociaçÔes.

“HĂĄ interesses geopolĂ­ticos e pessoais em jogo. Comercialmente, as tarifas sĂŁo um tiro no pĂ©. Nenhum paĂ­s sai ganhando.”

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