Ministério do Trabalho reconhece profissão de trancista e abre caminho para direitos e valorização

Regulamentação garante dignidade, segurança e valorização cultural do ofício

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) deu um passo histórico ao reconhecer oficialmente a profissão de trancista, que agora passa a ter um código próprio na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO): 5161-65. A medida garante visibilidade, direitos e proteção social a uma atividade que, por séculos, foi transmitida de geração em geração, especialmente entre mulheres negras das periferias brasileiras.

O reconhecimento é fruto de mobilização de lideranças culturais, coletivos de trançadeiras e gestoras públicas comprometidas com a pauta da igualdade racial. Para Anatalina Lourenço, chefe da Assessoria de Participação Social e Diversidade do MTE, a conquista vai além da formalização profissional. “Trançar não é apenas estética. É cuidado, conversa, afeto. É uma roda de cura, um espaço de memória e resistência onde histórias e sonhos se entrelaçam”, destacou.

Reconhecimento da profissão de trancista valoriza tradição afro e amplia inclusão social/Foto: Reprodução

 A regulamentação amplia o acesso das profissionais a direitos trabalhistas, previdência social e políticas de empreendedorismo, fortalecendo também a valorização dos saberes ancestrais. Hoje, muitas trancistas encontram na prática uma forma de sustento e autoestima, mas ainda enfrentavam insegurança jurídica por não terem sua atividade reconhecida.

O simbolismo da decisão dialoga com a história: durante a escravidão, tranças chegaram a ser usadas como mapas de rotas de fuga para quilombos, evidenciando a sofisticação cultural desse saber. Ao mesmo tempo, o reconhecimento cria novas perspectivas de futuro, com capacitações e projetos de formação que unem valorização cultural, geração de renda e autonomia.

Regulamentação garante dignidade, segurança e valorização cultural do ofício/Fotos: Cedidas

A acreana Emeli Nery, conhecida pelas clientes como Emi, de 29 anos, faz trança desde os 16 anos, mas somente em 2020 ela se consolidou no mercado tornando a atividade como principal fonte de renda. “Essa profissão ser reconhecida vai ajudar a ampliar o leque de oportunidades que temos como trancista e regularizar para que tenhamos direitos, benefícios e maior apoio no empreendedorismo feminino, além disso as pessoas vão perceber que não é só uma trancinha é uma profissão que traz comida pra mesa de muitas mulheres.” disse Emeli, evidenciando o fato de o que era apenas complemento de renda, se tornou profissão. “E tenho orgulho pois hoje ajudo mulheres e homens a renovarem a autoestima através do cabelo”, completou.

Já para Fabianny Aquino, trancista de Sena Madureira, receber esse reconhecimento é muito importante. Segundo ela, essa valorização ajuda a mostrar que a nossa atividade é, sim, uma profissão, que exige técnica, dedicação e conhecimento. “É um passo essencial para tirar a informalidade da nossa arte e garantir que ela seja vista com o respeito e a seriedade que merece” concluiu.

Emeli Nery, de 29 anos, faz trança desde os 16 anos, mas somente em 2020 ela se consolidou no mercado tornando a atividade como principal fonte de renda /Foto: Cedida

Ao oficializar o ofício das trancistas, o MTE reconhece não apenas uma profissão, mas uma prática carregada de identidade, resistência e ancestralidade, que transforma vidas e reafirma o papel das mulheres negras na cultura e na economia do país.

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