Coluna Política – Quando a defesa se torna acusação
No tribunal, muitas vezes, não é a acusação que surpreende, mas a própria defesa que entrega a chave do processo. Foi exatamente isso que ocorreu nos primeiros dias do julgamento de Jair Bolsonaro no núcleo 1 da trama golpista. Ao tentar salvar o general Paulo Sérgio, seu advogado acabou cravando a frase que pode pesar mais que qualquer denúncia formal: o então ministro da Defesa trabalhou intensamente para impedir o presidente de dar um golpe.
Essa fala é uma confissão indireta, mas devastadora. Confirma que havia uma ideia golpista em curso e que ela só não avançou porque um aliado de confiança agiu como freio de última hora. É como se o general tivesse apagado o fósforo na mão do presidente antes que ele incendiasse o país.
Politicamente, o estrago é imediato. No Congresso, os aliados que ainda sustentam Bolsonaro em público já cochicham nos corredores sobre os riscos de carregar um líder que se torna, a cada semana, mais radioativo. Não é apenas a sobrevivência eleitoral que preocupa, mas a associação a um projeto de poder que agora se revela, em detalhes, como ameaça direta à democracia.
Mas essa não é apenas uma disputa interna. O governo de Donald Trump observa de perto e joga pesado. As tarifas impostas aos produtos brasileiros e as pressões diplomáticas são sinais de que Washington não hesitará em retaliar. Para Trump, Bolsonaro é peça útil: um aliado que garante interesses norte-americanos diante de um Brasil que ousa se aproximar da China e ampliar sua autonomia no cenário global. O recado é claro — se Bolsonaro cair, o custo político e econômico pode recair sobre o país inteiro.
Esse entrelaçamento entre tribunal e geopolítica transforma o julgamento em algo maior que a sorte de um ex-presidente. O que está em jogo é a soberania brasileira. De um lado, uma democracia que tenta se defender das próprias fraturas internas; de outro, uma potência que age como se o Brasil fosse quintal, incapaz de suportar nossa independência crescente.
No fim, a imagem que fica é paradoxal: um general que precisou proteger a democracia de seu próprio presidente, enquanto um aliado estrangeiro tenta tutelar o destino de um país soberano. É nesse cruzamento de fraquezas internas e pressões externas que o Brasil decidirá se seguirá sendo refém de líderes personalistas e de interesses coloniais, ou se terá coragem de construir, de fato, sua própria história.

