“Eu não sou bandido” e “eu vou morrer?”: essas são as frases que Samuel Costa dos Santos, de apenas sete anos, disse aos pais após ser atingido por uma bala perdida dentro do colégio, em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio, nesta sexta-feira. O menino estava em uma área externa da escola municipal Professora Marisa Vargas Menezes durante a aula de educação física com os colegas quando foi atingido.
Segundo a Secretaria Municipal de Educação, o professor disse que ninguém ouviu barulhos de tiro e que ele escutou apenas um som agudo, como se fosse um estalinho no chão. Foi quando o menino abaixou a roupa e disse que as pernas estavam queimando. A bala atingiu as nádegas dele e atravessou o corpo, saindo pela virilha.
A mãe, Paula Jordânia, conta que os professores não entenderam inicialmente que ele tinha sido atingido.
“O que ele falou para mim é que estava brincando com os coleguinhas e, do nada, ele sentiu uma dor forte na barriga, queimando as pernas dele e ele abaixou a roupa. O professor só escutou o barulho batendo no chão e depois atingiu ele. Aí ele falou: “Professor, está sangrando”. Ai o professor: “vamos lá no banheiro”. Aí quando o professor levou ele no banheiro, mandou ele abaixar as calças. Aí a escola me ligou perguntando se ele tinha hérnia. Falei que meu filho não tinha nada disso. Aí depois retornaram mandando entrar em contato com a minha mãe, avó dele. Ai liguei para a minha mãe e minha mãe ligou para o pai dele. Chegando lá, o professor falou para o pai: “você já sabe o que é, né?”, afirmou.
Samuel foi levado pelo pai até a unidade de saúde mais próxima e depois transferido para o Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, também na Zona Oeste, onde passou por exames. Assustado, ele repetia para os pais que não era bandido e perguntava se ia morrer.
“Chorando, desesperado, falando que ele não era bandido por ele ter levado um tiro. Eu falei: “Filho, não é que você não é bandido, Foi bala perdida”. “Mãe, eu vou morrer?”. Eu falei: “Não, filho, você não vai morrer. Está tudo certo com você. Ele ficava repetindo essa frase, muito assustado. Estava pálido, chorando de dor”, lembrou.
A criança não precisou passar por cirurgia e recebeu já alta. Agora, precisará enfrentar um mês de recuperação em repouso. A mãe contou que a Clínica da Família indicou atendimento psicológico para o filho, mas disse que será difícil levá-lo na atual condição de saúde dele.
Moradores da Gardênia Azul relataram que houve tiroteio na comunidade, que dá para os fundos da escola, nesta sexta-feira, mas funcionários e alunos disseram não ter ouvido o som de tiros. A Polícia Militar disse que não havia operação na região.
A Zona Oeste tem sido palco de confrontos entre milicianos e traficantes do Comando Vermelho, que tentam tomar o controle do território. Nesta quarta-feira, seis homens morreram e doze suspeitos foram presos em uma operação integrada das polícias Civil e Militar nas comunidades Cidade de Deus e Gardênia Azul.
Em nota, a prefeitura lamentou que episódios de violência como este impactem as escolas, que deveriam ser locais de paz e aprendizagem.
A Polícia Civil informou que o caso foi registrado na 16ª DP (Barra da Tijuca) e será encaminhado à 32ª DP (Taquara). Diligências estão em andamento para identificar a autoria e apurar as circunstâncias do fato.

