O que significa esperar por uma cirurgia que pode devolver a vida ou a visão? Para a psicóloga Esther Maria do Socorro Gouveia Viana, 63 anos, essa pergunta atravessou quase duas décadas de sua trajetória. Natural do Acre, hoje residente em Vila Velha (ES), ela já enfrentou três transplantes: um renal e dois de córnea.
A história começou em 2006, quando Esther descobriu que possuía apenas 25% da função renal. Dez anos depois, já vivendo em São Paulo, precisou entrar em hemodiálise: quatro horas, três vezes por semana, durante dois anos e meio.
Apesar das dificuldades, especialmente no período da hemodiálise, ela transformou a dor em experiência/ Foto: Cedida
“Era um tratamento muito sofrido. Eu vivia em pânico com risco de infecção pelo cateter no pescoço, pois não conseguiam introduzi-lo no meu braço. Muitas vezes desmaiava ou tinha crises de pressão alta e dores de cabeça”, relembra.
O alívio veio em 2016, quando a filha mais velha, Clarissa Viana, então com 31 anos, foi considerada totalmente compatível para doar um rim. A cirurgia, realizada na Beneficência Portuguesa, em São Paulo, foi um sucesso. “O médico disse: essa menina é muito mais do que sua filha, a compatibilidade é incrível”, conta. Desde então, Esther leva uma vida estável, com acompanhamento médico trimestral.
O desafio da visão
Enquanto recuperava a saúde renal, um novo obstáculo surgiu: a perda progressiva da visão. Em 2011, em São Paulo, exames detectaram uma doença degenerativa na córnea. A recomendação foi clara: um dia ela precisaria de transplante.
Já instalada no Espírito Santo, entrou para a fila do SUS em 2021. “Eu estava em 1.700ª posição. Pensei que nunca chegaria minha vez”, diz. O desfecho veio rápido: em novembro de 2024, foi submetida ao primeiro transplante de córnea no Banco de Olhos de Sorocaba (BOS), o maior do Brasil.
“Antes eu só conseguia ler no computador. Sou apaixonada por livros, mas não podia mais segurar e sentir o cheiro das páginas. Agora, voltei a ler normalmente.”
O segundo transplante ocorreu neste mês, também em Sorocaba. Em poucos dias, Esther já lia letras pequenas e recuperava a rotina de psicóloga, agora em atendimentos online.
Rede de apoio e esperança
Esther atribui a resistência e a coragem à rede de apoio. “Meu marido Luiz Carlos, oficial do Exército, sempre esteve ao meu lado. Os filhos, mesmo distantes, e os amigos me sustentaram. Nunca pensei em desistir.”
Apesar das dificuldades, especialmente no período da hemodiálise, ela transformou a dor em experiência: passou a atender pacientes renais que buscam não apenas o apoio psicológico, mas também a identificação de alguém que viveu o mesmo drama.
O SUS que funciona
A psicóloga destaca a importância do sistema público de saúde. “No caso das córneas, o SUS funciona. O BOS realiza mais de dez cirurgias por dia. A fila anda rápido e dá esperança.”
Com três transplantes na conta, Esther fala com serenidade. “Transplante não é fim, é começo. Eu voltei a viver. E voltei a ler.”
