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‘Bilingo’: projeto une tecnologia e povos indígenas para salvar línguas ancestrais em risco no Brasil

Por Redação

Um projeto inovador está usando a tecnologia como aliada na preservação das línguas indígenas brasileiras. Chamado “Bilingo”, o aplicativo tem como objetivo registrar e ensinar vocabulários, frases e histórias nas línguas dos povos Bororo (MT) e Makurap (RO) — dois idiomas considerados em risco de desaparecimento.

montagem bilingo — Foto: Reprodução

A iniciativa, sem fins lucrativos, reúne pesquisadores brasileiros e alemães, além de professores e jovens indígenas, que participam ativamente da coleta e gravação de palavras nas aldeias. O desenvolvedor do sistema, Gustavo Poletti, explica que o propósito é colocar o ensino nas mãos dos próprios povos, garantindo autonomia e preservação cultural.

“Queremos que professores das próprias comunidades possam criar e distribuir o aprendizado”, explica Poletti.


🌱 Línguas em risco e resistência cultural

Os Makurap, que vivem em Rondônia, pertencem à família linguística Tupari, do tronco Tupi, e hoje têm poucos falantes — em geral, pessoas mais velhas. Já os Bororo, do Mato Grosso, chamam sua língua de Wadáru, ligada ao tronco Macro-Jê, segundo o Instituto Socioambiental (ISA).

Dados do Censo 2022 mostram que o Brasil possui 295 línguas indígenas catalogadas, das quais 190 estão em risco de extinção, conforme o Atlas das Línguas em Perigo da Unesco. O país é o segundo no mundo com mais idiomas ameaçados, atrás apenas dos Estados Unidos.

A professora Heloisa Helena Siqueira Correia, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), destaca o valor simbólico do projeto:

“Essas ferramentas mostram que as comunidades não estão, e nunca estiveram, congeladas no tempo. São instrumentos que dialogam com o passado ancestral e fortalecem a autonomia dos povos no presente.”


📱 Como funciona o aplicativo

Inspirado em plataformas como Duolingo e Busuu, o Bilingo oferece jornadas temáticas de aprendizado, com seções sobre alfabeto, família, alimentação e natureza. Os exercícios incluem:

  • Tradução de palavras do português para a língua indígena;

  • Associação de sons e imagens;

  • Montagem de frases;

  • Prática de pronúncia com inteligência artificial, que analisa a fala do usuário.

O app também funcionará offline, permitindo o uso em áreas sem internet e garantindo que os dados fiquem sob controle das aldeias.

Segundo a jovem Jéssica Makurap, o aprendizado acontece de forma natural e colaborativa:

“Quando a gente pergunta a um tio ou avó como se diz algo e grava, já está aprendendo. O aplicativo ensina enquanto é construído.”


💬 Um aprendizado que nasce da comunidade

Além de servir como ferramenta educacional, o projeto incentiva a reaproximação dos jovens com suas línguas de origem. A coleta de palavras, histórias e mitos fortalece a transmissão entre gerações e devolve protagonismo às comunidades.

O linguista Fabrício Gerardi, da Universidade de Tübingen (Alemanha), reforça que o Bilingo também contempla recursos gramaticais para adultos e adaptações para diferentes contextos linguísticos — desde aldeias que ainda falam fluentemente a língua até aquelas em que o português já é predominante.


🔎 Como nasceu a ideia

O projeto surgiu durante o doutorado de Gustavo Poletti na USP, inspirado em iniciativas internacionais de revitalização linguística. Em 2024, ele se uniu a Fabrício Gerardi e à linguista Carolina Aragon, da UFPB, integrando esforços com as comunidades Bororo e Makurap.

Atualmente, o desenvolvimento está mais avançado entre os Bororo, enquanto em Rondônia a prioridade é o registro do vocabulário Makurap.

“O aplicativo é uma forma de aprender e, ao mesmo tempo, de manter viva a nossa cultura”, resume Jéssica Makurap.


Fonte: g1 / Instituto Socioambiental (ISA) / Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
✍️ Redigido por ContilNet

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