Aposta do governo federal para enfrentar o problema da segurança pĂșblica, a Proposta de Emenda Ă Constituição (PEC) 18 de 2025 vem sofrendo resistĂȘncias no parlamento e por parte de governadores, em especial, contra dispositivo que atribui Ă UniĂŁo a elaboração do plano nacional de segurança pĂșblica que deverĂĄ ser seguido pelos estados e Distrito Federal.

Ao mesmo tempo, a PEC Ă© considerada tĂmida por especialistas, que defendem reformas mais profundas na ĂĄrea de segurança pĂșblica do Brasil, apesar de reconhecerem que a proposta do Executivo Ă© o 1Âș passo para mudar o quadro atual.
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Em audiĂȘncia nesta quinta-feira (30) na CĂąmara dos Deputados, o relator deputado Mendonça Filho (UniĂŁo-PE), ex-ministro do governo de Michel Temer, disse que a PEC Ă© tĂmida e criticou o que chamou de âcentralizaçãoâ da polĂtica de segurança pĂșblica.
âMe diga um lugar no mundo onde um paĂs de dimensĂ”es continentais vocĂȘ tem centralização a nĂvel federal da polĂtica de segurança pĂșblica. NĂŁo existe isso. VocĂȘ tem que ter cooperação e colaboração. Esse Ă© o espĂrito que eu vou enfatizar no meu relatĂłrioâ, explicou o deputado Ă AgĂȘncia Brasil.
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O governo federal tem argumentado que a PEC mantém as autonomias das forças de segurança estaduais e distrital.
A expectativa é que a matéria seja votada em Comissão Especial na primeira semana de dezembro, segundo previsão do presidente da Comissão, o deputado Aluisio Mendes (Republicanos-MA).
A PEC da Segurança PĂșblica ganhou destaque, nesta semana, apĂłs repercussĂŁo da operação Contenção no Rio de Janeiro, onde mais de 120 pessoas foram assassinadas, incluindo quatro policiais em serviço, nos complexos da Penha e do AlemĂŁo, onde vivem mais de 400 mil pessoas, levando pĂąnico a toda cidade.
Confira as informaçÔes do Repórter Brasil Tarde, da TV Brasil, sobre a tramitação da PEC
EspecialistasÂ
O policial federal e conselheiro do FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica, Roberto UchĂŽa, destacou Ă AgĂȘncia Brasil que a PEC nĂŁo seria capaz de evitar o que ocorreu no Rio, uma vez que as mudanças exigidas sĂŁo muito mais profundas que as previstas na proposta.
â[A PEC] pode ser considerada um pontapĂ© inicial. Desde 1988, Ă© a primeira vez que vai se mexer na estrutura de segurança pĂșblica. Mas Ă© preciso fazer muito mais se a gente quiser, realmente, um sistema de justiça criminal que funcione minimamente, em que a população possa confiar nas instituiçÔes policiais, porque hoje nĂŁo confiaâ, destacou o doutorando em segurança pĂșblica.
Na avaliação do cientista social Robson Rodrigues, pesquisador do LaboratĂłrio de AnĂĄlise da ViolĂȘncia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (LAV/UERJ), um ato normativo, como uma PEC, poderia ter evitado a matança no Rio de Janeiro.
âTem que se louvar o reconhecimento do governo federal, embora tardiamente, de que a responsabilidade nĂŁo Ă© sĂł dos estados, mesmo porque o crime se modificou bastante. Mas [a PEC] ainda estĂĄ muito aquĂ©m de ser uma solução do problemaâ, afirmou.
Por outro lado, Robson lamentou que a PEC deu espaço para disputas polĂticas dentro do Congresso que dificultam a construção de saĂdas para o problema atual da criminalidade.
â[A PEC] Ă© tĂmida e mais forneceu palanque para disputas polĂticas do que outra coisa. Evidentemente, hĂĄ coisas para se consertar, mas as discussĂ”es sĂŁo estĂ©reis, nĂŁo tocam nos verdadeiros problemas e nĂŁo avançam na proposta de integração que eu acho importante, ou de financiamento da segurançaâ, pontou o especialista.
Robson Rodriguez destaca que Ă© preciso âcolocar em prĂĄticaâ aquilo que a PEC sugere, que Ă© uma maior integração das forças de segurança, e sugeriu que o governo faça um projeto piloto em estados âaliadosâ do Planalto que tambĂ©m enfrentam graves problemas com facçÔes criminosas, como CearĂĄ e Bahia.
âA partir desse piloto, poderĂamos tirar conclusĂ”es que possam ser generalizadas para outras unidades da federação. Pode ser muito mais interessante para as pessoas verem as coisas se resolverem da forma como tem sido colocado no discurso do governoâ, completou.
Por sua vez, o presidente da Associação dos Delegados de PolĂcia do Brasil (Adepol), Rodolfo Laterza, destacou que a PEC nĂŁo resolve as causas fundamentais da criminalidade e pode causar problemas ao sobrecarregar a PolĂcia Federal caso concentre todos os casos envolvendo facçÔes e milĂcias no Ăąmbito da UniĂŁo.
âOs colegas da Federal estĂŁo angustiados com essa exclusividade. Dos 50 mil homicĂdios no Brasil, dois terços sĂŁo ligados a organizaçÔes criminosas. A consequĂȘncia disso, se ficar exclusivo [Ă PF], Ă© que centenas de milhares de inquĂ©ritos, da noite para o dia, vĂŁo para a PF e para a Justiça Federalâ, ponderou.
Proposta
A principal proposta da PEC 18 de 2025, segundo o governo, Ă© consolidar a integração das forças de segurança federais, estaduais e municipais, jĂĄ iniciada por meio do Sistema Ănico de Segurança PĂșblica (SUSP), criado por lei infraconstitucional e que seria colocado na Constituição pela PEC.
A proposta estabelece que a UniĂŁo seja a responsĂĄvel por elaborar a polĂtica nacional de segurança pĂșblica, âcujas diretrizes serĂŁo de observĂąncia obrigatĂłria por parte dos entes federados, ouvido o Conselho Nacional de Segurança PĂșblica e Defesa Social, integrado por representantes da UniĂŁo, dos Estados, do Distrito Federal e dos MunicĂpiosâ. Â
Outras medidas sĂŁo a constitucionalização do Fundo de Segurança PĂșblica, alĂ©m de mudanças na PolĂcia RodoviĂĄria Federal (PRF) para que ela seja uma polĂcia ostensiva e possa prestar apoio a governos estaduais, quando solicitado.
A PEC tambĂ©m reforça o papel da PolĂcia Federal no combater Ă s facçÔes criminosas e milĂcias privadas; e amplia o papel das guardas municipais, como policiamento ostensivo e comunitĂĄrio. Atualmente, essas guardas podem apenas fazer a segurança dos prĂ©dios municipais.  Â
Centralização ou Integração
O presidente da Adepol, Rodolfo Laterza, critica o fato da PEC conceder Ă Â UniĂŁo competĂȘncia exclusiva para elaborar o Plano Nacional de Segurança PĂșblica.
âDeveria ser uma competĂȘncia concorrente, mantendo a competĂȘncia suplementar dos Estados. Pelo fato de estar em competĂȘncia exclusiva da UniĂŁo, os estados nĂŁo vĂŁo ter a condição de ter a sua competĂȘncia prĂłpria. Por mais fantĂĄstico e letrado sejam os burocratas, eles nĂŁo vĂŁo saber definir a realidade criminolĂłgica de 27 entes federadosâ, afirmou o policial mestre em segurança pĂșblica.
Na avaliação de outros especialistas, a PEC aponta para o caminho da integração, e nĂŁo de uma centralização, como apontam crĂticos.
O policial federal Roberto UchÎa defendeu que é preciso colocar o governo federal na liderança do combate às facçÔes criminosas e organizaçÔes hoje transnacionais.
âJĂĄ ficou mais do que evidente que os governos estaduais, todos eles, nĂŁo conseguem mais resolver sozinhos os seus problemas de segurança pĂșblica. NĂŁo Ă© sobre tirar a autonomia dos estados, Ă© liderar um processo que pode envolver, por exemplo, em uma investigação, dois, trĂȘs, quatro estadosâ, explicou.
UchĂŽa citou o caso do governo de SĂŁo Paulo que rejeitou ajuda federal na investigação sobre o assassinato do delegado-geral da PolĂcia Civil pelo PCC.
âA PF se colocou Ă disposição para ajudar, mas o governo estadual negou. NĂŁo dĂĄ Ă© para o governo federal querer liderar um processo e estados recusarem por questĂ”es ideolĂłgicas ou por motivos eleitoreiros porque querem passar uma imagem de que resolvem o problema sozinho, quando a gente sabe que nĂŁo resolvem maisâ, completou.
Na avaliação do cientista social Robson Rodrigues, a PEC não cria essa centralização que vem sendo criticada.
âO ponto mais importante da PEC Ă© a integração e os estados sozinhos nĂŁo vĂŁo ter condiçÔes, nem legais, nem de competĂȘncias, para isso. As coisas acontecem muitas vezes fora das suas ĂĄreas de competĂȘncia, fora das suas unidades geogrĂĄficas. EstĂŁo querendo resistir [Ă PEC} por resistir. E aĂ quem perde Ă© a população. Ă uma resistĂȘncia irresponsĂĄvelâ, avaliou.


