O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quarta-feira (20/08) sançÔes contra dois juĂzes e dois promotores do Tribunal Penal Internacional (TPI), ampliando a pressĂŁo sobre a corte em reação a mandados contra lĂderes israelenses e a uma investigação anterior envolvendo autoridades americanas.
Em comunicado, o secretĂĄrio de Estado dos EUA, Marco Rubio, classificou o tribunal como âuma ameaça Ă segurança nacional que tem servido de instrumento de guerra jurĂdicaâ contra os Estados Unidos e Israel.
Leia também
-
SecretĂĄrio que teve visto revogado critica sanção dos EUA: âInjustaâ
-
Motta responde à ameaça de sanção dos EUA
-
Advogado de Trump: âLiberdade de expressĂŁo justifica sanção a Moraesâ
-
Após sanção dos EUA, Lula e Janja recebem ministros do STF no Alvorada
A medida provocou crĂticas da França e das NaçÔes Unidas. Paris instou Washington a retirar as sançÔes, enquanto o TPI deplorou as designaçÔes, rotulando-as de âum ataque flagranteâ contra a independĂȘncia de uma instituição judicial imparcial.
Esta Ă© a segunda rodada de sançÔes contra o TPI e ocorre trĂȘs meses apĂłs a Casa Branca ter imposto restriçÔes a quatro juĂzes do tribunal. A escalada pode dificultar o funcionamento do tribunal e da promotoria em grandes casos, incluindo alegaçÔes de crimes de guerra contra a RĂșssia pela invasĂŁo da UcrĂąnia.
Quem sĂŁo os sancionados?
Foram sancionados Nicolas Yann Guillou, da França; Nazhat Shameem Khan, de Fiji; Mame Mandiaye Niang, do Senegal; e Kimberly Prost, do Canadå, segundo os Departamentos do Tesouro e de Estado dos EUA.
As designaçÔes congelam quaisquer ativos que os indivĂduos possam ter nos Estados Unidos e, na prĂĄtica, os excluem do sistema financeiro americano, em um modelo de penalidade similar ao imposto ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.
Todos os funcionĂĄrios estiveram envolvidos em casos relacionados a Israel e aos Estados Unidos.
O juĂz Guillou presidiu o painel que emitiu um mandado de prisĂŁo contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant e o lĂder do Hamas, Mohammed Deif, morto em um ataque isralense, por supostos crimes de guerra e crimes contra a humanidade durante o conflito em Gaza.
JĂĄ a juĂza canadense Kimberly Prost atuou na cĂąmara de apelaçÔes do TPI que, em março de 2020, autorizou a promotoria a investigar supostos crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos no AfeganistĂŁo desde 2003, incluindo a apuração do papel de militares americanos.
Khan e Niang sĂŁo vice-procuradores do tribunal
âOs Estados Unidos tĂȘm sido claros e firmes em nossa oposição Ă politização do TPI, ao abuso de poder, ao desrespeito Ă nossa soberania nacional e Ă extrapolação judicial ilegĂtimaâ, disse Rubio.
âExorto os paĂses que ainda apoiam o TPI, muitos dos quais tiveram sua liberdade conquistada com grandes sacrifĂcios americanos, a resistirem Ă s pretensĂ”es dessa instituição falida.â
ONU critica decisĂŁo
Tanto a França quanto as NaçÔes Unidas destacaram que o trabalho dos juĂzes Ă© crucial para a justiça internacional.
âO papel deles Ă© essencial na luta contra a impunidadeâ, afirmou o MinistĂ©rio das RelaçÔes Exteriores francĂȘs em nota.
As sançÔes americanas minam os alicerces da justiça internacional, disse o porta-voz da ONU, Stephane Dujarric. âA decisĂŁo dos EUA impĂ”e sĂ©rios obstĂĄculos ao funcionamento do gabinete da promotoria.â
Em resposta ao apelo de Rubio para que outros paĂses se opusessem ao TPI, o tribunal exortou os Estados membros a permanecerem solidĂĄrios.
âO Tribunal conclama os Estados Partes e todos os que compartilham os valores da humanidade e do Estado de Direito a oferecer apoio firme e consistente ao Tribunal e ao trabalho que realiza no Ășnico interesse das vĂtimas de crimes internacionaisâ, disse em nota.
Jå o gabinete de Netanyahu divulgou nota celebrando as sançÔes dos EUA.
Autoridade do TPI sob pressĂŁo
A oposição do governo Trump ao tribunal remonta ao seu primeiro mandato. Em 2020, Washington jå havia imposto sançÔes à então procuradora Fatou Bensouda e a um de seus principais assessores pelo trabalho do TPI no Afeganistão.
O TPI, criado em 2002, tem jurisdição internacional para julgar genocĂdio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra em Estados membros ou em casos encaminhados pelo Conselho de Segurança da ONU. Contudo, nĂŁo possui força de segurança prĂłpria e depende que os estados cumpram suas determinaçÔes.
A resistĂȘncia contra sua atuação se ampliou a partir de 2022, quando indiciou pela primeira vez um cidadĂŁo nĂŁo-africano.
Embora tenha jurisdição em seus 125 Estados membros, paĂses como EUA, China, RĂșssia e Israel nĂŁo reconhecem sua autoridade.
Atualmente, o tribunal conduz investigaçÔes sobre crimes de guerra nos conflitos Israel-Hamas, Sudão, Mianmar, Filipinas e Venezuela.
Leia mais em DW, parceira do MetrĂłpoles.

