Indígenas monitoram isolados Mascho Piro no Acre e identificam mudanças inéditas de hábitos

Em expedições lideradas pelo povo Manchineri na Terra Indígena Mamoadate, no Acre, monitoramento revela mudanças nos hábitos dos Mascho Piro, como o uso de facões e alteração nas rotas de deslocamento

Os indígenas isolados voluntariamente, conhecidos como Mascho Piro, habitantes da Terra Indígena Mamoadate, entre outras áreas no Acre e Peru, continuam sendo monitorados por um grupo formado pelo povo Manchineri na Aldeia Extrema, localizada no município de Assis Brasil.

Os Manchineri aprofundam o conhecimento sobre os costumes dos Mascho Piro, considerados nômades/Foto: Lucas Manchineri

A iniciativa, liderada pelos próprios indígenas com apoio de órgãos públicos, ocorre pelo menos três vezes ao ano.

A cada expedição, os Manchineri aprofundam o conhecimento sobre os costumes dos Mascho Piro, considerados nômades, e já identificaram algumas transformações nos hábitos do grupo. Mudanças foram observadas na época do ano em que se aproximam da Mamoadate, na forma como constroem os tradicionais tapiris, e até no uso de ferramentas como facões.

No último dia 26, uma nova equipe partiu para realizar o segundo monitoramento do ano nas proximidades da terra indígena.

Equipe partiu para realizar o segundo monitoramento do ano nas proximidades da terra indígena/Foto: Lucas Manchineri

Lucas Manchineri, presidente da Manxinerune Ptohi Phunputuru Poktshi Hajene, associação que representa o povo Manchineri, explica que ao longo do ano são realizadas três expedições de monitoramento. A primeira ocorre em janeiro, a segunda começou em julho e a próxima está prevista para dezembro.

“A gente sempre trabalhou na proteção dos nossos parentes desconfiados [termo ao qual se referem ao falar dos isolados]. A gente sempre via os vestígios, os tapiris deles, e aí nós continuamos fazer o trabalho de proteção”, explica.

Mudando hábitos

Entre os dias 25 a 30 de janeiro, no primeiro encontro de monitoramento, eles relataram que constaram um acampamento dos isolados a 60 metros de um dos pontos de parada, acima do igarapé onde estavam.

Acampamento dos isolados a 60 metros de um dos pontos de parada foi registrado/Foto: Lucas Manchineri

“Fomos até o local e vimos o tapiri feito de palha de ouricuri, monte de lenha bem arrumado, quebraram as palha de ouricuri com as não e cortaram com terçado. Identificamos que os parente desconfiado já utiliza terçado e não faz tapiri na praia, mas hoje eles fazem o tapiri na margem do rio onde tem barranco e sabemos essa ruma de lenha a significa que eles vão volta pelo mesmo trajeto e fizeram pouco fogo”, destaca o relato do grupo.

O presidente da associação ressalta que, por se tratar de um trabalho desenvolvido há muitos anos pelos próprios indígenas, posteriormente fortalecido pela Comissão Pró-Indígena do Acre (CPI-AC), pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e pelo Observatório dos Povos Indígenas Isolados (OPI), já é possível observar algumas mudanças significativas.

“Desde que começamos o monitoramento até agora mudou o calendário de rota deles. A gente via só em julho, agosto, setembro, os tapiris, mas agora em fevereiro, março e abril a gente já vê que já mudou a rota deles”, destacou.

A proteção aos povos indígenas isolados foi considerada de forma cuidadosa na elaboração do Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) das Terras Indígenas. O plano identifica áreas com possível presença desses grupos, estabelecendo diretrizes para que os Manchineri respeitem esses espaços durante o uso e manejo do território.

Mudanças significativas foram registradas/Foto: Lucas Manchineri

“Sempre trabalhamos na coletividade, com todo mundo envolvido e decidimos fazer em cada ano três monitoramentos para fazer a vistoria, marcar pontos, qualificar informações reais e atualizar o site para abastecer também nossos parceiros. Isso é um trabalho nosso, um protagonismo indígena. Em 2014, a gente fez também o nosso PGTA e dividimos a área para o uso deles e onde não podemos andar, a gente deixou para eles e isso já é resultado dessa pesquisa que fazemos”, esclarece.

Funai acompanha

A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) informou que acompanha regularmente as expedições de monitoramento na Terra Indígena (TI) Mamoadate por meio da atuação da Coordenação da Frente de Proteção Etnoambiental Envira, como parte da estratégia de proteção territorial voltada à salvaguarda de povos indígenas isolados.

Como reforço a essa presença institucional e ao compromisso com a integridade física e cultural desses povos, a Funai instalou, em 2021, uma Unidade Etnoambiental Extrema permanente no interior da TI Mamoadate, consolidando uma base de apoio fundamental para ações de vigilância, controle de acesso e monitoramento ambiental na região.

“Os trabalhos dessa frente têm como objetivo proteger os territórios tradicionais ocupados pelos povos indígenas isolados e garantir que suas formas próprias de organização sejam respeitadas. Assim sendo, dada a decisão de não querer estabelecer contato com pessoas de fora, a política de relacionamento da Funai com esses povos é a do não contato. No caso específico da TI Mamoadate, os povos isolados que a frequentam são conhecidos como Maschos e sazonalmente se deslocam em partes da TI com objetivo de desenvolver suas práticas socioculturais, porém não há uma estimativa de quantos deles povoam a região”, frisa a nota.

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