Thor Dantas relembra período da pandemia e alerta para futuro: “Sob risco de viver de novo”

O médico ressaltou que a sociedade precisa transformar o sofrimento em aprendizado para futuras crises

O infectologista e hepatologista Thor Dantas voltou a falar sobre os impactos da pandemia de Covid-19, durante entrevista concedida ao podcast Em Cena, do ContilNet, na última segunda-feira (23). Segundo ele, o período deixou marcas profundas não apenas no sistema de saúde, mas também na vida social e emocional da população.

Thor relatou a dificuldade de lidar com a quantidade de mortes em tão pouco tempo. Para ele, essa foi a experiência mais dolorosa de sua trajetória profissional.

Thor lembrou que além das vítimas da Covid-19, muitas pessoas enfrentaram problemas mentais e agravamento de doenças crônicas | Foto: ContilNet

“A memória da pandemia, que é uma memória que está muito recente na nossa vida, na vida de todos. A pandemia foi o momento mais difícil da minha vida até agora. Foi um momento terrível, terrível aquilo que a gente viveu. A gente tende a se esquecer rápido das coisas, mas eu nunca sofri tanto na minha vida, por ver tanta gente morrendo ao mesmo tempo, da mesma coisa. Morrer todos nós vamos um dia, isso é natural, nascer, viver e um dia morrer. Mas não é natural todo mundo morrer ao mesmo tempo, da mesma coisa, de uma forma tão concentrada”,  relembrou.

Na entrevista, o especialista descreveu, ainda, o avanço da doença pelo mundo, lembrando a rapidez com que o vírus se espalhou entre os continentes.

“Foi um momento realmente muito trágico e de uma coisa nova, de uma doença que não existia e passa a existir e se espalha pelo mundo de uma forma rápida, como uma pólvora queimando. Você vê, tomando conta do mundo, e você os sistemas de saúde colapsando um após o outro. Chegou na Europa, aquela mortandade na Europa. Chegou nos Estados Unidos, Nova Iorque, fechou a cidade, as pessoas foram embora da cidade com medo de morrer. Depois chega na América do Sul, o estrago que fez na cidade do México, na Colômbia, Peru, de pessoas morrendo na rua. Depois chega Rio São Paulo, depois chega no Acre. A gente teve aqui um pouco de, digamos assim, vantagem, porque a gente foi um dos últimos lugares até essa onda chegar”, ressaltou.

Aquilo foi terrível e deixou marcas em todo mundo.

Segundo ele, quando a pandemia chegou ao Acre, o estado conseguiu se preparar um pouco mais por ter acompanhado previamente os efeitos devastadores em outros países e regiões do Brasil. “A gente teve a capacidade de se preparar melhor, de antever o que a gente sabia que ia viver quando ela chegasse aqui. A gente compôs um comitê de gestão da crise na universidade, chamamos todos os especialistas, os matemáticos, os epidemiologistas, o pessoal da saúde, o pessoal do planejamento”.

O médico destacou que esse trabalho de planejamento envolveu cálculos sobre número de casos, leitos de UTI e até oxigênio necessário para suportar a crise.

“Foi um momento muito interessante aquele de juntar toda a intelectualidade da universidade para planejar aquele momento. Olha, vão ser tantos casos, daqui a tantos dias o sistema colapsa, a gente vai precisar de tantos leitos de UTI, a gente vai precisar de tanto de oxigênio”, destacou.

Se a gente não trouxer para o aprendizado que a gente viveu, estamos primeiro, sob risco de viver de novo.

Apesar das medidas, a tragédia deixou marcas em toda a população. Thor lembrou que além das vítimas da Covid-19, muitas pessoas enfrentaram problemas mentais e agravamento de doenças crônicas. Com isolamento o social imposto atingindo, de forma particular, os idosos e os adolescentes.

“Tem gente que ficou com sequelas graves, mentais, porque vem o que a gente chama de sindemia. (…) Afetou drasticamente os idosos e os jovens. (…) E as doenças crônicas, é quem tinha diabetes, pressão alta, câncer, já não conseguia controlar a sua doença. Os idosos, porque no fim da vida, cada dia é um dia menos da vida dele, e o idoso precisa desse contato. (…) E o jovem, porque o jovem imagina o momento da vida que ele está do encontro, de sair, de ver amigos, e teve que ficar”, exemplificou.

Ao refletir sobre as lições deixadas pela pandemia, Thor ressaltou que a sociedade precisa transformar o sofrimento em aprendizado para futuras crises.

“A gente tem que levar isso como aprendizado. Se a gente não trouxer para o aprendizado que a gente viveu, estamos primeiro, sob risco de viver de novo, porque epidemias de vírus respiratórios acompanham a gente ao longo da história. A história conta, essa não foi a primeira e não vai ser a última. Outros vírus virão. E se a gente não tiver o aprendizado para levar para a próxima epidemia, a gente não fez o que a gente deveria ter feito, não vai ter honrado aqueles que se foram, que não estão aqui mais com a gente. A gente precisa honrar a memória daqueles que sofreram, que trabalharam, que lutaram para cuidar dos doentes. Eu acho que a gente honra a memória de todo mundo trazendo para o aprendizado, para não passar pelos mesmos erros da próxima vez”, alertou.

Veja o vídeo:

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