ONGs com emendas de Erika Hilton querem atuar em processo dela no STF

Por MetrĂłpoles 31/08/2025 Ă s 11:36

Entidades que foram beneficiadas por emendas da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) apresentaram um pedido para atuar como “amicus curiae” no processo que a parlamentar move contra a ativista feminista Isabella CĂȘpa no Supremo Tribunal Federal (STF).

O processo Ă© um recurso de Hilton contra decisĂ”es do MinistĂ©rio PĂșblico Federal (MPF) e da Justiça Federal que arquivaram a denĂșncia de transfobia do MinistĂ©rio PĂșblico do Estado de SĂŁo Paulo (MPSP) contra CĂȘpa.

As entidades que querem ingressar no processo são a Aliança Nacional LGBTI+; a Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas (ABRAFH); a Associação Comunitária, Cultural e de Apoio Social – Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (Fonatrans); e a Associação Mães pela Diversidade. Duas delas receberam emendas parlamentares de Erika Hilton: a Aliança Nacional LGBTI+ e a Fonatrans.

Em julho de 2024, a primeira recebeu R$ 300 mil de Hilton para “desenvolver e implementar um sistema de monitoramento de ‘fake news’ contra a comunidade LGBTI+ no Estado do Paraná”.

JĂĄ a Fonatrans recebeu R$ 400 mil em emendas da deputada, em duas parcelas. O objeto Ă© a “formação social e profissional de pessoas transgĂȘneros negras e negros na grande SĂŁo Paulo, capital, Araraquara e adjacĂȘncias”.

Apesar de o projeto ser direcionado a SĂŁo Paulo, a sede da Fonatrans Ă© em Picos, cidade piauiense de 83 mil habitantes a 260 quilĂŽmetros da capital Teresina.

O termo “amicus curiae” significa “amigos da corte” em latim. Se o pedido for atendido, as entidades passam a acompanhar o processo e a subsidiar o tribunal com informaçÔes, pontos de vista e posicionamentos. Seus advogados tambĂ©m ganham o direito de falar Ă  Corte no dia do julgamento, caso ele seja realizado presencialmente.

Duas dessas entidades — a Aliança Nacional LGBTI+ e a ABRAFH — tĂȘm como presidente o ativista AntĂŽnio Luiz Martins Harrad Reis, mais conhecido como Toni Reis.

Os “amicus” nĂŁo tem obrigação de apresentarem um ponto de vista neutro ou imparcial sobre a questĂŁo em apreço. Seu papel Ă© representar um dos pontos de vista em disputa. A entrada das entidades Ă© uma forma de agregar peso polĂ­tico ao caso e fazer pressĂŁo.

As entidades pediram o ingresso como “amicus” nos dias 18 e 26 deste mĂȘs. A decisĂŁo sobre aceitar ou nĂŁo cabe ao relator do caso, o ministro Gilmar Mendes. Como mostrou antes a coluna, o procurador-geral da RepĂșblica, Paulo Gonet, se manifestou no começo do mĂȘs contra a pretensĂŁo de Erika Hilton.

Isabella CĂȘpa: pedido mostra desespero de Erika Hilton

À coluna, Isabella CĂȘpa avaliou que a entrada das entidades Ă© sinal de “desespero” do movimento transativista.

“Li a peça rindo. Percebo que a crise, antes de tudo, Ă© estĂ©tica. Me diverte porque revela o desespero de quem tinha um plano ‘infalĂ­vel’, que falhou”, disse Isabella CĂȘpa Ă  coluna.

Para CĂȘpa, a entrada das entidades “num processo contra uma cidadĂŁ qualquer como amicus curiae nĂŁo Ă© sinal de força, Ă© sinal de que alguĂ©m apertou o botĂŁo do pĂąnico”, avaliou.

“Prova o que sempre soubemos: tentaram me fazer de exemplo para calar mulheres. Agora imploram para que o meu caso nĂŁo vire justamente a jurisprudĂȘncia que vai libertĂĄ-las a falar o que todo mundo pensa”, afirmou.

“Com essa eles não contavam. É o que homens fazem: com dinheiro pensam que podem controlar tudo, só esquecem que tudo o que eles podem fazer, nós podemos fazer sangrando”, declarou.

“É o preço que se paga por subestimar a inteligĂȘncia de uma mulher: sobra para eles apenas espernear e apelar para truques mais acrobĂĄticos do que jurĂ­dicos”, concluiu CĂȘpa.

Erika Hilton: processo é sobre respeito a decisÔes do STF

À coluna, Hilton disse ter tomado conhecimento do pedido das entidades por meio do contato da reportagem e parabenizou as organizaçÔes.

“Fiquei sabendo que as organizaçÔes entraram com o pedido de amicus curiae por meio desta prĂłpria coluna. Fico feliz, demonstra a atenção delas a um tema que vai muito alĂ©m de mim, que Ă© sobre o respeito Ă s decisĂ”es constitucionais do STF”, afirmou.

“NĂŁo entendo o choque desta coluna, visto que o objetivo expresso destas organizaçÔes Ă© justamente defender os direitos e as prerrogativas legais das populaçÔes LGBTQIA+”, acrescentou.

Processo começou por CĂȘpa chamar Erika Hilton de homem

O caso de Erika Hilton contra Isabella CĂȘpa teve inĂ­cio em 2020, por conta de uma publicação da ativista feminista nas redes sociais. Comentando o resultado das eleiçÔes municipais daquele ano, CĂȘpa escreveu: “Decepcionada. Com as eleiçÔes dos vereadores, Ăłbvio. Quer dizer, candidatas verdadeiramente feministas nĂŁo foram eleitas. A mulher mais votada Ă© homem”, em referĂȘncia a Erika.

Na ocasião, Erika Hilton conquistou seu primeiro cargo eletivo ao eleger-se vereadora pelo PSOL em São Paulo (SP), com 50.508 votos. Antes, integrou um “mandato coletivo” na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), mas a titular do mandato era a jornalista Mînica Seixas.

Atualmente, CĂȘpa vive em um paĂ­s nĂŁo identificado do Leste Europeu, que lhe concedeu o status de refugiada polĂ­tica. Segundo ela, o sigilo sobre a localização Ă© necessĂĄrio devido a ameaças de morte que estaria sofrendo.

Fora do Brasil, o caso tem sido citado por ativistas feministas crĂ­ticas ao que consideram abusos do movimento trans. Nesta quinta-feira, a escritora britĂąnica J.K. Rowling, criadora do universo Harry Potter, compartilhou uma postagem no X (antigo Twitter) sobre o caso da brasileira.

A publicação de Isabella CĂȘpa sobre a eleição de 2020 resultou em denĂșncia do MinistĂ©rio PĂșblico de SĂŁo Paulo (MP-SP). Posteriormente, o caso foi enviado Ă  Justiça Federal. O MinistĂ©rio PĂșblico Federal (MPF) decidiu pelo arquivamento da investigação. Para o procurador da RepĂșblica responsĂĄvel, a postagem nĂŁo constitui crime.

Hilton recorreu contra a decisĂŁo do MPF, mas foi derrotada — a Justiça Federal concordou com o arquivamento. ApĂłs isso, a deputada recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), utilizando o instrumento da Reclamação — recurso cabĂ­vel sempre que a jurisprudĂȘncia do tribunal Ă© contrariada. Segundo seus advogados, o arquivamento afronta a decisĂŁo do STF que, em 2019, equiparou a transfobia ao crime de racismo.

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