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Após pesquisa divulgada em revista, Sesacre nega que ‘bactéria desconhecida’ circula no Acre

Por Vitor Paiva, ContilNet

A Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre) divulgou nota nesta segunda-feira (1) para esclarecer informações veiculadas na imprensa sobre a suposta presença de uma “bactéria desconhecida” no estado. O órgão afirmou que não há registro da circulação de nenhuma nova bactéria no Acre e que a descoberta divulgada por pesquisadores ocorreu no Parque Nacional da Amazônia, em Itaituba (PA).

A Sesacre publicou uma nota sobre o assunto/Foto: Odair Leal/Sesacre

O estudo, publicado na revista científica Acta Tropica, identificou em mosquitos-palha do Pará uma bactéria do gênero Bartonella com proximidade genética das espécies Bartonella bacilliformis e Bartonella ancashensis, conhecidas nos Andes por causar a doença de Carrión, também chamada de febre de Oroya ou verruga-peruana. Apesar da semelhança, os cientistas ressaltam que ainda não há indícios de que a linhagem encontrada no Brasil cause doenças em humanos.

Na nota, a Sesacre destacou que espécies do gênero Bartonella possuem características genéticas próprias e provocam diferentes enfermidades. A mais conhecida no meio médico é a doença da arranhadura do gato, causada pela Bartonella henselae, que até hoje não teve registro de casos humanos no Acre.

O coordenador do Grupo de Trabalho das Doenças Tropicais Negligenciadas, João Nélson dos Santos Morais Neto, alertou para o risco de interpretações equivocadas. “Associar essas bactérias como se fossem uma única doença é imprudente e pode gerar desinformação, medo, abandono e até maus-tratos a animais”, reforçou.

A Sesacre também comparou a situação a doenças distintas que pertencem a gêneros semelhantes, como o sarampo em humanos e a cinomose em cães, que apesar de apresentarem proximidade genética, não afetam as mesmas espécies.

O órgão lembrou ainda que as bartoneloses são consideradas doenças negligenciadas em nível mundial, com maior impacto em locais de baixo saneamento e difícil acesso a serviços de saúde. Nessas áreas, o risco de subnotificação é elevado.

Apesar de a pesquisa citar indícios de linhagens relacionadas em estudos anteriores no Acre, a Sesacre afirma que a Vigilância em Saúde do estado “permanece atenta e atuante” e que não há, até o momento, qualquer registro da circulação das bactérias identificadas no Pará em território acreano.

Confira a nota na íntegra:

NOTA DE ESCLARECIMENTO

A Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre), por meio do Grupo de Trabalho das Doenças Tropicais Negligenciadas, do Departamento de Vigilância em Saúde, vem a público esclarecer informações que circulam em veículos de comunicação sobre a suposta presença de uma “bactéria desconhecida” no estado.

O estudo mencionado pela reportagem não identifica a circulação de nenhuma nova bactéria no Acre. O que ocorreu foi a detecção, no Parque Nacional da Amazônia, no município de Itaituba, no Pará, de uma espécie do gênero Bartonella em flebotomíneos do gênero Lutzomyia, entre o mais conhecido popularmente como mosquito-palha. Geralmente, esse tipo de inseto é associado à transmissão da leishmaniose, mas, segundo os pesquisadores, o DNA encontrado apresentou semelhança com patógenos de outras duas espécies de bactérias dos Andes, B. bacilliformis e B. ancashensis, que causam a doença de Carrión, chamada de verruga-peruana e febre de Oroya, ambas transmitidas por flebotomíneos.

No Brasil ainda não há indícios de que essa nova espécie de bactéria possa causar alguma doença, mas como espécies do gênero Bartonella são responsáveis por diversas doenças em outros países, é preciso que os estudos tenham continuidade.

As bartoneloses são doenças socialmente desassistidas a nível mundial, principalmente em áreas com baixo saneamento. A enfermidade mais conhecida pelos profissionais de saúde é a doença da arranhadura do gato, causada por Bartonella henselae, até o momento sem registro de casos humanos no Acre. É importante entender a real prevalência dessas enfermidades, principalmente em regiões isoladas e com baixo índice de desenvolvimento humano, onde as populações não têm fácil acesso aos serviços de saúde.

É importante destacar que:

* O gênero Bartonella possui diversas espécies diferentes, cada possuindo características genéticas próprias e distintas, sendo cada espécie causadora de uma etiologia diferente.
* As bactérias identificadas (Bartonella bacilliformis e Bartonella ancashensis) não têm relação com a popularmente conhecida como Doença da Arranhadura do Gato (Bartonella henselae), doença já conhecida pela população e que não foi objeto do estudo em questão.
* Associar essas bactérias como se fossem uma única doença é imprudente e pode gerar desinformação, medo, abandono e até maus-tratos a animais.

A comparação mais adequada é pensar que foram identificadas e pertencem ao mesmo gênero, mas são espécies e doenças distintas, como ocorre com o sarampo em humanos e a cinomose em cães, que apesar de terem proximidade genética, não afetam as mesmas espécies tampouco causam as mesmas doenças.

A Sesacre reforça que não há qualquer registro da circulação dessas bactérias no Acre e que a Vigilância em Saúde do Estado permanece atenta e atuante para proteger a população.

João Nélson dos Santos Morais Neto
Coordenador do Grupo de Trabalho das Doenças Tropicais Negligenciadas
Secretaria de Estado de Saúde do Acre

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