Alta incidĂȘncia de quedas expĂ”e vulnerabilidade dos idosos no Brasil

Por MetrĂłpoles 15/09/2025 Ă s 06:36

Quedas frequentes e o medo constante de cair tĂȘm comprometido seriamente a qualidade de vida de pessoas idosas no Brasil. Segundo o Estudo Longitudinal da SaĂșde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), esses episĂłdios jĂĄ sĂŁo a principal causa de lesĂ”es graves entre a população idosa, afetando diretamente a mobilidade, a saĂșde mental e a independĂȘncia funcional. Dados nacionais mostram que um em cada quatro idosos sofre ao menos uma queda por ano, Ă­ndice que sobe para 40% entre aqueles com mais de 80 anos.

Agora, um novo levantamento realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina de ItajubĂĄ (MG) e do Centro UniversitĂĄrio Ages (BA) revela uma realidade ainda mais alarmante. O estudo, conduzido com 400 idosos atendidos na Atenção PrimĂĄria Ă  SaĂșde no bairro do Belenzinho, na zona leste da capital paulista, encontrou uma prevalĂȘncia de quedas de 63%, muito acima da mĂ©dia global estimada de 25% a 33%. Os resultados foram publicados na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

“O estudo que realizamos revelou nĂșmeros muito acima da mĂ©dia global: 63% dos idosos relataram jĂĄ ter caĂ­do e 90% disseram sentir medo de cair. Parte dessa diferença pode ser explicada pelas condiçÔes do prĂłprio bairro e das moradias”, afirma o professor doutor Luciano Vitorino, autor da pesquisa. “A maioria das casas era simples, com pouca ou nenhuma adaptação para segurança. Como cerca de dois terços das quedas acontecem dentro de casa, esse cenĂĄrio potencializa o risco”, disse ele, que tambĂ©m atua em envelhecimento, saĂșde mental e espiritualidade em saĂșde.

AlĂ©m das residĂȘncias, o pesquisador destacou que o ambiente urbano tambĂ©m se mostrou desfavorĂĄvel, potencializando o risco de quedas. “Somam-se a isso os desafios do espaço pĂșblico na regiĂŁo, com calçadas irregulares, escadas sem corrimĂŁo e iluminação precĂĄria, o que agrava a insegurança para se locomover”, disse Vitorino.

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A prevalĂȘncia do medo de cair tambĂ©m chamou atenção dos pesquisadores: nove em cada dez idosos atendidos na UBS paulistana relataram viver com esse receio. “Esse medo nĂŁo Ă© apenas um reflexo emocional, mas um fator que contribui ativamente para novas quedas. O idoso se movimenta menos, perde força muscular e equilĂ­brio, e o risco aumenta ainda mais”, alertou o professor.

A pesquisa tambĂ©m mostrou que o medo de cair tem relação direta com a perda da autonomia. “Muitas vezes, uma primeira queda Ă© um evento muito traumĂĄtico. O medo, embora seja bom por um lado porque traz mais cautela, quando em excesso, imobiliza o idoso, que deixa de sair de casa e fazer atividades simples. Isso pode levar Ă  ansiedade, depressĂŁo e atĂ© ao isolamento social”, afirma a geriatra Thais Ioshimoto, do Einstein Hospital Israelita.

Para Vitorino, o medo de cair cria um ciclo perigoso. “A pessoa evita caminhar, perde força, e com isso, o risco de cair aumenta. Sem mobilidade, hĂĄ tambĂ©m comprometimento da saĂșde cardiovascular, pulmonar e metabĂłlica. A autonomia Ă© afetada, e o idoso passa a depender mais de familiares”, frisou.

Segundo a geriatra do Einstein, o perfil da amostra analisada ajuda a entender os altos Ă­ndices. “Era uma população mais doente: 92% dos idosos participantes tinham alguma doença crĂŽnica, 90% usavam medicamentos, e 62% relataram ter uma percepção ruim da prĂłpria saĂșde. AlĂ©m disso, 54% disseram nĂŁo estar satisfeitos com a vida, o que Ă© um indicativo importante de possĂ­veis quadros de depressĂŁo e ansiedade, que sĂŁo fatores de risco para queda”, destacou.

A mĂ©dica lembra que, entre os idosos, a queda Ă© um dos principais sinais de alerta nas consultas geriĂĄtricas. “Faz parte da consulta de rotina perguntar sobre histĂłrico de quedas. Se um idoso relata ter caĂ­do no Ășltimo ano, isso jĂĄ acende uma luz vermelha. A maior preocupação Ă© a consequĂȘncia, como uma fratura de quadril, que pode exigir cirurgia e comprometer para sempre a autonomia”, afirmou.

Fatores de risco

Entre os fatores que aumentam o risco de queda, o estudo apontou a idade avançada, o sexo feminino, a percepção negativa da saĂșde, hospitalizaçÔes recentes e o declĂ­nio da função cognitiva. “Mulheres sĂŁo mais vulnerĂĄveis porque tĂȘm maior prevalĂȘncia de osteoporose e menor massa muscular apĂłs a menopausa. AlĂ©m disso, muitas passam mais tempo em casa, justamente o ambiente onde acontecem a maioria das quedas”, ressaltou Vitorino.

A condição socioeconĂŽmica tambĂ©m pesa. “Moradias simples, sem adaptaçÔes, associadas a bairros com infraestrutura precĂĄria, formam um ambiente de alto risco. E as comorbidades, como diabetes, doenças cardiovasculares e neurolĂłgicas, tambĂ©m contribuem, pois afetam mobilidade e atenção, alĂ©m de exigirem uso de medicamentos que podem causar tontura ou sonolĂȘncia”, explicou o pesquisador.

A geriatra do Einstein reforça essa anĂĄlise e destaca a relevĂąncia do perfil clĂ­nico dos participantes. “O estudo mostra que 70% dos idosos avaliados tinham doenças cardĂ­acas e 50% apresentavam condiçÔes neurolĂłgicas. Sabemos que problemas como AVC [Acidente Vascular Cerebral] ou neuropatias comprometem diretamente a mobilidade, o que naturalmente aumenta o risco de quedas”, afirmou.

Prevenção das quedas em idosos

A boa notĂ­cia Ă© que muitas quedas podem ser prevenidas. “Nosso objetivo nĂŁo Ă© sĂł evitar quedas, mas garantir que as pessoas possam envelhecer com segurança e dignidade. Isso inclui preservar a capacidade de se locomover, cuidar da prĂłpria higiene, participar da vida social e manter sua independĂȘncia”, disse Vitorino.

Entre as açÔes eficazes, os especialistas ressaltam a importĂąncia dos exercĂ­cios fĂ­sicos, especialmente os de resistĂȘncia, que fortalecem a musculatura. “NĂŁo basta caminhar, Ă© preciso ganhar massa muscular. Pode ser com o peso do prĂłprio corpo, por meio da calistenia, mas preservar e ganhar mĂșsculo Ă© essencial”, disse Ioshimoto. AlĂ©m disso, uma boa alimentação, rica em proteĂ­nas, ajuda a manter a saĂșde Ăłssea e muscular.

Ambientes seguros, especialmente dentro de casa, também são essenciais para garantir a segurança dos mais velhos. Em casa, pequenas adaptaçÔes fazem diferença, entre elas, instalar barras de apoio em banheiros, eliminar tapetes soltos, melhorar a iluminação, nivelar degraus e organizar móveis para criar espaços de circulação livre.

Nas unidades bĂĄsicas de saĂșde, as estratĂ©gias incluem avaliação periĂłdica da visĂŁo, audição e revisĂŁo do uso de medicamentos, especialmente os psicotrĂłpicos e cardiovasculares, que aumentam o risco de quedas. AlĂ©m disso, programas de atividade fĂ­sica para idosos, como grupos de caminhada, alongamento ou prĂĄticas como o Tai Chi Chuan, tĂȘm mostrado bons resultados.

“Essas açÔes nĂŁo custam caro, mas fazem uma enorme diferença na vida dos idosos”, destacou Vitorino. Por fim, ele reforça: “Cair nĂŁo Ă© ‘normal’ na velhice. Com um ambiente mais seguro, um estilo de vida ativo e acompanhamento adequado, Ă© possĂ­vel evitar a maioria das quedas e garantir mais saĂșde, autonomia e qualidade de vida para nossos idosos”, concluiu o autor do estudo.

Fonte: AgĂȘncia Einstein

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