Estamos mesmo felizes ou apenas interpretando o papel da felicidade para um público que nunca se apresenta?
Vivemos a era da vitrine permanente. Cada instante pode virar espetáculo, cada gesto pode ser publicado, cada riso pode ser ensaiado. As redes sociais, que nasceram como janelas para partilhar momentos, se transformaram em verdadeiros palcos onde interpretamos a felicidade diante de uma plateia invisível.
Na sociedade do palco digital, todos atuam, todos assistem. Mas será que ainda conseguimos viver fora do roteiro?
A espontaneidade cede lugar à encenação. A memória é substituída pela fotografia. O “story” se sobrepõe à história. E nesse cenário, não são apenas os momentos cotidianos que se tornam performance os relacionamentos amorosos também vivem na UTI emocional, sustentados por aparências, likes e filtros.
Amores em estado terminal
Casais que já não se olham nos olhos, mas que sorriem para a câmera. Beijos que não têm calor, mas que rendem engajamento. Jantares silenciosos, seguidos de legendas apaixonadas. Na superfície, tudo parece perfeito. Na profundidade, tudo está em ruínas.
Quantos amores estão fracassados, mas seguem vivos na timeline? Quantos casamentos se tornaram contratos de imagem, onde o afeto foi substituído por performance? A ilusão é mantida por uma estética de felicidade, enquanto os segredos se acumulam nos bastidores.
Uma leitora confidenciou:
“Passei a lua de mel mais preocupada com as fotos do que com o momento. Quando voltei, percebi que lembrava mais dos cliques que do próprio dia. Foi lindo no Instagram, mas vazio dentro de mim.”
Outro relato reforça:
“Arrumamos a mesa, ensaiamos poses, tiramos dezenas de fotos. Depois que postamos, o clima já não era o mesmo. Foi como se a noite tivesse acabado ali.”
Esses relatos não são exceção. São sintomas de uma cultura que valoriza mais o registro do que a vivência.
Pesquisadores da Universidade de Stanford apontam que a exposição constante ao “melhor recorte” da vida alheia aumenta sentimentos de inadequação e ansiedade. A régua da comparação está sempre mais alta que a nossa realidade, inclusive nos relacionamentos.
Uma jovem relatou:
“Eu sabia que não estava infeliz. Mas, ao ver as viagens e conquistas dos outros, parecia que minha rotina simples não tinha valor. Foi como se minha felicidade tivesse prazo de validade digital.”
Talvez a chave esteja em resgatar aquilo que não precisa de testemunhas: o toque sem registro, o olhar sem legenda, o silêncio compartilhado. O palco pode até continuar existindo, mas o amor e a vida não podem se reduzir a uma atuação.
E Você?
Estamos realmente felizes ou apenas interpretando o papel da felicidade e do amor para um público que nunca se apresenta?
Já viveu uma situação em que percebeu estar mais preocupado em mostrar do que em viver?
Reflita.

