Roberto Jefferson [o delator do mensalão do PT] está na “ária”. E se cair na área é um pênalti. Goza os minutos de fama. Não cantarola mais no banheiro. Quer a sala. Dá um tosco espetáculo dessa Tosca mal ensaiada em que se crê o Garganta Profunda da vez neste abismo potencializado pela mídia cada vez mais Caras (e menos coragem).
Intencionalmente Jefferson sabia que os jornalistas estavam no pátio [do prédio onde mora em Brasília] iriam ouvi-lo. Ópera sem coro e drama é fracasso.
Espertamente deixa as luzes acesas para oferecer sua silhueta de tenor aprendiz para dar imagens que o mantenha no jornal das oito. Sabe que está no centro do palco (para os soft-golpistas do colarinho branco) ou do picadeiro (para uma esquerda tonta de tanta incompetência).
Ao mandar decibéis semitonados pela janela do seu “apê” (“hoje é festa lá”, diria o Latino), enquadrado nas esquadrias, percebemos o quanto nossa cobertura de mídia prima pelo show barato e carece de análise menos rala.
Todo mundo quer veicular o lance mais espetacular e se lixa para os bastidores e detalhes dramáticos dessa liturgia do caos. Talvez, quando tudo sair do controle e a desesperança virar desespero em ruas iradas por pedras, fogo e desordem, a galera descubra que não tem retorno: acenderam um fósforo para testar o vazamento de gás. Aí é “bum” para todos. Sem árias amadoras, gargantas caricatas, “politburros” arrogantes e áreas de alto risco irremediavelmente contaminadas.
Se perdermos a sensatez, agora, será tarde demais para pedir desculpas e dizer ao “respeitável público” que “foi mal”, “erramos na dose”, “e não era bem assim”. Não só o palco, como o teatro, o cantor, a orquestra, a quadra, o país inteiro foram pelos ares sob a conivência e a omissão de quem ainda deveria manter alguma lucidez e para chamar o país ao eixo da reflexão.
Que não percamos nunca a democracia. Até o direito que os idiotas têm de caluniar, atacar com ofensas pessoais, distorcerem e mentirem: quando são idiotas anônimos descarregando a bílis em blogs ainda vai – é coisa de recalcado, bobinho desinformado, adolescente com a mesada atrasada ou desocupado verbal. O grave é quando tudo isto vai para redações e ocupa um plenário com mais disse-me-disse que fatos.
(Publicado aqui em 9 de agosto de 2005)

