As denĂșncias feitas por internos da unidade do Lago Oeste do Instituto TerapĂȘutico Liberte-se, nessa terça-feira (16/9), apontam graves violaçÔes a direitos humanos. Os acolhidos falam em trabalho forçado e nĂŁo remunerado, tortura, maus-tratos, violĂȘncia sexual, cobranças abusivas e falta de assistĂȘncia mĂ©dica adequada. TrĂȘs sĂłcios da casa de recuperação foram presos.
Os relatos foram feitos Ă ComissĂŁo de Direitos Humanos (CDH) da CĂąmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), que esteve na unidade do Lago Oeste na terça-feira e reuniu as denĂșncias. A filial Ă© diferente da localizada no NĂșcleo Rural BoqueirĂŁo, no ParanoĂĄ, que pegou fogo e matou cinco internos, em 31 de agosto Ășltimo.
Os internos disseram, por exemplo, que sofrem abusos sexuais constantemente, sobretudo aqueles com transtornos mentais. HĂĄ ainda denĂșncias de episĂłdios de pessoas enforcadas, amarradas com cordas e trancadas em quartos superlotados.
A unidade do Lago Oeste tambĂ©m nĂŁo oferecia assistĂȘncia mĂ©dica adequada. Alguns pacientes usavam psicotrĂłpicos como quetiapina e rivotril sem prescrição clara, alĂ©m de nĂŁo contarem com a presença de psicĂłlogos e psiquiatras na clĂnica â quem quisesse se consultar, tinha que desembolsar R$ 300 para uma consulta online. Quem dĂŁo os medicamentos sĂŁo monitores nĂŁo formados na ĂĄrea mĂ©dica.
As famĂlias dos acolhidos jĂĄ pagam entre R$ 1.600 e R$ 1.800 de mensalidade pela internação e, ainda assim, pagam alimentação por fora e tambĂ©m tĂȘm que arcar com gastos como taxa de deslocamento. Se o paciente estĂĄ com algum problema de saĂșde e solicita ir ao mĂ©dico, por exemplo, Ă© cobrado dele um valor entre R$ 150 e R$ 200.
Ainda de acordo com relatos dos pacientes Ă ComissĂŁo de Direitos Humanos da CLDF, a unidade do Lago Oeste possui uma loja de conveniĂȘncia que vende produtos muito acima do preço de mercado e forçam os rapazes a comprar, como contou um dos internos. âAqui, um pacote de biscoito Ă© R$ 15, um chocolate Ă© R$ 15⊠sĂŁo produtos que, lĂĄ fora, custam R$ 3â, explica. âEles meio que nos obrigam a comprar aqui, porque quando um parente vem nos visitar, ele sĂł pode entrar com 10 itensâ, revela.
Sobre as visitas, o paciente conta que foi proibido de ver a famĂlia hĂĄ aproximadamente 30 dias. âEu estou com a visita proibida porque aqui eles nĂŁo permitem troca e, hĂĄ mais ou menos um mĂȘs, eu troquei uma barra de chocolate que vende na lojinha da clĂnica por uma caixa de bombom com um companheiro que chegouâ, conta. âĂ chocolate por chocolate, nĂŁo Ă© nada de maisâ, lamenta.
A unidade do Lago Oeste do Instituto Liberte-se estaria adotando uma prĂĄtica chamada de âlaboterapiaâ, espĂ©cie de terapia atravĂ©s do trabalho, com rotinas exaustivas, impositivas e sacrificantes. A prĂĄtica caracteriza trabalho forçado e nĂŁo remunerado.
OfĂcios
ApĂłs ouvir as denĂșncias, a CDH oficiou a Ouvidoria e a Procuradoria-Geral dos Direitos do CidadĂŁo, ambas do MinistĂ©rio PĂșblico do Distrito Federal e TerritĂłrios (MPDFT); a Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do DF (Sejus-DF); e a Defensoria PĂșblica do DF (DPDF).
âSolicitamos adoção de medidas cautelares para proteção integral dos internos; abertura de inquĂ©rito civil e criminal; fiscalização ampliada das demais unidades da entidade âLiberte-seâ no DF; e garantia de acompanhamento multidisciplinar para assegurar a proteção de direitos das pessoas resgatadasâ, assinou o presidente da ComissĂŁo, deputado distrital FĂĄbio Felix (Psol), em um dos ofĂcios.
A visita Ă unidade do Liberte-se no Lago Oeste foi guiada por FĂĄbio Felix e acompanhada pela deputada federal Ărika Kokay, a coordenadora da ComissĂŁo de Direitos Humanos da CLDF, Keka Bagno, a conselheira do Conselho Regional de Psicologia, Thessa GuimarĂŁes, as representantes do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate Ă Tortura Carolina Lemos e Camila Antero, e o professor da UnB Pedro Costa, alĂ©m de representantes do MinistĂ©rio dos Direitos Humanos (MDH).
PrisÔes
TrĂȘs homens, de 40, 46 e 49 anos, foram presos pela PolĂcia Civil do DF (PCDF), que foi acionada pela CDH logo apĂłs a visita. Eles sĂŁo responsĂĄveis pela unidade do Lago Oeste.
A 35ÂȘ Delegacia de PolĂcia (Sobradinho) ouviu 27 internos da unidade terapĂȘutica nessa terça-feira (16/9) e, depois das oitivas, prenderam em flagrante os coordenadores. Eles responderĂŁo pelo crime de cĂĄrcere privado.
Cinco mortos e 12 feridos
- O Instituto Liberte-se passou a ficar conhecido quando, na madrugada de 31 de agosto, a unidade do NĂșcleo Rural BoqueirĂŁo, no ParanoĂĄ, pegou fogo.
- Na ocasião, cinco pessoas morreram, e 12 ficaram feridas. Darley Fernandes de Carvalho, José Augusto, Lindemberg Nunes Pinho, Daniel Antunes e João Pedro Santos faleceram carbonizadas.
- Aquela unidade funcionava sem alvarĂĄ, segundo a Secretaria DF Legal.
- Em depoimento Ă PCDF, o proprietĂĄrio do Instituto TerapĂȘutico Liberte-se, Douglas Costa Ramos, 33 anos, confirmou que a Ășnica porta de entrada e saĂda da clĂnica estava trancada com cadeado, em razĂŁo de furtos anteriores sofridos.
- Douglas confessou ainda que nĂŁo possuĂa as licenças necessĂĄrias para permitir que a unidade do BoqueirĂŁo estivesse funcionando.
O MetrĂłpoles tentou contato com o Instituto novamente, para ouvir a entidade a respeito dos apontamentos da ComissĂŁo de Direitos Humanos. O ĂłrgĂŁo, no entanto, nĂŁo havia dado retorno atĂ© a Ășltima atualização desta reportagem. O espaço segue aberto.

