Policial penal atingido na cabeça em rebelião teme perder a visão e vive drama sem apoio do Estado

Sem condições de trabalhar, Janilson depende de campanhas solidárias para sobreviver

O policial penal Janilson Ferreira relembrou, em entrevista exclusiva, os momentos de tensão vividos durante a rebelião no Presídio de Segurança Máxima Antônio Amaro Alves, em Rio Branco. O episódio, marcado por disparos de fuzil e risco iminente de morte, mudou para sempre sua vida e sua rotina.

O dia da rebelião

Janilson estava escalado no Grupo de Operações Especiais (GPOE), unidade responsável por conter motins e rebeliões. Ele conta que tudo parecia normal até ser acionado, por volta das 10h30, quando presos se revoltaram dentro do presídio.

Estilhaços de bala no crânio de Janilson / Foto: Cedida

“Entramos imediatamente para proteger servidores que ainda estavam na área de risco. Eu estava na frente, com o escudo. Os presos faziam exigências, pedindo jornais, a presença do Ministério Público e do SAMU”, relatou.

No meio da operação, a situação se agravou quando os detentos conseguiram acessar a reserva de armas, passando a atirar com fuzis IA2, calibre 5,56 contra os policiais.

O disparo que mudou tudo

Ao tentar se deslocar dentro do presídio, Janilson foi atingido. “Senti o impacto direto na cabeça. Perdi a visão do olho direito na hora, e o esquerdo chegou a escurecer, mas voltou. Precisei ficar firme, porque atrás de mim estavam meus companheiros. Se eu caísse, eles também estariam em risco.”

. “Senti o impacto direto na cabeça. Perdi a visão do olho direito na hora”Foto: Cedida

Mesmo ferido, conseguiu sair sob forte tiroteio até receber atendimento do SAMU e ser levado ao Pronto-Socorro. Após nove dias de internação, voltou para casa com sequelas graves.

O policial explica como o disparo atingiu seu rosto: “O primeiro tiro desviou no escudo, o segundo atravessou parcialmente, e o terceiro penetrou, atingindo meu olho e minha cabeça com estilhaços”.

Sequelas e luta por tratamento

Hoje, Janilson convive com dores intensas, sequelas neurológicas e limitações. Ele relata que seu olho esquerdo pisca involuntariamente, sofre com manchas na visão e carrega estilhaços na cabeça que intensificam as dores ao sol.

Os primeiros tratamentos foram feitos no Acre, mas sem a estrutura necessária. Somente com apoio de deputados e médicos conseguiu atendimento no Hospital das Clínicas de São Paulo, onde iniciou transplante de supercílio e outros procedimentos. “Se tivesse chegado logo após o tiro, talvez houvesse chance de salvar o olho”, revelou.

Somente com apoio de deputados e médicos conseguiu atendimento no Hospital das Clínicas de São Paulo/Foto: Cedida

As dificuldades financeiras agravaram o cenário. Sem poder trabalhar, Janilson iniciou uma campanha de arrecadação para custear consultas, medicamentos e viagens. “O IAPEN me indenizou em R$ 20 mil, mas já gastei mais de R$ 70 mil. Continuo correndo risco de perder tudo”, lamentou.

Vida transformada

Mais do que as dores físicas, o impacto emocional também marcou sua vida. “Me sinto abandonado pelo Estado. Meu maior medo é perder totalmente a visão ou ter sequelas irreversíveis. Mas agradeço a Deus porque nenhum colega ou refém saiu gravemente ferido naquele dia.”

“Tenho honra de ter sido policial penal. Se minha saúde permitisse, faria tudo de novo, sem pensar duas vezes.”/Foto: Cedida

Mesmo fora da ativa, ele mantém orgulho da carreira. “Tenho honra de ter sido policial penal. Se minha saúde permitisse, faria tudo de novo, sem pensar duas vezes.”

Janilson finaliza com uma mensagem de força aos colegas: “Que nunca envergonhemos nossa fé, nossas famílias nem nossos companheiros. Cumprimos nossa missão. E que possamos sempre apoiar uns aos outros, porque uma palavra pode salvar uma vida.”

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