Um estudo publicado na revista científica Acta Tropica aponta que o desmatamento na Amazônia Legal tem influência direta no aumento de casos de malária. As coletas de campo realizadas em 40 pontos de Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá, mostraram que áreas com cobertura florestal intermediária, em torno de 50%, apresentam maior risco de transmissão da doença.
A análise indicou que a fragmentação da vegetação aproxima os vetores das moradias, aumentando a exposição da população/Foto: Reprodução
Segundo os pesquisadores, esse cenário favorece a presença do mosquito Anopheles, especialmente do subgênero Nyssorhynchus, principal vetor do Plasmodium, protozoário causador da malária. A análise indicou que a fragmentação da vegetação aproxima os vetores das moradias, aumentando a exposição da população.
“O maior risco de transmissão de malária ocorre quando há uma proporção de 50% de mata nativa próxima a locais de moradia, assentamentos ou núcleos populacionais. O risco também é alto quando a vegetação é fragmentada, permitindo maior contato de vetores que estão na floresta com humanos”, explicou o biólogo Gabriel Laporta, autor correspondente do artigo, à Agência Fapesp.
O município de Cruzeiro do Sul e outras cidades do Vale do Juruá são considerados pontos persistentes de incidência da doença. Mesmo com intervenções nos últimos dez anos, os ciclos endêmicos não foram interrompidos. Só em 2024, segundo o Ministério da Saúde, a Amazônia Legal concentrou 138 mil dos 142 mil casos de malária registrados no Brasil.
Os resultados da pesquisa reforçam a necessidade de integrar políticas de controle de vetores com estratégias de conservação florestal. Os cientistas alertam que o risco diminui apenas em dois cenários: quando o desmatamento é quase total, tornando o ambiente inóspito para os mosquitos, ou quando a floresta é restaurada em níveis superiores a 70%.
Laporta destacou ainda que iniciativas sustentáveis e alternativas econômicas para as comunidades locais podem reduzir a pressão pelo desmate. “O pagamento por serviços ecossistêmicos, por meio do mercado de carbono, por exemplo, pode ser uma alternativa. Uma conferência como a COP30 pode ser uma oportunidade para discutir como iremos substituir o modus operandi de hoje”, afirmou.
O Brasil tem como meta, dentro do Plano Nacional de Eliminação da Malária, reduzir os casos para menos de 14 mil até 2030 e alcançar a eliminação total até 2035. No entanto, especialistas apontam que além de tratamentos eficazes, será necessário avançar em medidas de vigilância em saúde, saneamento básico e conservação da floresta amazônica para atingir o objetivo.
