Ícone do site ContilNet Notícias

Laurent Freixe, CEO da Nestlé, é demitido por conflito em relacionamento amoroso

Por Mix Vale

Nestlé, gigante suíça do setor de alimentos, anunciou a demissão imediata de seu CEO, Laurent Freixe, em 1º de setembro de 2025, em Vevey, Suíça, após uma investigação revelar que ele manteve uma relação amorosa não declarada com uma subordinada direta, violando o código de conduta da empresa.

A decisão, liderada pelo presidente do conselho, Paul Bulcke, e pelo diretor independente Pablo Isla, com apoio de consultores jurídicos externos, foi desencadeada por uma denúncia feita pelo canal de ética da companhia. Philipp Navratil, executivo de longa data da Nestlé, foi nomeado como substituto imediato. A medida reforça o compromisso da empresa com seus valores de governança, em meio a um cenário de pressões por crescimento e reestruturação interna. Freixe, que assumiu o cargo em setembro de 2024, não receberá pacote de saída.

Laurent Freixe, CEO da Nestlé/Foto: Divulgação

A investigação confirmou que a relação, embora consensual, representava um conflito de interesse devido à posição hierárquica da funcionária, que não integra o conselho executivo. A Nestlé destacou que a decisão foi necessária para manter a integridade de suas políticas internas.

Governança corporativa em foco

A demissão de Laurent Freixe coloca a Nestlé sob os holofotes em um momento em que grandes corporações enfrentam escrutínio crescente sobre transparência e ética. A empresa, conhecida por marcas como KitKat, Nescafé e Perrier, reforçou que a violação do código de conduta, que exige a divulgação de relações pessoais no ambiente de trabalho, foi o motivo central da decisão. O canal de denúncias “Speak Up”, operado de forma independente, foi crucial para identificar o problema, demonstrando a eficácia dos mecanismos internos de compliance. A Nestlé informou que a investigação foi conduzida de forma imparcial, com apoio de consultores jurídicos externos, garantindo que não houvesse conflitos de interesse no processo.

A escolha de Philipp Navratil, que ingressou na Nestlé em 2001 como auditor interno, reflete a intenção da empresa de manter a continuidade. Navratil, que liderava a unidade de café Nespresso desde julho de 2024, é descrito como um líder colaborativo, com experiência em mercados como América Central e México. Sua nomeação imediata sinaliza confiança na capacidade de manter o ritmo de desempenho, especialmente em um contexto de desafios econômicos globais, como inflação e aumento de custos.

Reações do mercado e investidores

A notícia da demissão de Freixe gerou reações mistas no mercado. Embora as ações da Nestlé tenham recuperado parte de seu valor após o anúncio, analistas apontam que a segunda troca de CEO em um ano pode levantar preocupações sobre estabilidade. A empresa, que opera em 81 mercados e tem 35,2% de suas vendas nos Estados Unidos, 24,1% na Europa e 26,9% na Ásia, enfrenta pressões para manter margens de lucro em meio a custos crescentes.

A transição para Navratil ocorre em um momento delicado, com a Nestlé implementando um programa de corte de custos que visa economizar 700 milhões de francos suíços em 2025. A empresa já garantiu 150 milhões no primeiro semestre e espera mais 350 milhões no segundo. A estratégia, iniciada sob Freixe, inclui transformação digital e maior foco no mercado chinês, o segundo maior da companhia.

Histórico de Freixe na Nestlé

Laurent Freixe, com quase 40 anos na Nestlé, era visto como um “insider” com conhecimento profundo da organização. Ele assumiu o cargo de CEO após a saída de Mark Schneider, em setembro de 2024, com a missão de revitalizar o crescimento após um período de desempenho aquém do esperado. Freixe ocupou cargos em mercados como Hungria, Espanha e América Latina, destacando-se por sua proximidade com equipes e conhecimento operacional. Sua demissão, no entanto, evidencia a rigidez das políticas de governança da Nestlé, que não toleraram a falha em divulgar a relação pessoal.

A decisão da empresa de não oferecer um pacote de saída a Freixe reforça a mensagem de que violações éticas, mesmo em casos consensuais, têm consequências severas. A Nestlé informou que a funcionária envolvida não será demitida, mas não divulgou detalhes adicionais sobre seu papel ou status atual.

Tendências em ética corporativa

A demissão de Freixe insere-se em uma tendência mais ampla de grandes empresas reforçando políticas de ética no ambiente de trabalho. Casos semelhantes já custaram o cargo de outros executivos de alto perfil.

Na BP, o CEO Bernard Looney deixou o cargo em 2023 após admitir falta de transparência sobre relações pessoais. Na McDonald’s, Steve Easterbrook foi demitido em 2019 por uma relação consensual, mas investigações posteriores revelaram outras violações, resultando na devolução de um pacote de 105 milhões de dólares. Esses casos ilustram como as empresas estão mais atentas a questões de governança, especialmente após o movimento #MeToo, que intensificou o foco em transparência e prevenção de abusos de poder.

Desafios de Navratil à frente da Nestlé

Philipp Navratil assume a liderança em um momento de transformação para a Nestlé. Com experiência em auditoria e gestão comercial, ele já liderou iniciativas de crescimento em marcas como Nescafé e Starbucks. Sua nomeação é vista como uma aposta na continuidade, mas também traz expectativas de inovação em áreas como transformação digital e sustentabilidade.

A Nestlé enfrenta desafios como a pressão por margens de lucro em um cenário de inflação global e a necessidade de avançar em metas ambientais, como embalagens recicláveis e redução de emissões. Navratil também precisará manter o foco na expansão em mercados estratégicos, como a China, onde a empresa busca aumentar a demanda do consumidor.

Repercussão pública e debates éticos

A demissão de Freixe gerou debates sobre o equilíbrio entre privacidade e responsabilidade profissional. Alguns defendem que relações pessoais, quando consensuais, não deveriam levar a demissões, enquanto outros destacam a importância de evitar qualquer percepção de favoritismo. A Nestlé, que já enfrentou críticas por questões como trabalho infantil em cadeias de cacau e fraudes em sua divisão de água mineral, busca reforçar sua imagem de governança sólida.

A decisão de agir rapidamente após a denúncia, com uma investigação conduzida por membros do conselho e apoio externo, foi elogiada por analistas como um sinal de compromisso com a transparência. No entanto, a sucessão de mudanças na liderança pode gerar incertezas entre investidores, que aguardam os resultados financeiros do último trimestre de 2025 para avaliar o impacto da transição.

Futuro da liderança na Nestlé

A nomeação de Navratil sinaliza que a Nestlé prioriza a estabilidade estratégica, mas o novo CEO terá que provar sua capacidade de liderar em um ambiente competitivo. Sua experiência na unidade de café, um dos segmentos mais lucrativos da empresa, é um ponto a seu favor. A Nestlé informou que não haverá mudanças na estratégia atual, mas analistas esperam que Navratil acelere iniciativas de inovação, especialmente em categorias como saúde e nutrição.

A empresa também enfrenta pressões externas, como críticas por práticas ambientais e trabalhistas. Navratil terá que equilibrar metas financeiras com a necessidade de melhorar a reputação da Nestlé, especialmente em mercados sensíveis a questões éticas.

Sair da versão mobile