O inquĂ©rito policial que investiga a sĂ©rie de homicĂdios por envenenamento ocorridos em SĂŁo Paulo e no Rio de Janeiro revelou grau de frieza e planejamento que chamou a atenção das autoridades.
Investigação do 1Âș DP de Guarulhos, na Grande SĂŁo Paulo, mostra que as irmĂŁs gĂȘmeas Ana Paula Veloso Fernandes e Roberta Cristina Veloso Fernandes, de 35 anos, pretendiam operar esquema de morte por encomenda, chegando a estipular valor mĂnimo para a execução dos crimes.
As apuraçÔes da PolĂcia Civil de SĂŁo Paulo apontam que Ana Paula, que se identificava como enfermeira, e a irmĂŁ, Roberta, utilizavam um sistema de codificação e consultoria para planejar assassinatos â ao menos quatro jĂĄ foram constatados.
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As conversas por mensagens entre Ana Paula e Roberta Cristina revelaram planejamento prĂ©vio, divisĂŁo de tarefas e discussĂ”es explĂcitas sobre pagamento. Para se referirem aos homicĂdios, elas empregavam um âcĂłdigoâ: chamavam a execução da morte de TCC (Trabalho de ConclusĂŁo de Curso).
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Ana Paula confessou ter matado colega de moradia Ă polĂcia
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Ana matou Neil por encomenda, no Rio de Janeiro
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Na casa dela foi encontrado veneno
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Uma da vĂtimas foi morta apĂłs encontro via app
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Criminosa estĂĄ presa desde setembro
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Acusada estĂĄ envolvida em ao menos quatro mortes por envenenamento
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Valor por morte
Documentos judiciais obtidos pelo MetrĂłpoles mostram que o esquema possuĂa atĂ© mesmo um preço base. Roberta Cristina, em sua função âde apoio logĂstico e financeiroâ, orientou a irmĂŁ a âcobrarâ por futuros TCCs. Foi ela quem fixou R$ 4 mil como âvalor mĂnimoâ por execução.
AlĂ©m disso, Roberta recomendou o uso exclusivo de dinheiro em espĂ©cie para a aquisição de âtaxas e insumosâ, estratĂ©gia destinada a dissimular rastros financeiros. A preocupação com a segurança das comunicaçÔes tambĂ©m era latente, com Roberta advertindo que, â[para] coisas mais importantes, melhor [falar] por ligação [telefĂŽnica]â.
O caso que revelou o sistema de precificação e planejamento foi o homicĂdio de Neil CorrĂȘa da Silva, de 64 anos, ocorrido em Duque de Caxias (RJ), em 26 de abril. Neil foi vĂtima de um homicĂdio cometido mediante promessa de recompensa. As provas digitais indicam que Ana Paula viajou ao Rio de Janeiro e se encontrou com a vĂtima.
Em um ĂĄudio enviado a Roberta, Ana Paula detalhou a tentativa de administração do veneno, afirmando que tentou dar comida âbatida no feijĂŁoâ e que a pessoa âcomeu sĂł duas colheres e [se] deitouâ. Durante interrogatĂłrio formal, Ana Paula Veloso Fernandes confessou o assassinato de Neil CorrĂȘa da Silva, fornecendo detalhes que corroboram as provas digitais.
âChumbinhoâ em casa
Ao compilar o acervo de provas que resultou no indiciamento de Ana Paula por quatro homicĂdios qualificados, a polĂcia ressaltou a natureza hedionda dos crimes. Todos os assassinatos foram praticados, segundo a investigação, com uso do veneno popularmente conhecido como âchumbinhoâ. Ilegal, o produto foi encontrado na residĂȘncia da assassina em sĂ©rie.
AlĂ©m de Neil, as vĂtimas identificadas na investigação sĂŁo:
- Marcelo Hari Fonseca, encontrado morto em 31 de janeiro, em Guarulhos, assassinado por motivo torpe para apropriação do imóvel;
- Maria Aparecida Rodrigues, encontrada morta entre 10 e 11 de abril, também em Guarulhos, morta para que Ana Paula pudesse incriminar o ex-amante;
- Hayder Mhazres, morto em 23 de maio, na capital paulista, por motivo torpe enquanto Ana Paula tentava obter proveito financeiro alegando falsa gravidez.
O envolvimento direto de Roberta Cristina Veloso Fernandes, irmĂŁ gĂȘmea de Ana Paula, tambĂ©m foi estabelecido na fase de apuração, nĂŁo apenas pela consultoria financeira, mas por atos na ocultação de vestĂgios. Roberta admitiu em depoimento que âqueimou o sofĂĄâ de uma das vĂtimas, âpois estava fedendo em razĂŁo do estado avançado de decomposição.
âVerdadeira serial killerâ
Diante da robustez das provas e da gravidade dos fatos, o MinistĂ©rio PĂșblico de SĂŁo Paulo classificou Ana Paula como uma âverdadeira serial killerâ, e a prisĂŁo temporĂĄria dela foi convertida em preventiva, ou seja, por tempo indeterminado. Roberta Cristina, por sua vez, tambĂ©m foi detida temporariamente, e novo inquĂ©rito policial foi instaurado especificamente para aprofundar a investigação sobre a conduta dela e individualizar as responsabilidades no esquema criminoso.
A revelação de que as irmĂŁs comercializavam a morte por valor mĂnimo de R$ 4 mil, juntamente com a sofisticação da ocultação de provas e a reiteração criminosa, levou a Justiça de Guarulhos a receber integralmente a denĂșncia contra Ana Paula, unindo todos os casos â de Guarulhos, SĂŁo Paulo e Rio de Janeiro â, devido Ă conexĂŁo instrumental e probatĂłria.
O JudiciĂĄrio aguarda a continuidade das diligĂȘncias essenciais, como exumaçÔes e anĂĄlise completa do sigilo bancĂĄrio das acusadas, para mapear todos os fluxos financeiros ligados ao suposto empreendimento de assassinato por encomenda.

