O presidente da Cùmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), voltou a defender a chamada PEC da Blindagem, ou PEC das Prerrogativas, nesta segunda-feira (22), dia seguinte aos protestos que levaram milhares de pessoas às ruas de todas as capitais do Brasil. 

Para Motta, o debate foi distorcido e a PEC nĂŁo teria sido articulada para blindar parlamentares de processos por âcrimes comunsâ, como afirmam os crĂticos, mas sim para conter supostos excessos do JudiciĂĄrio contra deputados.Â
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âNĂłs temos deputados sendo processados por crimes de opiniĂŁo, temos deputados sendo processados por discursos na Tribuna, temos deputados sendo processados por uso das redes sociais. Essa Ă© a realidade do paĂs hojeâ, disse Motta durante evento promovido pelo banco BTG Pactual.
Os aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado, tĂȘm sustentado que eles estĂŁo sendo âperseguidosâ por apenas âemitir opiniĂŁoâ no contexto do julgamento do STF da trama golpista.Â
O argumento Ă© rejeitado por ministros da Corte, que qualificam o movimento golpista como tentativa de anular uma eleição legĂtima e manter Bolsonaro no poder contra a vontade popular, crimes previstos na legislação. Â
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Ainda segundo Motta, a discussĂŁo da PEC da Blindagem foi âdistorcidaâ e atualmente, com a força das redes sociais, o Parlamento nĂŁo seria blindado contra crimes comuns.
âQuando Ă© que vamos ter um crime comum cometido por quem quer que seja, sair impune, ainda mais por um parlamentar? Ă claro que a CĂąmara nĂŁo vai aliviar para um parlamentar que cometa um crime comum, seja ele qual forâ, completou.
O advogado e jurista Marco AurĂ©lio de Carvalho, coordenador do Grupo Prerrogativas, ponderou Ă AgĂȘncia Brasil que a imunidade parlamentar nĂŁo pode ser usada para proteger pronunciamentos que envolvam calĂșnia, injĂșria, ataques Ă democracia ou tentativa de obstrução de ação penal, como Ă© o caso de alguns deputados.
âNĂŁo podemos, evidentemente, criminalizar a opiniĂŁo que Ă© fruto do debate polĂtico honesto, franco, transparente e direto. Mas opiniĂ”es que, na verdade, de alguma forma, carregam Ăłdio, intolerĂąncia, crimes contra a honra, como calĂșnia, difamação, injĂșria e outras tantas coisas, tĂȘm que ser examinadas Ă luz da legislação. E o mandato nĂŁo pode ser, digamos, uma salvaguarda para cometimento de crimesâ, comentou.
Os protestos desse domingo tiveram, entre os principais alvos, o atual presidente da CĂąmara por seu papel na aprovação da PEC da Blindagem. Os crĂticos argumentam que a proposta foi costurada para proteger os parlamentares contra processos criminais.
A ComissĂŁo de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado pautou a PEC para prĂłxima quarta-feira (24), com expectativa de rejeitar o projeto apĂłs a repercussĂŁo negativa.Â
Anistia e dosimetria
Motta tambĂ©m defendeu a redução de penas para os condenados pelos eventos que culminaram no 8 de janeiro de 2023. Para ele, se esse debate nĂŁo for superado, âmuito dificilmente a CĂąmara vai produzir normalmenteâ.
âO que a CĂąmara quer construir Ă© dentro das regras legais do paĂs, reconhecendo o papel que o Supremo cumpriu naquele episĂłdio triste que foi o 8 de janeiro, procurando sim imputar Ă quelas pessoas que foram lĂĄ quebrar, depredar, aquelas pessoas que armaram, por exemplo, planos para matar pessoasâ, ponderou.
Para Motta, Ă© possĂvel uma mudança na lei penal para rever penas que o Congresso entende que foram exageradas.
â[Caso essa solução seja aprovada] que o prĂłprio Poder JudiciĂĄrio [possa] fazer uma reinterpretação dessas penalidades e, quem sabe, mandar essas pouco mais de 180 pessoas que estĂŁo presas hoje para casaâ, disse.
O presidente da CĂąmara concluiu que essa Ă© uma boa solução para âdistensionar um pouco esse ambiente polĂtico e poder, a partir daĂ, ter outra pautaâ que, segundo ele, nĂŁo seja âtĂłxicaâ para o paĂs.
O relator do projeto de lei sobre o tema, deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), tem dado declaraçÔes de que o texto nĂŁo deve discutir a anistia, que seria um perdĂŁo dos crimes, mas sim uma redução das penas por meio de nova dosimetria dos crimes cometidos.Â
Blindagem ou Prerrogativas
A PEC da Blindagem ganhou força na CĂąmara, apĂłs açÔes do Supremo Tribunal Federal (STF) contra parlamentares envolvidos na tentativa de golpe de Estado que culminou no 8 de janeiro de 2023 e tambĂ©m com o crescimento de inquĂ©ritos para investigar a execução de emendas parlamentares, recursos pĂșblicos da ordem de RS 50 bilhĂ”es anuais sob controle do Legislativo.Â
Com a prisĂŁo domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, a oposição ocupou os plenĂĄrios da CĂąmara e do Senado, impedindo os trabalhos da Casa e exigindo, entre outras pautas, o aumento das prerrogativas dos parlamentares contra açÔes do STF.Â
Por outro lado, especialistas e organizaçÔes que atuam no tema do combate à corrupção alertam que a proposta pode barrar açÔes contra corrupção no uso das emendas parlamentares.
O fim da exigĂȘncia de autorização prĂ©via do Parlamento para processos criminais contra deputados e senadores foi aprovada por Emenda Constitucional em dezembro de 2001, apĂłs centenas de casos de impunidade chocarem a opiniĂŁo pĂșblica ao longo de toda a dĂ©cada de 1990.

