Há mais de dez anos, Nerian Brito da Rocha Sabóia de Araújo sonhava em voltar a andar. A perna direita, fraturada em um atropelamento em 2014, tornou-se símbolo de dor e limitações. Cada tentativa de dar passos era interrompida pela fratura exposta na tíbia. “Eu olhava meus filhos brincando e imaginava o dia em que poderia correr com eles”, lembra.
Nerian nunca conseguiu segurar os filhos/Foto: Cedida
O sonho finalmente se concretizou em setembro deste ano, quando Nerian se tornou a primeira paciente a receber um transplante de tecido ósseo realizado no Acre, no Hospital das Clínicas de Rio Branco. A cirurgia foi conduzida pelo ortopedista Nelson Marquezine, especialista em reconstrução óssea desde 2002.
“Esse transplante é indicado para pacientes que perderam grandes quantidades de osso e não conseguem regenerar. Antes, eles precisavam viajar para outros estados, afastando-se da família e do trabalho. Agora, o tratamento pode ser feito aqui”, explica.
Uma década de espera
O atropelamento mudou completamente a vida de Nerian. “Sofri fraturas nas duas pernas, e na direita a tíbia ficou exposta. Fiquei em cadeira de rodas, usei fixadores e passei por vários enxertos, mas não recuperei o osso. Faltavam sete centímetros de tíbia, e minha perna não tinha estabilidade. Era mole, solta”, detalha.
A fratura em uma das pernas de Nerian foi classificada como exposta/Foto: Cedida
Ao longo dos anos, Nerian passou por 13 cirurgias e chegou a ser encaminhada para tratamento em outro estado, interrompido devido à gravidez. “Sem condições financeiras de me manter em outro estado com uma criança pequena, adiei a cirurgia. Era um sonho distante”, lembra. A confirmação de que seria a primeira paciente a receber o transplante no Acre trouxe emoção imediata. “Chorei muito. Era a esperança que finalmente se tornava realidade”, conta.
O dia do renascimento
O procedimento exigiu técnica inovadora. “Ela já havia passado por inúmeras cirurgias, inclusive com retirada de enxertos da bacia e transporte ósseo, sem sucesso. O transplante era a alternativa eficaz. Operamos uma região já manipulada diversas vezes, mas a cirurgia ocorreu sem intercorrências”, detalha Marquezine.
O doutor buscou se especializar para realizar o procedimento no estado do Acre/Foto:Gleison Luz/Fundhacre
Três meses após a cirurgia, Nerian comemora os avanços. “Já faço fisioterapia e hidroginástica. Hoje dependo de muletas, mas espero andar sozinha em breve”, afirma. Além da recuperação física, a paciente destaca o impacto pessoal. “Nunca pude carregar minha filha no colo ou amamentar por causa das medicações. Hoje sou viúva e meus dois filhos são tudo para mim. Quero viver momentos que ainda não pude, como passeios, viagens e brincadeiras.”
Um marco para o Acre
O caso abre portas para outros pacientes. “Esse foi o primeiro de muitos. Já temos mais quatro pacientes na lista para este ano. Não é só um marco para o Acre, mas para toda a região Norte, mostrando que podemos oferecer procedimentos semelhantes aos grandes centros”, diz Marquezine.
A presidente da Fundhacre, Sóron Steiner, reforça a importância do procedimento. “Somos o único hospital transplantador do estado e já realizamos mais de 550 procedimentos, transformando vidas. Hoje, 278 pacientes aguardam transplantes de rim, fígado, córnea ou tecido ósseo. Cada doação significa esperança e recomeço”, afirma.
Soron Steiner enfatizou os avanços da Fundhacre com os transplantes/Foto: Gleison Luz/Fundhacre
O secretário de Saúde, Pedro Pascoal, também destaca o impacto social. “Como médico, sei o quanto um transplante muda vidas. O Estado investe fortemente em logística e conta com apoio do CIOPAER para transporte de órgãos. Mas tudo depende da doação. Hoje, 278 pessoas aguardam na fila. O gesto de doar é um ato de amor que transforma destinos”, diz.
Atualmente, o Acre tem 278 pacientes na fila de espera: 31 aguardam por rim, 29 por fígado, 210 por córnea e 8 por tecido musculoesquelético, evidenciando a importância das políticas de doação e transplante. É importante destacar que os números de pessoas na fila podem ser alterados rapidamente, e pode já não transparecer a situação atual.
O Secretário de Saúde, Pedro Pascoal diz que as filas podiam ser menores se houvessem mais doadores/Foto: Gleison Luz/Fundhacre
De acordo com dados do Ministério da Saúde, liberados no dia Nacional da Doação de Órgãos, no Brasil foram realizados 19.844 procedimentos apenas no ano de 2025, sendo 7.098 transplantes de órgãos e 12.746 transplantes de córnea.
No estado do Acre, no ano de 2025, até 21 de outubro, foram 38 transplantes, sendo 9 deles de rim, 12 de córnea, 14 de fígado e 3 de transplantes ósseos. Ao todo, o programa de transplantes do estado, iniciado em 2006, realizou 2006 procedimentos.
Gratidão e esperança
Nerian diz que o transplante representa a esperança de um dia carregar sua filha no colo/Foto: Cedida
Para Nerian, tudo se resume a uma palavra: gratidão. “Sou grata a Deus, à equipe médica, à Fundhacre e ao Estado por trazer esse tratamento para cá. Não é só para mim, mas para muitas pessoas que também precisam. Foi um sonho realizado”, conclui, com a esperança de retomar a vida plena ao lado dos filhos.
