Mensagens expĂ”em briga por penduricalhos no MPSP: “SĂł quero pagar contas”

Por MetrĂłpoles 01/10/2025

Mensagens de um grupo de WhatsApp formado por mais de 500 promotores e procuradores da ativa e aposentados do MinistĂ©rio PĂșblico de SĂŁo Paulo (MPSP) expĂ”em a briga pelo pagamento de penduricalhos, a ciumeira com carros de luxo de desembargadores e a ira contra um colega que foi ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra o pagamento de um benefĂ­cio que turbinou os contracheques da carreira.

Nos diĂĄlogos obtidos pelo MetrĂłpoles, membros do MPSP reclamam de estar em uma “classe social inferior” Ă  dos magistrados e dizem que os penduricalhos — valores pagos alĂ©m do salĂĄrio como verbas indenizatĂłrias — sĂŁo uma “defesa contra o arrocho salarial”. “Eu sĂł quero pagar minhas contas”, escreveu um deles.

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O grupo no WhatsApp leva o nome “Equiparação Já” e fomenta duas reivindicaçÔes centrais de promotores e procuradores. A primeira Ă© equiparar seus vencimentos aos dos magistrados do Tribunal de Justiça de SĂŁo Paulo (TJSP), o que consideram uma disparidade inconstitucional. A segunda estĂĄ relacionado Ă  equiparação entre os pagamentos a membros da ativa e os aposentados do MPSP.

Entre os integrantes do grupo hĂĄ membro do MinistĂ©rio PĂșblico paulista que recebeu R$ 67 mil lĂ­quidos somente em agosto deste ano, e mais de R$ 100 mil em dezembro de 2024, de gratificação natalina e verbas indenizatĂłrias.

“Vc já passeou de Porsche hj?”

Entre os membros do MPSP mais atuantes no grupo da “equiparação” salarial estĂĄ o procurador Marcio Sergio Christino. No sĂĄbado (20/9), por exemplo, ele perguntou de forma irĂŽnica aos outros membros se eles jĂĄ haviam passeado de Porsche naquele dia. Depois, reclamou do “desnĂ­vel financeiro e social” dos representantes do MinistĂ©rio PĂșblico em relação Ă  magistratura.

“VocĂȘ jĂĄ passeou de Porsche hj? Parece que ficamos acostumados com o desnĂ­vel financeiro e social que nos colocamos em relação Ă  magis”, escreveu Christino, referindo-se Ă  magistratura. “Desembargador amigo estĂĄ uma foto dele andando de Porsche pela Rodovia dos Bandeirantes com o teto solar aberto. Isto me lembrou do almoço onde eles (desembargadores) discutiam justamente isso. E lembravam que os trĂȘs comensais haviam comprado o mesmo carro”, completou ele.

No dia seguinte, o procurador voltou ao grupo, lamentou a proximidade financeira dos membros do MPSP, que são os promotores e procuradores, com “funcionários” do órgão, como os analistas. E relembrou o caso dos Porsches.

“VocĂȘs sabiam que percentualmente a diferença entre nĂłs e os desembargadores Ă© maior que a diferença entre nĂłs e os analistas? Ou seja, estamos mais perto de sermos vistos financeiramente como funcionĂĄrios do que como iguais”, disse. “Isto confirma o que eu havia dito antes: agora estamos em uma classe social inferior. E isto nĂŁo Ă© eventual, Ă© estrutural. Bom domingo, com ou sem Porsche”, acrescentou.

A conversa sobre os carros de luxo continuaram durante a semana e receberam o apoio de outra procuradora, ValĂ©ria Maiolini, que fez o relato de um juiz que acabava de comprar seu terceiro carro de colecionador, acumulando R$ 1 milhĂŁo em veĂ­culos caros, enquanto os membros do MPSP brigavam “para receber o mĂ­nimo”.

“Inacreditável o que estamos vivendo! Um conhecido meu juiz acabou de comprar o terceiro carro de colecionador! Mais de 1 milhão só em carros de colecionadores para ficar na garagem e sair só final de semana!”, exclamou a procuradora, que foi procurada por telefone e WhatsApp, mas não respondeu à reportagem.

Outro membro do MPSP chamado Leonardo — ele nĂŁo quis se identificar ao ser contatado com a reportagem — disse que precisava dos auxĂ­lios e benefĂ­cios pagos alĂ©m do salĂĄrio para “pagar as contas”. “Eu nem quero um Porsche. Eu sĂł quero pagar minhas contas”, disse.

O procurador MĂĄrcio Christino respondeu lembrando da mensagem que enviou sobre os Porsches e completou com outro comentĂĄrio, dizendo que o vencimento dos membros do MPSP estava se equiparando ao salĂĄrio pago no “magistĂ©rio”. Em seguida, ele faz um trocadilho ao apelido “magis” dado a carreira dos “magistrados” para se referir aos professores.

“E pior, nĂŁo hĂĄ mudança de perspectiva Ă  vista, estamos nos tornando igual a Magis
 MagistĂ©rio”, respondeu o procurador.

Procurado pela reportagem, MĂĄrcio Christino disse, inicialmente, que nĂŁo lembrava das mensagens e acusou suposta adulteração das conversas. Depois, disse se tratar de consequĂȘncias de uma “disputa eleitoral”, jĂĄ que ele Ă© candidato ao Conselho Superior do MinistĂ©rio PĂșblico, que terĂĄ eleiçÔes em dezembro (veja abaixo o posicionamento dele).

Um dos administradores do grupo, o procurador Luiz Faggioni disse que dirige um carro popular. O comentĂĄrio seria uma ironia com os desembargadores e nĂŁo expressaria o desejo dele de andar de Porsche.

“A gente tem um monte de dinheiro atrasado que a gente nunca recebeu. E Ă© uma gozação porque a magistratura estĂĄ recebendo”, explicou Faggioni ao MetrĂłpoles. “A gente tem um salĂĄrio que para a sociedade brasileira Ă© excelente, mas a gente estava brincando com essa disparidade entre duas carreiras que teoricamente, pela Constituição, tĂȘm que ganhar o mesmo valor”, acrescentou.

Tanto Christino, quanto Faggioni receberam mais de R$ 100 mil em dezembro e, nos Ășltimos nove meses, tiveram mĂ©dia salarial de R$ 70,5 mil.

Xingamentos a colega

Um membro do MPSP que acionou o STF recentemente contra um auxĂ­lio recebido pelos promotores foi alvo de xingamentos de outros integrantes do grupo. O alvo Ă© aposentado e, segundo membros do MinistĂ©rio PĂșblico que aparecem na conversa, nĂŁo faz parte do grupo de WhatsApp. Nas mensagens, ele Ă© chamado pelos colegas de “idealista”, “mesquinho”, “ingĂȘnuo”, entre outros adjetivos.

“Uma burrice, sem tamanho. Uma ação pequena, de uma pessoa mesquinha, com visão estreita”, escreveu Leonardo sobre a ação do colega.

Ele foi respondido por ValĂ©ria, que alega que SĂŁo Paulo Ă© o Ășnico estado prejudicado com a ação movida contra o penduricalho.

“Síndrome de vira lata mesmo! Querer nivelar por baixo quando todos já receberam suas verbas, menos SP, muito pouco pago, Piauí e RS! Só SP será prejudicado com auto!”, escreveu.

Marcio Christino também criticou a ação no grupo.

“Tal ação Ă© de antemĂŁo um insucesso, nĂŁo servirĂĄ para nada, exceto nos expor”, argumentou. “Certo estĂĄ o Leonardo, a luta Ă© pelo orçamento que beneficiarĂĄ a todos”.

Luiz Faggioni, o administrador do grupo, tambĂ©m entrou no coro e disse que o autor da ação era “inimigo da classe”. ValĂ©ria volta Ă  discussĂŁo questionando se o colega havia aberto mĂŁo de outros privilĂ©gios.

“AlguĂ©m sabe dizer se o colega abriu mĂŁo do auxĂ­lio moradia quando foi pago: Porque quem nĂŁo concordou abriu mĂŁo de receber! E ele?”, perguntou a procuradora.

“Está militando para destruir direitos importantíssimos”, respondeu Faggioni.

Jå Leonardo justifica os penduricalhos contra a desvalorização do salårio.

“A armadilha Ă© que o salĂĄrio de todo o funcionalismo pĂșblico foi indexado ao do ministro do STF. EntĂŁo, fica praticamente inviĂĄvel um aumento real. Por isso surgiram os penduricalhos: legĂ­tima defesa contra o arrocho salarial”, disse.

Um dos participantes do grupo, o promotor Jamil Luiz Simon, de Campos do Jordão, aposentado neste ano, disse que o salårio dos promotores não pode ser comparado com outras profissÔes da sociedade brasileira pelo mérito de ter passado no concurso, as particularidades da profissão e a necessidade de manter bons quadros no MPSP, diante da possibilidade de se tornarem advogados.

Ele ainda comentou que os penduricalhos sĂŁo justos, diante da inflação do paĂ­s, e que Ă  exceção de poucos estados, os magistrados e MinistĂ©rios PĂșblicos recebem o “auxĂ­lio acervo” e o “adicional de tempo de serviço” retroativo. A revolta quanto ao colega se dĂĄ pela indignação dele ter se voltado contra a classe.

“NĂŁo recebeu represĂĄlia. Parece que ele nem faz parte do grupo. E Ă© lĂłgico, quando vocĂȘ estĂĄ conversando em um grupo fechado, vocĂȘ usa expressĂ”es”, disse Simon ao MetrĂłpoles. “Se a ação dele tiver sucesso — a gente acredita que nĂŁo vai ter, mas sĂł quem sabe Ă© o STF —, a gente vai perder esse crĂ©dito, nĂ©? E outros MinistĂ©rios PĂșblicos do paĂ­s e magistratura, de vĂĄrios estados, federal, estadual etc., vĂŁo receber e nĂłs nĂŁo. Como que um colega move uma ação dessa contra a prĂłpria classe?”, questionou.

Eleição do CSMP

Segundo apurou o MetrĂłpoles, o pano de fundo dessas queixas Ă© a eleição ao Conselho Superior do MinistĂ©rio PĂșblico (CSMP), marcada para 6 de dezembro. Ao menos trĂȘs chapas devem concorrer. Apenas uma candidatura, a de Marcio Sergio Christino, nĂŁo tem ligação com o atual procurador-geral de Justiça (PGJ), Paulo Sergio Oliveira e Costa. Por isso, Ă© considerada de oposição.

Na situação, o subprocurador-geral Wallace Paiva deve capitanear uma das candidaturas. O ex-subprocurador-geral José Carlos Cosenzo também deve disputar a eleição do CSMP. Ele concorreu para ser PGJ, ficou em primeiro da lista tríplice, mas não foi escolhido pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que preferiu Oliveira e Costa, o terceiro colocado daquela disputa.

Penduricalho milionĂĄrio

Como mostrou o MetrĂłpoles em abril, nos Ășltimos anos, MinistĂ©rios PĂșblicos estaduais em todo o paĂ­s tĂȘm autorizado o pagamento do acĂșmulo de acervo apĂłs o Conselho Nacional da categoria (CNMP) ter decidido, em 2022, que promotores tĂȘm direito ao pagamento retroativo do penduricalho relativo ao perĂ­odo entre 2015 e 2023. O acumulado desses anos provocou o pagamento de verdadeiras boladas de atĂ© mais de R$ 1 milhĂŁo por promotor nos MPs estaduais.

Esse foi um dos pagamentos que foram objeto da ação no STF movida por um promotor que queria barrar seu empenho e devolvĂȘ-lo. Os promotores e procuradores do grupo de WhatsApp justificaram, mais de uma vez, nas mensagens obtidas pelo MetrĂłpoles que o pagamento era um direito e que deveriam recebĂȘ-lo jĂĄ que em outros estados os MPs jĂĄ haviam executado.

Somente em 2023, 90% dos promotores e procuradores receberam mais do que R$ 46,3 mil por mĂȘs, valor que representa o teto do funcionalismo no Brasil. Dados da plataforma DadosJus, da TransparĂȘncia Brasil, mostram que, no ano passado, membros dos MPs chegaram a ganhar mais de R$ 800 mil em um Ășnico mĂȘs.

O que diz o procurador MĂĄrcio Christino

Procurado pelo Metrópoles para comentar as mensagens trocadas no grupo de WhatsApp, o procurador Mårcio Christino afirmou que desconhece o teor dos comentårios e atribuiu o vazamento dos diålogos à eleição interna do MPSP.

“Lamento profundamente a publicação de comentĂĄrios cuja origem e teor desconheço. De fato, participo de vĂĄrios grupos, aquele inclusive, mas nĂŁo me recordo destas mensagens e reputo indevido o uso de meu nome. O teor destas mensagens estĂĄ manipulado em seu conteĂșdo. Sem apontar a origem fica inviĂĄvel a comparação. O MP estĂĄ em Ă©poca de disputas eleitorais e sou candidato, evidente a intenção de interferir no processo eleitoral. Isto mostra como o processo polĂ­tico interno transborda. Especialmente para quem contesta açÔes e omissĂ”es da prĂłpria instituição.”

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