Maior predador do RS: força-tarefa foi montada para ouvir vítimas

Por MetrĂłpoles 31/08/2025 Ă s 02:36

Desde que Ramiro Gonzaga Barros (foto em destaque), de 36 anos, considerado o maior predador sexual do Rio Grande do Sul (RS), foi preso, em janeiro deste ano, o nĂșmero de vĂ­timas violentadas nĂŁo para de subir. Segundo Valeriano Garcia Neto, delegado Ă  frente das investigaçÔes, jĂĄ estĂĄ comprovado que ele vitimou ao menos 217 mulheres.

O nĂșmero extenso de vĂ­timas e a amplitude do caso fizeram com que urgisse a necessidade de montar uma força-tarefa para realizar as oitivas. Em entrevista Ă  coluna, a escrivĂŁ de polĂ­cia Iane Colpo, que participou da linha de frente das investigaçÔes, detalhou a angĂșstia de estar cara a cara com as vĂ­timas —  em sua maioria adolescentes e crianças.

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Segundo ela, a complexidade foi constatada antes mesmo do inĂ­cio dos depoimentos, uma vez que foi verificado que muitos dos responsĂĄveis pelas vĂ­timas nĂŁo faziam ideia de que elas haviam sido acessadas pelo predador sexual.

Como as vĂ­timas foram identificadas?

Iane explica que, ao ser preso, Ramiro tambĂ©m foi alvo de mandado de busca e apreensĂŁo e teve seus equipamentos eletrĂŽnicos recolhidos. “Depois que ocorreu a prisĂŁo desse indivĂ­duo, a gente passou a fazer a anĂĄlise pericial no sentido de identificar as vĂ­timas encontradas por meio das imagens.”

De acordo com a escrivã, o modus operandi do predador sexual facilitou os trabalhos da polícia. Ramiro mantinha em seu computador pastas organizadas com o nome de cada vítima. “Apesar disso, nem todas tinham o nome completo, então a gente se debruçou nesse trabalho de identificação e, a partir disso, as vítimas foram sendo chamadas para a delegacia”, detalha.

A investigação, que inicialmente parecia apenas mais uma, tomou proporçÔes inesperadas. Foram encontradas mais de 750 pastas nos eletrÎnicos de Ramiro.

Diante do nĂșmero alarmante, uma força-tarefa teve de ser montada para acolher e ouvir as vĂ­timas.

Uma equipe de mulheres

“É importante ressaltar que todas as vĂ­timas ou os responsĂĄveis, sĂŁo ouvidos por policiais mulheres. Inicialmente, apenas eu estava fazendo esse trabalho, e depois, devido Ă  demanda e o nĂșmero de vĂ­timas identificadas, foi montada uma força-tarefa”, detalha.

A delegacia de Taquara, município do RS onde o predador vivia, recebeu reforço. Dezenas de policiais mulheres foram acionadas para ir até a unidade policial, com o intuito de ter contato direto com as vítimas e familiares.

“No caso das vĂ­timas maiores de idade, a gente fazia contato direto com elas e tĂ­nhamos uma conversa franca. Quando eram menores, a gente tinha que falar com os pais e, muitas vezes, o contato era uma surpresa para eles, que sequer sabiam da violĂȘncia”, detalha.

A escrivĂŁ explica que a escolha por policiais mulheres partiu do princĂ­pio de que se tratava de crimes Ă­ntimos, em que elas jĂĄ haviam sofrido violĂȘncia, e nĂŁo podiam ter suas intimidades expostas outras vez.

“É um conteĂșdo sensĂ­vel e, para nĂŁo expor nem revitimizĂĄ-las, tivemos essa grande preocupação, porque trata-se de um assunto muito complicado e que acaba invadindo a intimidade e a privacidade, sim.”

O trabalho tornou-se ainda mais denso porque a delegacia optou por criar um inquĂ©rito policial para cada uma das vĂ­timas. “Cada uma representa um inquĂ©rito que estĂĄ sendo feito e remetido ao JudiciĂĄrio. É um trabalho complexo”, explica Iane.

Com a colaboração das policiais, as vĂ­timas e os responsĂĄveis foram ouvidos pouco a pouco. A escrivĂŁ ressalta que quem esteve em contato direto com as mulheres percebe as marcas eternas que as violĂȘncias causaram.

“SĂŁo danos irreversĂ­veis para a vida delas. É muito difĂ­cil ver, em cada oitiva que a gente faz, o sofrimento que isso causou na vida de cada uma, tanto para a vĂ­tima, quanto para os familiares. Esse Ă© um dos casos mais difĂ­ceis em que eu trabalhei, com toda certeza.”

Busca ativa

Ao acessar as pastas do predador sexual e descobrir a existĂȘncia de mais de 700 possĂ­veis vĂ­timas, o MinistĂ©rio PĂșblico do RS (MPRS) O MinistĂ©rio PĂșblico do Rio Grande do Sul (MPRS) implementou uma busca ativa para acolher e prestar apoio psicolĂłgico Ă s vĂ­timas jĂĄ identificadas.

As crianças e adolescentes, assim como seus responsĂĄveis, passaram a ser procurados pelo projeto das Centrais de Atendimento Ă s VĂ­timas e Familiares de VĂ­timas de Crimes e Atos Infracionais do MinistĂ©rio PĂșblico gaĂșcho, que oferece espaços de acolhimento e apoio psicolĂłgico em Promotorias de Justiça de sete municĂ­pios. O atendimento ocorre Ă  medida que os expedientes forem encaminhados ao MPRS.

“Esse trabalho Ă© essencial porque ressignifica o papel das vĂ­timas no processo penal, assegurando que seus direitos sejam plenamente respeitados e que elas possam participar ativamente da busca por justiça”, explicou, Ă  Ă©poca,  a coordenadora do Centro de Apoio Operacional Criminal e de Acolhimento Ă s VĂ­timas, Alessandra Moura Bastian da Cunha.

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