Os números de suicídios no Acre em 2025 acendem um sinal de alerta em pleno Setembro Amarelo. De acordo com o Relatório de Mortes Violentas Intencionais, da Polícia Civil, de janeiro a julho deste ano, já foram registradas 66 mortes. O total representa quase 71% de todos os casos contabilizados em 2024, quando o estado fechou o ano com 93 registros.
A psicóloga Samara Pinheiro, em entrevista ao ContilNet, explica que campanhas como o Setembro Amarelo, criado em 2015, são fundamentais para dar visibilidade ao tema e fortalecer a valorização da vida. “Não é apenas sobre falar de suicídio em setembro, mas abrir espaço para conscientização todos os dias. O silêncio só alimenta o preconceito e afasta quem precisa de ajuda”, disse.

Setembro Amarelo chega ao Acre com alerta para jovens, maioria entre as vítimas de suicídio/ Foto: Ilustrativa
Ela ressalta que familiares e amigos devem estar atentos a sinais como isolamento, frases de desesperança, mudanças de comportamento, descuido com a higiene pessoal e até despedidas simbólicas.
“A família, principalmente quem está convivendo com a pessoa, ela pode ter as crenças dela, pode ter o pensamento dela, seja cultural, seja religioso, Mas a coisa mais importante é despir do que nós achamos E prestarmos um acolhimento, uma escuta. Principalmente perguntar como é que a pessoa está se sentindo: Tem alguma forma que eu possa aliviar a sua angústia? Tem alguma forma que eu possa te auxiliar? que eu possa, tem alguma coisa que eu possa fazer para que alivie um pouco o que você está sentindo. A outra questão também é sempre pontuar que nós estamos ao lado daquela pessoa, mesmo que ela não queira falar sobre”, explica.
Aumento expressivo em 2025
A análise comparativa mostra que, em alguns meses, houve aumento expressivo em relação ao ano anterior. Em fevereiro, por exemplo, o número de suicídios saltou de 4 casos em 2024 para 13 em 2025, um crescimento de 225%. Abril também apresentou alta significativa: de 4 para 12 ocorrências, o que representa 200% de aumento.

No Acre, a maior parte das vítimas segue concentrada entre 18 e 39 anos, faixa etária que somou 62,37% dos casos em 2024. Para Samara Pinheiro, existe a necessidade de olhar com mais atenção para a saúde mental e aos sinais.
“É importante nós pensarmos também que o sofrimento é muito subjetivo, porque antes tinha o mito de que toda pessoa que vai optar pelo suicídio dá sinais. E algumas vezes esses sinais não são dados. Mas nós temos alguns, como por exemplo, desânimo, falta de prazer nas atividades. Então antes ela gostava muito de fazer tal coisa, hoje ela já não tem mais essa vontade de fazer essa atividade. Há alguns sinais pra gente ficar em alerta quando as pessoas começam a falar: eu queria acabar com tudo, perdi a vontade de viver, o mundo seria melhor sem mim. Então são frases que as pessoas falam. Dá pra gente ficar um pouco atento a esses sinais”, ressaltou.
Quem enfrentar sofrimento emocional pode buscar atendimento em unidades básicas de saúde, CAPS, prontos-socorros ou ligar para o Centro de Valorização à Vida (CVV), no 188, serviço gratuito e disponível 24 horas.
Confira a entrevista completa:
A quem recorrer quando uma pessoa percebe que não está bem emocionalmente, mas não sabe por onde começar?
Hoje nós temos alguns dispositivos, até mesmo a atenção básica como o posto, pode também auxiliar nesse processo, mas nós temos leito de saúde mental, Pronto-Socorro, nós temos CAPS-Samauma, porque o CAPS-Samauma, ele vai atender pessoas com transtornos mentais graves e persistentes. Já diferente do CAPS-AD3, que vai atender pessoas com transtornos mentais, mas devido ao uso e abuso de outras drogas. Mas nós também temos alguns dispositivos, como por exemplo, o Centro de Valorização à Vida, que é 188. Tem psiquiatras, psicólogos que podem auxiliar nesse processo.
O que a escola e o ambiente de trabalho podem fazer para contribuir na prevenção?
Então, fazer campanhas, aproveitar o setembro, mas não só o setembro, mas trazer ali para o ambiente de trabalho, por mais que nós saibamos que tem alguns trabalhos que são mais tensos, que tem um estresse maior do que outros trabalhos, mas falar sobre isso, falar sobre os sentimentos, falar sobre as emoções. Na escola também tem profissionais que podem fazer palestras para falar com os adolescentes, com as crianças sobre suicídio. Proporcionar um ambiente que tenha ali no mínimo A qualidade para a pessoa estar naquele trabalho, seja ali um cantinho para ter um relaxamento, um descanso, valorizar aquele profissional e valorizar aquela criança, aquele adolescente, aquela pessoa que está na escola também.
O uso das redes sociais pode aumentar a vulnerabilidade emocional? Como equilibrar esse impacto?
Então, sobre as redes sociais, aumentar a vulnerabilidade emocional, com certeza isso pode acontecer muito, tanto por conta das comparações sociais que eles vão fazer e que são constantes, no exemplo, de pessoas que têm a vida perfeita, então cada vez que elas observam isso, aumenta o sentimento de inadequação. Ou então, nossa, a pessoa está sempre feliz, tudo acontece de boa na vida dessa pessoa e na minha vida não acontece nada. Dentro das redes sociais, infelizmente, a gente vê também muita exposição de discurso de ódio e bullying. Então, eles falam, geralmente, sobre também conteúdos nocivos, como romantização da tristeza, automutilação, suicídio, que pode funcionar como gatilho para a pessoa. E também sobre a questão do excesso de tempo, porque pode reduzir o sono, o lazer. A pessoa começa a ficar só nas redes sociais, ela não sai mais, ela não interage mais com as pessoas de forma presencial.
Quais estratégias de cuidado com a saúde mental cada pessoa pode adotar no dia a dia como forma de prevenção?
Geralmente as pessoas pensam que precisam fazer algo extraordinário para poder cuidar da saúde mental, e não é bem assim, como, por exemplo, ter uma rotina equilibrada, então, ter um horário ali para dormir, para acordar, se alimentar, ficar nas redes sociais, o sono de qualidade, que é muito importante, pelo menos ali, sete a oito horas de descanso, ter uma alimentação saudável, até porque, quando nós falamos de alimentação, nós falamos também sobre o consumo excessivo de álcool, né? e o álcool acaba deprimindo. Então, se a pessoa já tem uma ideação suicida ou tem um humor mais rebaixado com excesso de álcool ou outra substância, isso pode potencializar o suicídio. Mas, enfim, voltando aqui para a prevenção. Aí tem atividade também física regular, então a pessoa pode caminhar. Então, parte da espiritualidade, se estiver sendo saudável pra você também é importante.
Que mensagem você deixaria para quem está enfrentando um momento de dor e pensa que não há saída?
Eu trabalho com saúde mental há bastante tempo e já perdi três pacientes para o suicídio, algo que moveu muito, mexeu muito comigo mesmo. Mas nós psicólogos também passamos por psicólogos e a vida vai seguindo. Mas assim, a mensagem que eu deixo é que se você está passando por um momento, que você vê que a dor não dá trégua, que você não tem saída, que não tem uma luz no fim do túnel, é importante falar que você não está sozinho. Pode ser difícil acreditar agora, mas existe ajuda e também pedir ajuda faz diferença.
