Como a corrida por data centers muda a política energética dos EUA

Por MetrĂłpoles 09/09/2025 Ă s 03:36

Os Estados Unidos passaram anos com o consumo de eletricidade praticamente estagnado. De repente, a inteligĂȘncia artificial entrou em cena e mudou este quadro. O Departamento de Energia estima que os data centers, que em 2023 jĂĄ consumiam cerca de 4,4% da eletricidade do paĂ­s, podem chegar a algo entre 6,7% e 12% atĂ© 2028, o que equivale a 325 a 580 TWh. É muita coisa em muito pouco tempo. O problema Ă© que nĂŁo dĂĄ para erguer uma linha de transmissĂŁo de energia como quem atualiza um aplicativo.

No operador PJM, a maior malha do paĂ­s, que cobre do Meio-AtlĂąntico ao Meio-Oeste, as projeçÔes de carga deram um salto. O relatĂłrio de 2025 fala em crescimento mĂ©dio de 3,8% ao ano no pico de inverno na prĂłxima dĂ©cada, um ritmo rarĂ­ssimo para padrĂ”es norte-americanos e puxado por novas cargas gigantes. NĂŁo Ă  toa, o prĂłprio PJM abriu um processo acelerado para criar regras especĂ­ficas de conexĂŁo de megacargas, em especial data centers. É a burocracia tentando correr atrĂĄs da nuvem.

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A dinùmica econÎmica também mudou. Por anos, as Big Techs compraram certificados que comprovavam que uma certa quantidade de eletricidade foi gerada a partir de fontes renovåveis, (Certificados de Energia Renovåvel, RECs) ou através de contratos de compra e venda virtuais ou financeiros de energia a longo prazo, em que não havia entrega física; o termo de compromisso era usado para fixar um preço da energia no mercado e garantir previsibilidade financeira.

Agora, a discussĂŁo Ă© sobre lastro: contratos longos de energia fĂ­sica, isso Ă©, o comprador garante a compra de uma quantidade de energia ou a produção de um parque renovĂĄvel. A Microsoft, por exemplo, assinou um contrato de compra e venda de energia elĂ©trica (PPA na sigla em inglĂȘs) de 20 anos com a Constellation, empresa americana de produção de energia de baixo carbono, para viabilizar a retomada da usina nuclear de Three Mile Island. A Meta fechou outro contrato de 20 anos com a mesma empresa para o complexo nuclear de Clinton, em Illinois. Esses arranjos nĂŁo sĂŁo apenas marketing de sustentabilidade; sĂŁo a forma de garantir gigawatts 24/7 para operaçÔes que nĂŁo podem piscar.

Nem tudo, porĂ©m, Ă© plug and play. O caso Amazon–Talen, na PensilvĂąnia, em que um data center foi construĂ­do colado Ă  usina nuclear de Susquehanna, virou novela regulatĂłria. A FERC rejeitou duas vezes o acordo de interconexĂŁo que buscava ampliar o fornecimento direto “porta a porta”, por temores de custo e impacto na rede compartilhada. A moral da histĂłria Ă© simples: estar perto de uma usina ajuda, mas nĂŁo anula as regras sobre quem paga pelo fio. Esse recado jĂĄ foi ouvido em outros estados.

E quem paga, afinal? Alguns estados começaram a definir tarifas e classes especĂ­ficas para hipercargas. Na VirgĂ­nia, a Dominion propĂŽs uma categoria nova de tarifa para data centers muito grandes e, em paralelo, ganhou autorização para construir uma linha de transmissĂŁo que atende apenas um hyperscale em Alexandria. A decisĂŁo gerou protestos de bairros vizinhos e revelou o Ăłbvio: a “nuvem” tem 230 kV e passa no quintal de alguĂ©m.

Demanda real e fantasma

Do lado dos planejadores, hĂĄ outro nĂł difĂ­cil: o que Ă© demanda real e o que Ă© “demanda fantasma”? Com a corrida por IA, desenvolvedores entram em mĂșltiplas filas de conexĂŁo ao mesmo tempo, muitas vezes para o mesmo projeto. O resultado Ă© um inchaço artificial dos nĂșmeros que pode levar a redes superdimensionadas e depois subutilizadas, e essa conta sobra para o consumidor. O Wall Street Journal contou bem essa histĂłria dos “data centers que nem existem e jĂĄ assombram a rede”.

No Sul, a Georgia Power redesenhou seu plano de recursos para segurar o carvĂŁo por mais tempo, investir em baterias e gĂĄs adicional e ampliar solar, tudo com um olho atento nos data centers. É uma boa sĂ­ntese do momento: a transição energĂ©tica continua, mas a sequĂȘncia das peças mudou por causa da IA.

E a nova geração de tecnologias nucleares? Os SMRs, reatores nucleares pequenos, que prometem menor investimento inicial e maior segurança, estĂŁo no radar, mas o combustĂ­vel HALEU, que tem a RĂșssia como a Ășnica fornecedora em escala, ainda Ă© o gargalo. A empresa americana fornecedora de combustĂ­vel nuclear, Centrus, atingiu, em junho, a marca de 900 kg produzidos, um marco histĂłrico nos EUA. Mas o Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE) projeta necessidade de 50 toneladas por ano atĂ© 2035. Em outras palavras, promissor, porĂ©m nĂŁo no tempo dos data centers que entram em operação entre 2026 e 2028. AtĂ© lĂĄ, o que existe de nuclear “na prateleira” Ă© estendera a vida Ăștil e aumentar a potĂȘncia licenciada dos reatores nucleares existentes, sem construir uma nova usina.

Mas existem alternativas realistas para sair desta situação. A primeira delas Ă© a velocidade frente Ă  governança. A rede americana foi desenhada para crescer devagar, mas a IA trouxe ritmo industrial para o setor de serviços. A resposta institucional da agĂȘncia federal dos Estados Unidos responsĂĄvel por regular o setor de energia elĂ©trica, a FERC, de operadores e de comissĂ”es estaduais, Ă© tentar casar prazos de obras civis com os ciclos de investimento da nuvem. JĂĄ o operador regional de rede elĂ©trica PJM cria trilhos especĂ­ficos para grandes cargas. E Ă© justamente isso: admitir que data center Ă© um bicho regulatĂłrio prĂłprio.

A segunda Ă© a adicionalidade, e nĂŁo apenas a energia “verde”. PPAs que evitam o fechamento de usinas reais, como Three Mile Island, ou que financiam extensĂ”es de licença, como o caso da Meta em Clinton, tĂȘm impacto sistĂȘmico muito maior do que certificados genĂ©ricos. É uma virada importante: a descarbonização corporativa passa a cuidar do estoque de confiabilidade do sistema, e nĂŁo apenas do saldo anual de MWh limpos.

A terceira Ă© quem paga a fiação. Tarifas especiais e obrigaçÔes de investimento para novos hiperconsumidores devem deixar de ser teoria e se transformar em prĂĄtica. Contratos de conexĂŁo mais rĂ­gidos, redução ou restrição da geração de energia em horas de pico e, quando fizer sentido, contribuição direta para linhas e subestaçÔes sĂŁo necessĂĄrios. Sem isso, a distribuição indiscriminada dos custos gera reação polĂ­tica, que jĂĄ começou nas audiĂȘncias pĂșblicas.

O quarto ponto Ă© a eficiĂȘncia e a flexibilidade. Nem todo watt de IA Ă© igual. O treinamento de modelos pode ser agendado; a inferĂȘncia, nem tanto. O setor que aprender a deslocar treinamento para janelas de baixa demanda, ou para regiĂ”es com folga, vai reduzir o capex de rede e ganhar poder de barganha regulatĂłria. Esse Ă© o lado B menos glamouroso da IA: software de orquestração e contratos com SLAs elĂ©tricos, que garantam que o serviço entregue cumpra padrĂ”es mĂ­nimos de qualidade e desempenho.

No curto prazo, o quadro serĂĄ inevitavelmente misto: um pouco mais de gĂĄs para segurar o pico, nucleares antigos monetizando sua firmeza via Big Tech, solares e baterias crescendo de escala e muita obra de transmissĂŁo. A visĂŁo de fundo, porĂ©m, Ă© de reencaixe. A rede americana sempre foi uma grande obra pĂșblica, implicitamente financiada por toda a base de consumidores. A IA estĂĄ forçando um experimento de responsabilização privada pelo lastro, e isso pode ser saudĂĄvel se bem regulado.

O risco, claro, Ă© o inverso: projetar para o exagero fantasma e socializar custo demais. O sinal de alerta jĂĄ aparece nas projeçÔes do DOE, que falam em atĂ© 12% da eletricidade em 2028, e nas avaliaçÔes sazonais da NERC, a entidade responsĂĄvel por garantir a confiabilidade e segurança do sistema elĂ©trico da AmĂ©rica do Norte, que vĂȘm registrando aumento de risco diante de picos mais altos e usinas envelhecidas. O desafio Ă© achar o meio-termo entre subestimar a nuvem e construir para miragens. No fim das contas, a “conta de luz da IA” chega na mesma caixa de correio que a nossa.

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